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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

O eleito



“Seja qual for o resultado da eleição, preparem-se para um estelionato eleitoral ou para uma crise econômica em 2027.” 

(Raquel Landim, jornalista do Estadão)

Alisando Cresci*

O Brasil decidiu ser um bordel a céu aberto desde Cabral e seu falso “descobrimento”, que os puristas chamam de “achamento” — aqui já viviam entre 2 e 5 milhões de indígenas e, antes de 1500, os portugueses já sabiam da existência desta terra de ninguém e outros navegadores já tinham chafurdado nas costas de Pindorama, inclusive os espanhóis —, e desde então o que interessa são as mentiras sinceras. É delas que vivemos.

Ao longo do tempo, se transformou num Estado inchado, que pouco produz, sustentando cerca de 13 milhões de funcionários públicos, dos quais apenas 53% são concursados — o resto é formado pelo empreguismo de cabos eleitorais e demais apadrinhados. Político nenhum fala de uma reforma honesta desse circo de favores onde meritocracia é palavrão, porque a conta é imposta aos cidadãos de forma compulsória. Por isso, dependo da renda mensal, um assalariado é obrigado a trabalhar de 141 a 156 dias por ano apenas para quitar seus impostos com esse Leviatã incontrolável. Sem contar o que custa a folha de pagamento ao empresariado. Sem contar os impostos em cascata na hora que qualquer um vai comprar qualquer coisa na indústria, comércio e serviços.

Apesar de já termos um eleito, não há mais dúvida: o país deve um agradecimento explícito a Daniel Vorcaro! Você se assustou? Bobagem! Estamos vivendo um tempo sem qualquer chance de disfarçar a realidade. Esse homem que surgiu no meio do esgoto rasgou todas as fantasias, retirou todas as máscaras e abriu as cortinas do espetáculo deprimente que sempre ocorreu debaixo dos panos e sempre termine em acordões para impunidade generalizada. Ou você acha mesmo que a pior campanha eleitoral de todos os tempos foi por acaso? Acha mesmo?

A mais explícita das ações do vigarista é a exposição ginecológica da divisão do Supremo em duas bandas, algo até aqui guardado sob anáguas moralistas. O caso é tão esdrúxulo que as inçelenças jogaram até Nossa Senhora Aparecida de um lado para outro e a santa correu o risco de ser levada sem procissão ao Plenário. Numa alçada milagreira de menor escalão, tivemos a jabuticaba TSE inventando regras de claro favorecimento a uma banda aqui e outra ali da polarização. Depois, depois!

Finalmente, como muitos previram, chegamos ao tempo em que uma campanha eleitoral majoritária só interessa aos apaniguados dos candidatos. Não desperta mais o interesse cívico na população, que dá claros sinais de cansaço dessa quantidade de patifes profissionais que se apresentam o tempo inteiro “mentindo sem o cu saber” — palavras indelicadas uma ova! Calminha aí, está entre aspas, é um velho ditado.

Não se anime a apontar o dedo apenas para o lado desses lixos com mandato ou que tentam obter algum. Esse negócio tem outro lado muito bem azeitado pelo populismo: uma grande parcela da população mantida cruelmente na ignorância que adora uma boquinha, de festas pagas com dinheiro público desviado de emendas parlamentares a viver dessas bolsas esmolas. E tem mais: quem gastar sola pelos rincões do país poderá se assustar com o ambiente de compra de votos dos dois lados, como se os velhos coronéis do passado estivessem redivivos e em plena ação. Só que, desta feita, suas as almas penadas foram normalizadas, já não assombram ninguém.

Sim, os programas sociais são necessários, desde que respeitando certas medidas, como ponto de impulsão social. Mas viraram renda perpétua, provocando as desconstruções conhecidas. Ou alguém discute que, depois do Bolsa Escola de Ruth Cardoso — a única primeira-dama digna de nota que o país teve na República —, esses programas sociais perderam qualquer caráter de instrumento de largada para um futuro melhor?

