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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Trambicagem

Imagem gerada por IA

Alisando Cresci*

Quando o jeitoso perde o jeito e acredita que pode dar jeito, está nu como o trambiqueiro em plena trambicagem

Deu no jornal que Jaques Wagner fez sua entrada triunfal no lamaçal do Banco Master, depois que a PF finalmente trombou com mais um segredo de liquidificador que zumbia há tempos nos ares de Brasília a respeito das estrepolias do petralhismo baiano com a turma de Daniel Vorcaro. Sob a óptica da PF, corrupção passiva, ativa e lavagem de dinheiro

Na verdade, o nobre senador da Bahia é cliente seminal do Banco Master e dos favores vadios de Vorcaro, uma espécie de sócio-fundador da “Bancada do Master”. Como de praxe, jatinho para lá e para cá, mas isso nem conta, como defende Hugo Marmotta, outro que, como Wagner, é useiro e vezeiro do 0800 das asas alheias.

Voltando ao acarajé putrefato, Wagner está na raiz das patifarias do Master a partir do negócio da venda do supermercado Cesta do Povo, uma estrovenga montada pelo governo estadual baiano, que depois de mudar de dono virou o cartão de crédito consignado Credcesta e se transformou no maior negócio do império vorcariano.

Wagner também foi defensor da compra do Master pelo BRB, da “Emenda Master” de Ciro Nogueira e do aumento dos limites para empréstimos consignados no Credcesta. Segundo a PF, teria recebido R$ 3,5 milhões por essa “prestação de serviços”. E o nobre senador avança nos alfarrábios eletrônicos do banqueiro trambiqueiro, num provável butim que junta ainda um apartamento no valor de R$ 2,4 milhões. Na rubrica “gorjetinhas”, ingressos de camarote para shows de Taylor Swift (em São Paulo e Los Angeles) que custaram R$ 63 mil, os onipresentes relógios de luxo (13 exemplares), dólares (US$ 55 mil) e euros (€ 33 mil). Aliás, o político baiano nascido em Niterói é sistemático com as horas, já havia recebido um belo roscofe da Odebrecht nos idos da Lava Jato, mas garantiu que nunca usou o mimo!

Homem de família, o nobre senador também ficou felicíssimo quando o Banco Master firmou um daqueles mágicos contratos de consultoria com sua nora Bonnie Bonilha, que se apresenta ao mercado como “artista floral e terapeuta energética”. Diante dos pagamentos totais de cerca de R$ 11 milhões, feitos por meio de intermediários, não resta qualquer dúvida de que florais e terapia elétrica estão em alta no ranking dos ótimos negócios!

A piada pronta está numa matéria de O Globo: “Wagner vinha classificando o escândalo do Banco Master como uma ‘trambicagem’”. Agora, temos nas telonas e telinhas eleitorais duas trambicagens: o Black Horse de um lado e o Black Acarajé do outro. Comprem seus ingressos.

A maior ironia é assistir de camarote lulistas e bolsonaristas unidos numa mesma rede de cafajestagem, com os dois rebanhos aproveitando o clima de Copa do Mundo para gritar “gol” festejando a patifaria do outro lado. Idiotas completos, sequer se dão conta de que estão atolados na mesma lama, seguem defendendo seus bandidos de estimação como se houvesse um lado limpo na bosta. E o país constata que a descarga continua quebrada.

Como diz o meme da cartomante, “Menino, tu ainda vai ver coisa!”. Estamos vendo, faz tempo!

*Alisando Cresci não é jornalista. É especialista em beiradas alheias.

Cientistas querem criar a Enciclopédia da Bufa


Quem não peida, não vive

Já parou para pensar na quantidade de peidos que você solta por dia sem qualquer tipo de remorso? 

Um grupo de cientistas da prestigiada Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, decidiu deixar a vergonha de lado e mergulhar de cabeça na sinfonia intestinal. 

Não foi por mera galhofa, mas sim em prol da mais pura e real ciência médica. 

Afinal de contas, cada peido que sai é um desabafo sonoro sobre o que realmente se passa no seu microbioma.

Até hoje, ninguém conseguia medir este festival gasoso com a precisão que ele merece: os médicos dependiam sempre da honestidade dos pacientes.

Mas, convenhamos, ninguém confessa cada bomba disparada, principalmente se tiver criança na sala. 

