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quarta-feira, 7 de novembro de 2018
Ideologia
Nesta época da semântica desvairada já não
se chamam mais de corruptos. São apenas
pessoas movidas pela ideologia da propina.
MILLÔR FERNANDES
terça-feira, 6 de novembro de 2018
Em cima do muro
Ivar Hartmann
Nas recentes eleições brasileiras os adeptos de uma e outra candidatura classificavam seus oponentes ou de petralhas, alusivo a quadrilha de ladrões criada por Walt Disney, os irmãos Metralha, ou de fascistas por o candidato capitão defender o movimento militar de 1964 e seus componentes. Será que todos os 40 milhões de votos de um e 50 milhões do outro se podem rotular simplesmente de petralhas uns, fascistas outros? É óbvio que não. Mas então quem são os componentes desta massa de eleitores? A maioria de um nem outro grupo sequer sabe por que o chamam de petralha ou fascista. Segundo e mais importante, são eleitores de todas as idades, sexos, origens, religiões, escolaridade e riqueza, residindo em cidades grandes e pequenas, ricas ou pobres com bons ou maus serviços públicos. Em regiões que obedecem ainda hoje a caciques políticos como no Nordeste, ou onde eles desapareceram já no século passado, como no Sudeste. Com estes dados, quantos milhões de combinações são possíveis? O resultado são os eleitores.
Os cronistas políticos gostam de falar de que o fulano está em cima do muro. Muro figurativo e importante. Eles não citam, mas, se temos um muro significa que ele divide duas porções de terreno. Podemos dizer que de um lado estão os adeptos da esquerda e do outro lado os da direita. De qualquer lado, com carteira assinada em partidos políticos, apenas alguns milhares. Estão na planície em ambos os lados. Os milhões que decidem uma eleição, felizmente estão em cima do muro. O que é muito bom. Na antiguidade enquanto as batalhas eram lutadas, os comandantes ficavam nos pontos mais altos. Porque de lá é que se tem a visão correta do conjunto. Só dos pontos mais altos. Só de cima do muro se tem visão para ambos os lados, permitindo bem examinar os programas e candidatos da ocasião. Os que estão nas partes baixas do muro, me perdoem, não tem a visão ampla dos milhões que decidem eleições apoliticamente. Sem fanatismo.
Nas recentes eleições brasileiras os adeptos de uma e outra candidatura classificavam seus oponentes ou de petralhas, alusivo a quadrilha de ladrões criada por Walt Disney, os irmãos Metralha, ou de fascistas por o candidato capitão defender o movimento militar de 1964 e seus componentes. Será que todos os 40 milhões de votos de um e 50 milhões do outro se podem rotular simplesmente de petralhas uns, fascistas outros? É óbvio que não. Mas então quem são os componentes desta massa de eleitores? A maioria de um nem outro grupo sequer sabe por que o chamam de petralha ou fascista. Segundo e mais importante, são eleitores de todas as idades, sexos, origens, religiões, escolaridade e riqueza, residindo em cidades grandes e pequenas, ricas ou pobres com bons ou maus serviços públicos. Em regiões que obedecem ainda hoje a caciques políticos como no Nordeste, ou onde eles desapareceram já no século passado, como no Sudeste. Com estes dados, quantos milhões de combinações são possíveis? O resultado são os eleitores.
Os cronistas políticos gostam de falar de que o fulano está em cima do muro. Muro figurativo e importante. Eles não citam, mas, se temos um muro significa que ele divide duas porções de terreno. Podemos dizer que de um lado estão os adeptos da esquerda e do outro lado os da direita. De qualquer lado, com carteira assinada em partidos políticos, apenas alguns milhares. Estão na planície em ambos os lados. Os milhões que decidem uma eleição, felizmente estão em cima do muro. O que é muito bom. Na antiguidade enquanto as batalhas eram lutadas, os comandantes ficavam nos pontos mais altos. Porque de lá é que se tem a visão correta do conjunto. Só dos pontos mais altos. Só de cima do muro se tem visão para ambos os lados, permitindo bem examinar os programas e candidatos da ocasião. Os que estão nas partes baixas do muro, me perdoem, não tem a visão ampla dos milhões que decidem eleições apoliticamente. Sem fanatismo.