Ao contrário, viraram o instrumento de populismo barato que modernizou a compra de votos estabelecida na velha lei do cabresto eleitoral dos coronéis de outrora, para manter os menos favorecidos na miséria de sempre. Todas essas bolsas esmolas desmontaram completamente qualquer resquício de altivez e valorização da conquista pelo suor, do orgulho de ser alguém pelo próprio esforço. Afinal, na cartilha ideológica das benesses sociais desenhadas para manter dependência, meritocracia é palavrão.

Numa primeira olhada, esse não parece o maior problema do país. Mas a ignorância bovídea dos rebanhos, domesticados numa polarização desenhada apenas para defender seus bandidos-capatazes de estimação, vai impedindo a sociedade de enxergar o quanto essa acomodação a esmolas públicas mensais vem desmontando a capacidade intelectual, econômica e a competitividade nacionais.

Nunca foi tão pertinente o vaticínio escrito por Luiz Gonzaga e Zé Dantas em Vozes da Seca (1953): “Mas ‘doutô’, uma esmola a um homem ‘qui’ é são / Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Talvez não seja coincidência ter sido escrita em pleno domínio do caudilho gaúcho Getúlio Vargas, denominado “Pai dos Pobres” pela máquina de propaganda do Estado Novo que ele fundou na borduna e encerrou com um tiro no peito.

Vargas passou 19 longuíssimos anos no poder, deu um golpe de Estado em que fechou o Congresso Nacional, extinguiu os partidos políticos, cassou a Constituição e instaurou uma ditadura personalista, com repressão violenta aos opositores e controle da imprensa. Por ironia, foi engolido pelo próprio método: um atentado contra Carlos Lacerda, um opositor civil, que resultou na morte de um militar, levado a cabo por sua guarda pessoal, e a pressão dos militares acenando com um golpe para tirá-lo à força do poder, no melhor estilo “ou sai ou cai”.

Lacerda, então deputado federal, líder oposicionista e dono de jornal, entrou na mira por denunciar a corrupção generalizada do governo. Ele e a bancada de oposição costumavam repetir a expressão “Gente que deveria ser modelo de conduta pela posição que ocupa na sociedade se deslumbra com a riqueza e o poder de bandidos”.

Confrontado com a realidade, muito distante das narrativas palacianas, Vargas cometeu suicídio, não sem antes se isentar de todos os desmandos numa “carta-testamento” em que culpava a pressão de forças nacionais e internacionais contra seu projeto político, encerrando o texto com o tom messiânico de quem é incapaz de qualquer autocrítica: “Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História” — dificilmente essa “eternidade” do texto tinha cunho religioso, já que o “Pai dos Pobres” era sabidamente agnóstico; está muito mais próxima da rasteira ilusão humana de glória eterna.

Como se vê, a mesma narrativa de “forças ocultas” foi adotada no futuro pelo doidivanas Jânio Quadros e pelo obsessivo Leonel Brizola para explicar suas incapacidades — Quadros virou fumaça na tentativa de autogolpe; Brizola incendiou o país e fugiu sem que se saiba até hoje se estava vestido de mulher ou de soldado da Brigada Militar gaúcha como disfarce para fugir das forças explícitas e armadas nacionais.

Na verdade, o que se assiste desde que Vargas assumiu o poder — e lá se vai quase um século — é um modelo de presidencialismo em que, volta e meia, a máquina de propaganda oficial transforma um populista capaz de qualquer coisa em benfeitor, líder protetor e salvador da pátria. O próprio Vargas, toda vida indiferente a práticas religiosas, estabeleceu aliança estratégica com a Igreja católica em busca de apoio político e legitimação no meio conservador. Em troca, tornou obrigatório o ensino religioso nas escolas públicas, e, com amplo apoio do seu governo, Nossa Senhora Aparecida foi oficializada Padroeira do Brasil pelo Vaticano. Tanto que, na solenidade dessa elevação, ele esteve presente e determinou que todos os ministros e principais colabores do Estado participassem.