Para resolver esta questão, os investigadores inventaram um sensor de hidrogénio para ser acoplado diretamente na roupa íntima. 

Com uma eficácia brutal de 94,7%, este bicho tecnológico não deixa escapar nenhum flato, registando tudo minuciosamente.

Os resultados iniciais foram chocantes e mostram que um adulto saudável solta cerca de 32 peidos/dia.

O número representa mais do que o dobro do que os velhos estudos de algibeira costumavam apontar. 

Houve quem registasse apenas quatro bombinhas modestas e outros mais ativos chegaram a 59 estrondos. 

Assim, os cientistas dividiram a plebe em três categorias bem distintas: 

- digestores zen, que comem montanhas de fibra e mantêm uma paz celestial sem igual no rabo;

- hiperprodutores de hidrogênio, autênticas fábricas de gás que põem qualquer ambiente público em alerta máximo;

- discretos, que bombardeiam o ambiente dentro da média e sem grandes excessos. 

O estudo quer recrutar voluntários pelo mundo para criar o pioneiro Atlas do Peido, incluindo uma tabela de referência oficial. 

No futuro, qualquer peidão poderá comparar o seu rendimento gasoso com a média internacional de forma limpa, científica e fedorenta.

O número de voluntários foi tão avassalador que as inscrições explodiram e foram suspensas.

Se você ficou com inveja e quer ver o seu nome imortalizado nesta Enciclopédia da Bufa, resta-lhe a lista de espera. 

Enquanto o sensor de cueca não chega ao mercado, o Bar de Ferreirinha aconselha: continue treinando. 

Beba a sua cerveja fresca, coma a sua feijoada com batata e deixe a natureza cantar livremente sem qualquer constrangimento.

terça-feira, 9 de junho de 2026

São João sem forró é como pamonha sem milho

Caricatura: https://www.moxotodagente.com.br/

Cachês milionários para sertanejos despreza artistas nordestinos e o Forró fica na portaria


Roberto Fontes

Tem alguma coisa errada no reino do milho, da pamonha e da fogueira. 

Enquanto as prefeituras nordestinas despejam cachês milionários sobre artistas sertanejos, muitos dos verdadeiros donos da festa junina seguem sendo tratados como figurantes no próprio terreiro.

A polêmica explodiu depois que o paraibano Flávio José anunciou o cancelamento de cerca de 15 shows na Bahia pela resistência de algumas prefeituras em pagar seu cachê de R$ 350 mil. 

Nada de extraordinário, não fosse o detalhe de que vários artistas sertanejos contratados para os mesmos festejos receberão entre R$ 650 mil e R$ 1,1 milhão por apresentação.

A conta é desproporcional, e injusta.

Para quem criou a trilha sonora do São João, o cofre fecha, mas para quem chega de fora da tradição junina, ele se abre sem cerimônia.

Os números mostram que nomes históricos do forró, como Flávio José, Alceu Valença, Elba Ramalho e Alcymar Monteiro, recebem valores muito inferiores aos destinados às atrações que dominam atualmente as grades dos festejos. 

E o mais curioso é que muitos desses artistas sequer têm ligação direta com a cultura junina nordestina.

O problema, porém, vai além dos grandes nomes do forró. 

Enquanto se discute cachês de centenas de milhares de reais, milhares de músicos locais, trios pé-de-serra, sanfoneiros, zabumbeiros e cantores de pequenas cidades continuam sobrevivendo com cachês modestos, quando não humilhantes.

É justamente aí que mora a maior injustiça: o São João nasceu nos terreiros, nas praças, nos sítios e nas comunidades do Nordeste, e foi construído ao som da sanfona, do triângulo e da zabumba. 

Mas, ano após ano, seus criadores vão perdendo espaço para atrações importadas que transformam uma manifestação cultural em simples espetáculo de mercado.

Ninguém questiona o direito de qualquer artista trabalhar e receber pelo seu sucesso, mas o que causa estranheza é ver gestores públicos alegando falta de recursos para valorizar o forró tradicional enquanto encontram milhões para contratar atrações que pouco ou nada têm a ver com a essência da festa.

Neste ritmo corre-se o risco de chegar o dia em que haverá mais chapéu de cowboy do que chapéu de couro nas festas juninas do Nordeste.