Explicação
A diferença fundamental entre Direita e Esquerda
é que a Direita acredita cegamente em tudo que
lhe ensinaram, e a Esquerda acredita cegamente
em tudo que ensina.
é que a Direita acredita cegamente em tudo que
lhe ensinaram, e a Esquerda acredita cegamente
em tudo que ensina.
Millôr Fernandes
Coisas da vida
Jorge Azevedo
Essas coisas da vida a gente nunca esquece...
Um longo beijo ao luar... uma mentira linda...
Num suspiro de amor... num sussurro de prece,
Guardar de toda boca uma saudade infinda...
E então quando se é moço e o ardor não arrefece,
Goza-se a mocidade enquanto ela não finda...
Da vida bem vivida o ocaso recrudesce
A tristeza de não poder mentir ainda...
E a minha mocidade em beijos se avigora,
Encontra em toda boca uma esplendente aurora
E em todo amor um sol em que febril, se aquece...
E na efemeridade em que ela se resume,
O consolo a lembrar... lembrar... pois ao perfume
Distraído
- Mãe, mãe! A professora disse hoje que
eu ando muito distraído!
eu ando muito distraído!
- Ok querido, mas não sou a sua mãe!
segunda-feira, 5 de novembro de 2018
O grito
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| Foto: Heudes Regis/VEJA |
Heraldo Palmeira
A noite de início de primavera trazia os primeiros sinais da temporada de calor. A padaria de bairro – que a cidade gigante aprendeu a chamar de padoca – reencontrava os fregueses de todas as noites. Brincávamos entre nós, jogando no ar boas pilhérias amparadas em algumas características individuais, micos antigos, o de sempre. Qualquer motivo dando motivo.
Nenhum item do cardápio é tão saboroso quanto provocar os meninos atrás do balcão, jogar uns contra os outros, tirar onda! E falar das últimas e das penúltimas, ainda mais quando é noite de futebol ou seguinte à rodada dos diversos campeonatos.
Aí, brilha a verdadeira enciclopédia ambulante, um freguês que sabe tudo de números, resultados, prognósticos, nomes, análises, dados que vão surgindo enfeitados por aquele sotaque italiano radical de origem, cantado, belíssimo, Moóca legítimo.
Ali trabalha uma gente raçuda, que mora longe, que pega ônibus, que leva hora e meia e beira a madrugada para chegar em casa. Mas que não verga, volta no dia seguinte, alegria em punho, fraternidade na ponta da língua, bem-querer do melhor que existe.
Uma gente justa, com visão de mundo e práticas cotidianas que nos obrigam a seguir acreditando nessa tal de gente. Uma gente que vive o que faz porque faz pra valer, se gratifica na satisfação do cliente, tem orgulho de estar na boa luta.
Têm plena consciência de que preparam comidas deliciosas, tudo que sai da cozinha é ótimo. E, de sobremesa, criaram a receita de um adorável local de trabalho.
Uma gente que não esquece o que você gosta e capricha no preparo, mas sugere experimentar outras coisas, cuida dos que fazem dieta – impedem refrigerantes, açúcar, sal e o escambau. E que ouve sugestões e chama a patroa para ouvir também, sem medo de dizer que concorda com o freguês. Não raro, mandando um sonoro “Tá vendo, eu não disse?” glorioso, de peito estufado!
Rabada com agrião deverá entrar no cardápio em breve. Votação unânime e rápida, encerrada minutos depois da sugestão, sem recursos e discursos intermináveis. Afinal, ali, o único supremo que se leva em conta é o de frango. O resto é piada.
A patroa, entre tantos afazeres, quer aprender a guiar moto e comprar uma. O filho desfila a belíssima Harley tinindo de nova, mas está desestimulando a mãe. Tem medo por ela, que anda animada com uma Triumph que sugeri, e vai tocando a vida com o sonho viajando na garupa.