São essas figuras que, inebriadas pelo poder e enfeitiçadas pelo desejo de eternidade, vão promovendo o desmanche de longo prazo que começa a se mostrar insuportável em todos os lugares, dado o coro generalizado de insatisfação. Na verdade, é muito mais que insatisfação, a sociedade está saturada dessa realidade paralela. Resta saber quando a sociedade vai aprender a lição que a vida vem oferecendo ao longo de décadas, e deixar de repetir os mesmos erros nas urnas, aceitando candidaturas de qualquer vigarista cheio de lábia.

Comércio, indústria e serviços já chegaram à fase de malabarismo para encontrar empregados capazes de juntar lé com lé e cré com cré nas atividades mais simples. A cada semestre, a academia derrama no mercado “doutores” que mal conseguem ler, escrever e falar algo compreensível. O país vive em campanha com eleições a cada dois anos, elegendo, das câmaras municipais à Presidência da República, gente cada vez pior — algo profetizado pelo lendário Ulysses Guimarães, e não custa lembrar que ele morreu em 1992.

Já tivemos os deputados federais Juruna (falecido), Clodovil (falecido), Tiririca (está encerrando o 4º mandato e finalmente levou um pé na bunda do eleitorado) e, agora, quase recebemos na Câmara aquele destrambelhado da musiquinha Caneta Azul. Há também o pelotão do óleo de peroba, que ilustra baixo e alto cleros das duas casas legislativas, que apresentaram justificativas reluzentes de cinismo para quebra de decoro, enriquecimento ilícito e escândalos de corrupção. Uma lista que junta João Alves (Deus ajudou a ganhar em todas as loterias, falecido), Severino Cavalcanti (perseguição a ele e a uma filha doente, falecido), Chico Rodrigues (dinheiro nas nádegas para “pagar funcionários”, está no 1º mandato de senador, depois de outros como vereador, governador e deputado), Renan Calheiros (“boi voador” para justificar pensão a uma filha fora do casamento, está encerrando o 4º mandato de senador, depois de outros como deputado estadual e federal, e finalmente levou um pé na bunda do eleitorado), Ciro Nogueira (a casa era um “guarda-volumes” que guardava inclusive dinheiro em espécie, está encerrando o 2º mandato de senador, depois de outros como deputado federal, e finalmente levou um pé na bunda do eleitorado) e Valdemar Costa Neto (caixa 2 para “pagar dívidas de campanha”, cumpriu seis mandatos de deputado federal e renunciou a dois deles acusado de corrupção, e descobriu o eldorado da presidência de um partido). O pior é que continuamos enquadrando políticos como pessoas folclóricas, engraçadas, corruptas — ou tudo junto — e lhes entregando mandatos na base do “Ah, quer saber? São todos iguais mesmo, isso não tem jeito!”.

É certo que cafajestagens que viram escândalos cheios de fofocas despertam muito mais interesse do que qualquer discussão séria a respeito da situação reinante e alternativas de solução. O picadeiro do Circo do Vorcaro eletriza a patuleia pelas conversas vadias das principais autoridades do país, jatinhos, hotéis de alto luxo, festanças com charutos e uísques, surubas com “modelos” estrangeiras e quantidades industriais de dinheiro público roubado dessa mesma população boquiaberta de inveja de tanta ostentação — as redes sociais estão aí para relativizar tudo.

Para Vorcaro e seus acólitos comprados bastariam a lei e a Justiça. Mas o próprio vigarista nos fez conhecer a olho nu a Justiça que temos, repleta de figuras mínimas — as singulares que cuidam de varas ou as metastáticas vestidas em capas superiores insalubres para cuidar da sala de comando da rede de esgotos.