E, quando isso acontecer, talvez seja tarde demais para perguntar onde foi parar o São João que nossos avós conheciam.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os Inimigos do Fim

Massa Dura, bloco carnavalesco de Caicó-RN, Carnaval de 1981

Roberto Fontes

Em 1981, quando o Carnaval brasileiro ainda vivia a transição entre os antigos bailes de clube e os grandes espetáculos das escolas de samba, um grupo de jovens caicoenses resolveu criar seu próprio bloco carnavalesco. 
Surgiu o Massa Dura, uma confraria formada por rapazes que tinham em comum a pouca idade, muita disposição e nenhuma preocupação com a ressaca do dia seguinte.
A proposta era simples, quase revolucionária na sua singeleza. 
Durante os quatro dias do reinado de Momo, entre o sábado e a terça-feira, os caras mergulhávamos numa maratona etílica que faria inveja aos bêbados mais experientes da cidade. 
A programação incluía visitas aos sítios da redondeza, onde um blend de cachaça, rum, uísque barato e cerveja fazia o serviço de nos deixar completamente chapados.
A conversa fiada corria solta, e as tradicionais incursões pelo centro da cidade completavam o programa.
O ponto alto era o chamado “corso”, quando o Massa Dura circulava pelas principais ruas de Caicó, transformando a cidade em seu palco particular para exibição de corpos sarados, da inquietude típica de quem acredita que o mundo ainda está por conquistar e de uma energia aparentemente inesgotável.
Era um Carnaval sem cordas, sem abadás, sem camarotes e sem patrocinadores. 
Bastavam os amigos, um caminhão alugado, muito forró Pé de Serra, boa vontade e a certeza de que a festa precisava durar até o último minuto da terça-feira gorda, incluindo bailes de Carnaval no Corintians todas as noites.
Quando a quarta-feira de cinzas finalmente chegava, encontrava aqueles jovens exaustos, roucos e felizes. 
Eram inimigos declarados do fim da folia e defensores obstinados da alegria. 
Mais de quatro décadas depois, com alguns brincando noutro plano espiritual, a lembrança do Massa Dura continua viva como um retrato de um tempo em que o Carnaval de rua de Caicó era feito sobretudo de amizade, irreverência e liberdade.

A Guerra dos Pinhões

          

Ivar Hartmann

Dizemos: o pinhão. Mas compramos pinhões; assamos pinhões; comemos pinhões; repartimos pinhões assados (eu com meu neto). A mim, parecem melhores do que as castanhas e pistache. Queria conhecer o vulcão Osorno e a terra do Pablo Neruda. Nos Andes, no fim do Chile. Uma noite, no hotel, serviam uns assadinhos do tamanho de uma castanha de caju. Experimentei. Era pinhão. Pelo tamanho e local, perguntei ao gerente de onde vinham. Respondeu-me que ali, nas imediações do Osorno, era o último canto do sul da América, onde se colhia pinhões.

Pequenos comparados aos nossos, mas ótimos. Chegamos ao fim desta safra. Ainda com pinhões à venda em todas as cidades. A quem não apetece? 


Vou contar um “causo” verdadeiro, acontecido durante a Revolução Federalista de 1893 que durou dois anos. Sangrenta, matou três vezes mais soldados e civis do que a Revolução Farroupilha de 1835 que durou dez anos. Saindo do Rio Grande, os revoltosos avançaram na direção do Rio de Janeiro, para derrubar o Presidente Floriano Peixoto. Derrotados na Lapa, norte do Paraná, retornaram os maragatos para o Rio Grande em maio de 1894. Em péssimas condições, dizem os historiadores. Perseguidos pelo exército, retiravam-se pelas florestas de araucárias, combatendo o inimigo mais numeroso e forte.


Então, no inverno de 1894, graças aos pinhões, estas tropas rebeldes conseguiram sobreviver ao rigoroso inverno de Santa Catarina. Faltos de cavalos, roupas e provisões, sem linhas de suprimento regulares, os soldados enfrentaram a fome, lutando sob condições extremas, e alimentando-se dos pinhões que encontravam pelo caminho nas áreas da serra. Chamaram o episódio de Guerra dos Pinhões. Graças a semente de araucária, conseguiram retornar ao Rio Grande.


Promotor de Justiça aposentado

ivar4hartmann@gmail.com