Depois de um dia de trabalho, difícil pensar em ir para casa sem passar por lá, nem que seja para dar uma sacaneadinha básica na chatice da vida.
Gosto de ficar num canto de parede, colado no balcão, sentado confortavelmente. Posso ler as notícias do dia no celular, saber das novidades da região, prosear enquanto preparam meu pedido, tirar dúvidas de última hora – “posso colocar balsâmico na salada? Tempero logo aqui? Cebola crua ou refogada, doutor?” – tirar onda com o amigo que tenta arrumar namorada usando aplicativo...
Nada melhor do que ouvi-los ralhando com o garçom matreiro que não tira o sorriso do canto da boca e dos olhos, que não para de lançar iscas para a fuleiragem começar. Ou continuar. Claro, eles sempre me pedindo opiniões cavilosas para provocar, para engrossar o caldo.
Uma gente que erra seu pedido – peixe ao invés do frango grelhado escolhido – e, com charme irresistível, diz que se desentendeu com o colega na hora da transmissão digital do pedido. Um jeito maravilhoso de não haver culpados, pois ali é um lugar do prazer da boa convivência. Para completar, o sem-vergonha ainda faz uma defesa firme das qualidades do pescado, ômega 3 e tal... E arremata para o gol: “Amanhã pode vir comer seu frango que eu faço no capricho”. Game over!
É claro que a algazarra é robusta, falamos alto, ainda mais quando tiramos sarro de uma das balconistas, que adora – de pura safadeza – jogar água na direção dos nossos pés quando chega a hora de lavar o chão para fechar a casa. “Bora, que eu moro longe!”.
Mas, naquela noite de início de primavera, uma voz soou mais alto. O homem dirigiu-se quase ameaçador à mulher, na mesa ao lado.
– Dá pra você deixar essa porra de telefone de lado?
– Mas eu preciso só dar uma olhada, porque o pessoal está terminando...
– Deixe o pessoal pra lá. Será possível?! A gente saiu com o nosso filho para ficar juntos, conversar, curtir em família. E você tem que ficar mexendo nessa porra?
O filho, um pós-bebê que ainda cambaleava testando os primeiros passos e não tinha se iniciado nas falas, começou a demonstrar aflição com a discussão dos pais. Impotente, sem saber como mandá-los parar, jogou o cardápio no meio do salão.
Retrato destes tempos de relações que começam, crescem e morrem pelas (e até por causa) redes sociais, ali estava um extrato do exagero digital, essa doença que avança silenciosa, covarde, cruel, criando viciados em fumaça, glutões desse éter que alimenta o individualismo, a ilusão, a solidão, a depressão e a negação do que não pode ser negado: o homem é um ser social e não um conjunto de bits que deve viver conectado feito um hardware periférico num mundo virtual.
O silêncio na padoca era gritante naquele momento, como na hora da cobrança de um pênalti. O garçom matreiro, aquele do sorriso no canto da boca e dos olhos, foi rápido no lance e fez sua jogada de craque para virar o jogo:
– Pode deixar que o tio pega. O que você escolheu, menino lindo?
Um dos rapazes do balcão relançou em campo, de primeira sem segunda, a ladainha do gol de mão da rodada anterior, que manteve o líder no topo da tabela. Eu não deixei quicar, de bate-pronto evoquei a inspiração no velho malandro Maradona e la mano de Dios.
Um senhor, na ponta-esquerda, lá perto da saída, recebeu meu passe, matou no peito e evocou o carioca Mário Vianna – o velho juiz que virou comentarista de rádio e que cravou o bordão “La mano, eu disse la mano”, quando algum espertalhão metia a mão na bola.
Soou o apito, o jogo parou, o casal baixou sua própria bola depois que a mulher aquiesceu, abandonou o celular, reconheceu que pisou na bola, pediu desculpas ao homem e fez um afago no pequenino falando palavras carinhosas, de mãe.
Depois do pênalti, o pai, nos desvãos da atenção da mãe ocupada na fila do caixa, se derretia para uma moça linda, encantada com a graça do pirralho.