Vivenciamos mais uma eleição majoritária e o horário eleitoral monopolizou os piores adjetivos para todos os candidatos a qualquer cargo. Um desfile de prontuários sem qualquer projeto, inclusive para a Presidência da República, disputada por dois hereges que andaram por aí levantando imagens de Aparecida e Nazaré.

O eleito chegará ao cargo com menos de 30% dos votos de uma população de 214.211.951 de pessoas (dados do IBGE em 01.07.26). É desastroso, para dizer o mínimo. Isso não pode ser chamado de representatividade. Não bastasse, mais uma vez o Supremo está em franca atividade contra o TSE, enchendo de suspeitas o ar nada rarefeito de uma disputa cuidadosamente mantida na polarização pelas partes interessadas. E foi exatamente essa fétida dobradinha STF-TSE que arrumou uma tremenda lambança aos 45 minutos do segundo turno, inventando mais duas horas de jogo que vão alimentar uma lenga-lenga eterna dos perdedores.

Para candidatos presidenciais como os que temos, é um bálsamo um país acometido de demência seletiva que insiste em esquecer escândalos e intervenções patifes nas eleições (caso Proconsult, dossiês Cayman, Aloprados…), máfia do jogo do bicho, máfia do lixo, anões do Orçamento, PC Farias, pastinhas, juiz Lalau, sanguessugas, mensalão, petrolão, rachadinhas, a fantástica loja de chocolates Kopenhagen, condecorações milicianas, ataques às urnas e INSS. Para não perder a prática, já caminha para acrescentar o Master na falta de lembrança (com o Dark Horse dividindo a tela da salinha escura com um documentário “por fora” operado por algumas estrelas do mensalão e petrolão). Não há dúvida, o Oscar já tem dois azarões na disputa da “categoria sem-vergonheza”.

Não causa surpresa que tanta gente tenha preferido ficar em casa, ao invés de votar nessas excrescências. Afinal, é como dar um salvo-conduto para canalhas fazerem canalhices com o bem público sem qualquer incômodo. Ou alguém, de sã consciência, é capaz de negar essa percepção? A cada eleição, os próprios políticos vão demonstrando por A+B, para um contingente que só aumenta, que há coisas bem melhores a fazer do que ir votar, inclusive para evitar aborrecimentos, filas e a agressividade dos extremistas de boca de urna.

A prova de que esse modelo político faliu há muito tempo é o fato de que, mesmo diante de uma campanha presidencial, a atenção do público permaneceu controlada por Vorcaro, o vexame do Supremo e as patifarias de parlamentares e barnabés do serviço público envolvidos no esquema. Para alegria dos candidatos, que seguiram se esgueirando por estradas vicinais para evitar qualquer prestação de contas ao distinto eleitorado, de quem desejam apenas o voto e distância. Tanto que cagaram e andaram para diversos debates por se sentirem absolutos, como se não tivessem muito o que explicar.

Cada vez mais, o princípio das campanhas é o mais furtivo e descompromissado possível. Carreatas, motociatas, passeatas, bandeiradas, som ensurdecedor com gritarias e músicas ridículas, atrapalhando a vida de todo mundo. Além disso, emporcalhamento de postes, paredes e ruas com material de divulgação. Mas os candidatos e seus gênios do marketing continuam acreditando que conquistam votos decisivos dos indecisos dessa maneira! Claro, tudo a peso de ouro para todo mundo ficar feliz, pois o Fundo Eleitoral — R$ 5 bilhões de dinheiro público transferido para os partidos garantirem a farra — está aí para isso. Alto lá, não misture as cifras: tem mais dinheiro público torrado no Fundo Partidário, cerca de R$ 1,4 bilhão destinados a sustentar os partidos. Ou seja, apenas em 2026, essa cambada retirou R$ 6,4 bilhões do nosso bolso e de projetos de interesse coletivo.

