Imagem: Miguel Padriñán/Pixabay
Heraldo Palmeira
“O que importa é ouvir a voz que vem do coração” (Milton Nascimento-Fernando Brant)
Em qualquer direção que se olhe haverá alguém com a cara enfiada em alguma bugiganga tecnológica. Tá valendo, é da vida, e ninguém tem dado muita bola aos alertas médicos a respeito dos riscos à saúde causados pela superexposição a telas e epidemia de individualismo.
Quando o assunto é ouvir música, os mais velhos lamentam pelos mais novos a péssima qualidade técnica que esses equipamentos de som digitais multitarefas oferecem. Tudo cabe num smartphone, escrita, foto, áudio e vídeo. Não para situações de emergência, de necessidades portáteis apenas, mas como plataformas principais no lugar de alternativas melhores.
A sala era um sonho onde moravam verdadeiras joias da era de ouro dos sistemas modulares de alta fidelidade — “moravam” porque simplesmente tinham vida longa, não quebravam, atravessavam o tempo sem perder a majestade. Estavam lá um receiver Marantz 4400, toca-discos Technics SL-1200 (com cápsula Shure V15III e agulha VN35MR), tape deck cassete Nakamichi 1000, gravador de rolo Teac 25-2 e quatro caixas JBL L100 Century (devidamente elevadas do chão em suportes) nos quatro cantos do ambiente, para atender o sistema quadrafônico do Marantz com seu marcante scope no painel.
É óbvio que nenhuma música passaria à toa naquela sala, seria tocada de corpo e alma. Todos esses equipamentos são icônicos, analógicos, manuais e fabricados na década de 1970. À exceção de JBL e Shure (marcas americanas), os demais traziam uma plaquinha na parte traseira com um orgulhoso Made in Japan, que representava uma reviravolta na imagem da indústria japonesa ao assumir uma posição de alta qualidade e liderança tecnológica — ficava para trás o tempo em que o país foi acusado de piratear e miniaturizar produtos americanos e europeus como forma de recuperar a economia nacional no pós-guerra.
São produtos que representam um momento em que a engenharia foi capaz de se entregar de corpo e alma à criação de meios para a arte audiovisual se apresentar em roupa de gala — as inovações no cinema, rádio e televisão complementam esse ciclo virtuoso.
Com esse auxílio luxuoso, o disco de vinil se tornava ainda mais envolvente, vivo e tocava numa dimensão que nenhum CD jamais ousaria alcançar, até porque não foi dotado do charme daqueles ruídos de fundo antes da primeira música e entre as faixas. Se o som digital oferece maior faixa dinâmica, clareza e silêncio absoluto, o famoso “som quente” e a resposta de frequência mais suave do analógico nunca precisou de mais nada. E a conversa entorta de vez quando se chega aos projetos gráficos com aquelas capas e encartes que serviram de oráculo na liturgia da música.
O futuro chegou reformando tudo e relegou o vinil a coisa fora de moda, ao mundo sebista. Ainda bem, não faltou oxigênio nesse ambiente de aficionados. Quem tentou desprezar os sebos foi obrigado a ver o setor ganhar lojas cada vez mais especializadas e ampliadas para interesses complementares de equipamentos e acessórios. Na verdade, o vinil copiou os sebos de livros e se restabeleceu no mercado preparando o sorriso de quem ri por último.
Já vimos essas invasões prepotentes de novas tecnologias e muitas deram com os burros n’água. O cinema ia morrer com a televisão, que também ia matar o rádio. Sentindo o perigo no ar, os jornais e revistas migraram para o mundo das telinhas, seguem vivos e até mantendo as edições impressas possíveis. Os livros também virariam pó diante da praticidade da leitura digital, mas os editores não têm do que reclamar porque o mercado vai muito bem, obrigado, com crescimento mundial e liderança dos impressos sobre os formatos digitais. De repente, a velha foto Polaroid ressurge como “grande novidade”. Aquela estética retrô da foto física única com a emblemática moldura branca se mostrou um apelo nostálgico enorme e revitalizou a marca — as fotos instantâneas começaram a causar sensação em eventos privados e comerciais, voltando à publicidade e ao mundo da moda, onde marcaram época.
