Rômulo Rodrigues
Uma canção nostálgica que fez sucesso no rádio na voz de Emilinha Borba na década de 1950, dá título a uma farsa de péssimas recordações: o golpe de 31 de agosto de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff, afastada do cargo em um processo que, para seus críticos, esteve muito mais relacionado à disputa política do que à prática de um crime de responsabilidade. Dilma era mulher, honesta e, sobretudo, não fazia parte do grupo que articulou a sua derrubada.
O golpe foi anunciado, em certo sentido, pelo então senador Romero Jucá, ao falar de um grande acordo nacional, “com o Supremo, com tudo”, e envolvendo também os comandantes militares. As justificativas apresentadas para o impeachment se apoiaram nas chamadas “pedaladas fiscais” e na edição de decretos de crédito suplementar.
A expressão “pedalada fiscal” ganhou o debate público como uma espécie de neologismo político, enquanto a promessa de uma “ponte para o futuro”, apresentada pelo governo Michel Temer, pouco entregou além de uma agenda econômica de forte impacto social e, posteriormente, da indicação de Alexandre de Moraes para o STF.
Para Jair Bolsonaro chegar à Presidência em 2018, porém, foi necessário retirar Lula da disputa. O então ex-presidente foi condenado e permaneceu preso por 580 dias, em um processo posteriormente anulado pelo Supremo Tribunal Federal. E, assim, o monte de terra pariu um rato que se revelou um dos mais graves capítulos da história recente do país.
O governo Bolsonaro deixou uma herança marcada pelo retorno do Brasil ao Mapa da Fome da ONU, pela condução desastrosa da pandemia, com mais de 500 mil mortes ainda em 2021, e pelas suspeitas e investigações relacionadas à negociação de vacinas. De quebra, veio a indicação de André Mendonça, o “terrivelmente evangélico”, para o Supremo Tribunal Federal.
Agora, os partidários da palavra de ordem “Deus, Pátria, Família” fomentam uma nova crise política em torno da Suprema Corte, em uma tentativa de criar as condições para mais um golpe. Jogam a bomba no colo do presidente Lula e apostam em duas ondas que imaginam capazes de levá-los novamente ao poder: a ideia de que o brasileiro tem memória curta e esquecerá os escândalos do governo do inelegível; e a crença de que uma parcela expressiva do eleitorado continuará votando movida pelo ódio, acreditando em qualquer mentira que venha acompanhada da palavra de ordem do “mito”.
É uma aposta política que não pode ser subestimada. Que reflitam, portanto, aqueles que, sem uma razão justa, continuam fortalecendo o consórcio de interesses reunido no que se convencionou chamar de Centrão e seus periféricos. A história não costuma absolver alianças construídas em nome do poder, sobretudo quando, para alcançá-lo, princípios democráticos são tratados como obstáculos descartáveis. Dez anos se passaram. Mas algumas feridas continuam abertas — e a memória, neste caso, é também uma forma de defesa da democracia.

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