São esses caras que vivem falando da democracia que destruíram com falta de caráter e corrupção e sempre têm uma explicação na ponta da língua: “O sistema é assim”. Como se eles não fossem e vivessem aperfeiçoando o sistema. Também não foi à toa que, gestão após gestão, trataram com tanto esmero o desmonte da educação pública para obter uma sociedade sem instrução, dependente e sem qualquer capacidade de compreender os próprios direitos, inclusive o de cobrar, e que o voto pode ser antisséptico.

Essa consciência vai se tornando cada vez mais oportuna porque, este ano, vimos entrar em campo de forma aberta um novo fator vergonhoso: a interferência direta dos tribunais superiores assumindo lado na campanha eleitoral, especialmente a presidencial. Não resta qualquer dúvida de que o país segue num voo cego para se manter republiqueta de bananas, que adora festas superfaturadas pagas com dinheiro público desviado por emendas parlamentares de políticos vergonhosos.

Soa animador que, até mesmo o Brasil acostumado a dar de ombros para tudo, comece a dar sinais de cansaço dessa realidade onde a lei não é igual para todos, de religião misturada por hereges na disputa eleitoral, de blusinhas, bets, jabutis em cima de postes e todo o cipoal de marmotas e jabuticabas em que viramos especialistas.

Desta vez, tenha vergonha na cara e lembre que o eleito é seu, a culpa é sua por colocá-lo lá. E não ouse, numa atitude de desculpa esfarrapada, apontar o dedo para lado nenhum, pois eles estão na direita, esquerda, centro e no escambau que se invente como campo ideológico. Aponte o dedo para quem aparece no espelho; você é responsável por obrigar o país a escolher entre merda e bosta e instalar um vaso sanitário no lugar da cadeira presidencial. Achou forte? O cheiro dos seus bandidos de estimação é pior e ninguém tem culpa da sua anosmia.

Aliás, o jornalista esportivo Rica Perrone facilita sua vida diante do espelho: “Nós temos um país absolutamente tomado por políticos bandidos de todos os lados. Sempre foi assim. E na medida que vocês se dividem e blindam 100% de um lado e 100% do outro, estão mantendo os dois na briga pro resto da vida. Vocês estão realizando o sonho da vida dos políticos. Qualquer cara de direita faz a merda que ele quiser, a direita vai e defende ele. Qualquer cara de esquerda faz a merda que ele quiser, a esquerda vai e defende ele. O Brasil nunca foi idiota nesse nível atual. Eles conseguiram o que queriam”.

Não esqueça que são seus votos que elegem e reelegem essas figuras vadias, vulgares e deletérias que comandam toda a escrotidão em níveis federal, estaduais e municipais. E foi preciso um Vorcaro para desenhar, com letras garrafais, som e imagem em alta definição, a imensa porcaria que você ajudou a criar vociferando que o mal está apenas do outro lado, fingindo que sua patota não tem nada a ver com isso.

É muito pertinente o que li dia destes nas redes sociais: “Não existe academia e nem maquiagem que embelezem uma alma ruim”. Seja quem for o eleito, estaremos sob governo de uma alma ruim. Tristes trópicos, como anunciado por Claude Lévi-Strauss em 1955.

*Alisando Cresci não é jornalista. É um supositório natural.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Neste domingo, escolha a democracia

        

Rômulo Rodrigues

Este é um chamado a quem não é conservador nem de direita, mas também a quem, mesmo pensando diferente da esquerda, preserva o respeito ao próximo, a civilidade e o compromisso com a democracia. Uma eventual vitória da extrema direita não ameaçaria apenas seus adversários políticos. A intolerância também alcança os que divergem de seus líderes, ainda que estejam do mesmo lado do espectro ideológico. Quando o ódio se transforma em método de ação política, ninguém está inteiramente a salvo. Neste domingo, a reeleição de Lula representa, acima de tudo, a possibilidade de preservar aquilo que deve nos unir: a democracia.