Há um revival ganhando corpo e isso é ótimo, é ainda melhor porque tem encantado as novas gerações, que parecem ansiosas por descobrir o que perderam. Filmes e séries têm mostrado equipamentos modulares de alta fidelidade em cenas diversas, e uma tendência de reviver músicas inesquecíveis nas trilhas sonoras. Não raro, um vinil na vitrola é mostrado sem pudor, a agulha em close trilhando os sulcos para fazer a mágica de espalhar o som.
Não adiantaram argumentos pragmáticos sobre espaços residenciais terem se reduzido demais ou a correria do cotidiano que exige rapidez e praticidade que o streaming oferece. O velho e bom vinil que seria dizimado pelo CD viu o algoz virar poeira, está voltando às casas cercado de livros, experimentou uma ressurreição notável e completa em 2026 o 20º ano consecutivo de crescimento nas vendas. Um mercado colossal que já fala em bilhão de dólares. Somente nos EUA.
Visitei um velho mercado instalado num bairro de comércio popular. Eu não ia por lá há muitos anos e, enquanto fazia hora para me esbaldar na comida caseira sem igual do almoço servido na parte final do enorme galpão, perambulei com um amigo vendo o passado e guardando memórias.
Comerciantes grisalhos, alegres vendendo filtros e panelas de barro e alumínio, artesanato, artigos de corda, metal e couro, enfeites, peças de decoração, secos e molhados, frutas… Vizinhos de boxes se ajudando em trabalhos manuais, arrumando prateleiras, conversando, jogando cartas e dominó, rindo, acolhendo quem chega. Já entrei ajudando uma senhorinha a tirar cestos de palha do carro para o estoque, numa farra de dar gosto.
Encontrei em alguns quiosques as velhas balanças mecânicas Hobart Dayton — há muitos anos deixaram de ser fabricadas — em prefeito funcionamento, o prato de inox, o ponteirão de metal marcando o peso da mercadoria. “A única coisa que quebrou até hoje foi essa aspa do ponteiro, mas o conserto custou baratinho na época”, me disse orgulhoso um feirante. “Tentei trocar por uma dessas digitais, mas a bicha não aguentou o rojão. Aí eu tive de trazer ela de volta”, explicou outro, apontando sua relíquia sobre o balcão com encanto derramado.
Aquele mercado segue como patrimônio cultural difícil de apagar e fiquei pensando na luta perdida que o algoritmo arranjou para anular aquelas manifestações originais, verdadeiramente antropológicas. Quase tudo ali é tátil, está disponível em 3D natural, mundo real sem muito sentido nessa mundanidade touch que chegou se achando a última Coca-Cola do deserto.
Até porque essa referência de importância suprema da última soda engarrafada pode se revelar um erro conceitual se olharmos para o próprio deserto, já que pouca gente além dos beduínos, tuaregues e bosquímanos vive naquele ambiente inóspito, e tem maneira bem mais original de matar a sede: água subterrânea dos oásis. Dificilmente desperdiçariam energia carregando peso extra, cujas embalagens seriam de difícil descarte naqueles fins de mundo.
Os povos nômades do deserto são uma fonte de sabedoria ensinando que não precisamos deixar nossos melhores valores para trás. Afinal, mesmo enfrentando condições severas, todos eles mantêm ligação intrínseca com a natureza e amor pela poesia, preservam costumes e poderoso patrimônio cultural ancestrais. E completam a receita com um traço fundamental: generosidade aos visitantes.
Cada qual em seu lugar no mapa-múndi, aquela comunidade do mercado também resiste mantendo seus valores originais, traços quase genéticos que a modernidade tentou mudar por decreto e fracassou. A nova ordem chegou impondo o descarte de “velharias” como sentença, mas alguém esqueceu de avisar que o algoritmo estava indo longe demais e sempre apostando na perda de qualidades indispensáveis. Uma delas, a liturgia de fazer as coisas usando os cinco sentidos, sem desistir do prazer da convivência.
Heraldo Palmeira é produtor cultural.
Texto originalmente publicado no no site Giramundo News Magazine.