Em pouco tempo, o menino estava orbitando no melhor espírito da nossa padoca, correndo pelo salão, distribuindo a todos um sorriso tão franco, que merecia nunca ter um celular precoce para fazer logoff do mundo analógico.
Ele continuava mais do que autorizado a correr pelo campo inteiro, rindo para todos. E ninguém ousaria marcar impedimento àquela felicidade pura. Afinal, ele já estava conectado com a alegria que a gente cultiva ali, noite a noite, com força, seja qual for a estação do ano, haja calor ou frio.
Aos amigos de uma padoca das Perdizes.
Documentarista, produtor cultural e colaborador do
Bar de Ferreirinha
domingo, 4 de novembro de 2018
As bodas
Ciduca Barros
Há bastante tempo, quando eu era servidor do Banco do Brasil, trabalhei e morei numa cidade do Seridó onde havia um barzinho, cujo dono era tido como gay.
Na nossa agência trabalhava um colega, um bom amigo que, infelizmente, já nos deixou, que era frequentador contumaz do bar do assumido gay.
Ele ia tanto ao barzinho que o proprietário o considerava um cliente VIP.
Um belo dia, o dono do bar tomou uma decisão que revolucionou a cidade: resolveu se casar.
E, estranhamente, casar com uma mulher (naquele tempo ainda não se pensava em casamento entre pessoas do mesmo sexo).
Aquela resolução insólita deixou a cidade em frenesi.
O futuro casamento passou a ser assunto das rodas sociais da cidade, inclusive nosso lá no Banco do Brasil.
O noivo marcou o dia do casamento e convidou seus parentes e amigos, inclusive o seu cliente VIP, que seria um dos padrinhos.
No dia agendado, oficializadas as cerimônias do casamento, foram todos para o bar comemorar as bodas.
E contam que, na hora de cortar o bolo e posar para as fotos, o noivo convidou o seu cliente especial, nosso colega bancário e seu padrinho de casamento, para posar entre os nubentes.
E também contam as más-línguas que, naquele momento, o novel macho teve uma recaída.
Por baixo da mesa, segurando firmemente na genitália do padrinho e revirando os olhinhos, com uma voz sexy, declarou:
– Olha, Cleto! Eu estou casando, mas vou continuar sendo o mesmo, tá?
Escritor e colaborador do Bar de Ferreirinha
sábado, 3 de novembro de 2018
Sonho
TODA MULHER SONHA EM TER UM HOMEM QUE ELA POSSA LIGAR E DESLIGAR, COMO SE FOSSE UM INTERRUPTOR DE LUZ.
Gilson Variedades
Devoção
Patricia Clemente
Molhados um do outro nossos corpos são,
Cansada, nos teus braços, queres me fazer dormir.
Não quero.
Não quero que se esfrie o meu suor no teu.
Não quero que se perca o teu cheiro em mim.
Entende, meu Senhor, eu não sou nada.
Mesmo que o queiras, nunca igual a ti.
Eu limpo em minhas roupas o suor do teu corpo,
Cuidadosa, seco o que deixei em ti,
Parte a parte tiro-te o suor do corpo,
Meu vestido enxuga o dorso, teus cabelos,
Tuas coxas, tuas pernas, teus quadris.
A calcinha limpa o teu sexo.
Depois me visto.
Com tua permissão me retiro
Levando teu cheiro em mim.
Não quero.
Não quero que se esfrie o meu suor no teu.
Não quero que se perca o teu cheiro em mim.
Entende, meu Senhor, eu não sou nada.
Mesmo que o queiras, nunca igual a ti.
Eu limpo em minhas roupas o suor do teu corpo,
Cuidadosa, seco o que deixei em ti,
Parte a parte tiro-te o suor do corpo,
Meu vestido enxuga o dorso, teus cabelos,
Tuas coxas, tuas pernas, teus quadris.
A calcinha limpa o teu sexo.
Depois me visto.
Com tua permissão me retiro
Levando teu cheiro em mim.
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