O presidente Lula reagiu judicialmente a acusações que considera falsas e contestou a tentativa de transformar seu patrimônio, construído ao longo de décadas, em instrumento de desinformação. A questão é simples: um senador da República, investido de mandato e responsabilidade pública, não pode se valer da tribuna política para lançar acusações sem apresentar provas. Se Flávio Bolsonaro acusa alguém de envolvimento com milícias ou de práticas criminosas, precisa demonstrar o que afirma. O debate público exige responsabilidade, e não a substituição dos fatos por insinuações.

A história ensina que a extrema direita frequentemente se apresenta como paladina da moralidade e do combate à corrupção, enquanto instrumentaliza essas bandeiras para conquistar o poder e enfraquecer adversários. Foi assim em diferentes experiências autoritárias, inclusive no Brasil, com o golpe de 1964 e a ditadura militar. Em 2016, o impeachment de Dilma Rousseff, sem comprovação de crime de responsabilidade que justificasse a destituição, aprofundou a crise política e abriu espaço para a reorganização conservadora. Agora, Flávio Bolsonaro representa a continuidade de um projeto político que coloca em risco conquistas democráticas e a autonomia nacional. Suas posições sobre as relações com os Estados Unidos e a exploração das riquezas brasileiras exigem atenção redobrada.

Também é preciso desconfiar da narrativa de que o Brasil está irremediavelmente quebrado. A situação econômica comporta problemas reais, mas não autoriza apagar os avanços sociais registrados durante o governo Lula. O crescimento da renda de parcelas da população, a recuperação do emprego e as políticas de proteção social precisam ser avaliados com seriedade. Da mesma forma, denúncias de prejuízos econômicos atribuídos a agentes políticos e financeiros devem ser apuradas e quantificadas com base em dados verificáveis. O eleitor merece informação confiável, não números lançados ao debate apenas para produzir indignação ou favorecer candidaturas.

É difícil compreender como pessoas conservadoras, éticas, cristãs e comprometidas com o país podem ignorar os riscos representados por manifestações de hostilidade contra o Brasil e de submissão a interesses estrangeiros. Quando apoiadores da extrema direita recorrem a símbolos que sugerem um bombardeio contra a própria pátria, a provocação ultrapassa os limites da disputa eleitoral. A soberania nacional não pode ser tratada como moeda de troca, muito menos subordinada a projetos geopolíticos de outras potências, como o chamado “Escudo das Américas”, cujas implicações precisam ser debatidas com transparência.

Neste domingo, não se trata de exigir que todos se tornem de esquerda, nem de negar os erros e as contradições do governo Lula. Trata-se de reconhecer que há diferenças fundamentais entre projetos políticos e que a democracia, a soberania nacional, os direitos sociais e o respeito às instituições não podem ser colocados em segundo plano. Para quem acredita nesses valores, a escolha é clara: votar em Lula é apostar na continuidade democrática e na possibilidade de corrigir os rumos do país sem abrir caminho para o autoritarismo. Que as urnas confirmem essa escolha.

 Militante político   

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Soberania ou submissão: eis a questão

       

Rômulo Rodrigues

O debate da noite de domingo, na Rede Bandeirantes de Televisão, deixou de lado a questão essencial, que é o confronto entre dois projetos de país. De um lado, a defesa da soberania nacional. De outro, os riscos da submissão aos interesses estrangeiros. Em seu lugar, prevaleceu uma encenação de confronto entre ideias e programas de governo, marcada por provocações e tentativas de desqualificação pessoal.

Foi constrangedor para qualquer pessoa comprometida com a democracia assistir a um líder de prestígio internacional ter de suportar as provocações e o desrespeito de um adversário que parecia mais interessado em produzir cortes para as redes sociais do que em discutir os problemas do Brasil. A postura de Flávio Bolsonaro, marcada por deboche e atitudes incompatíveis com a seriedade exigida de um candidato à Presidência, transformou parte do debate em um espetáculo de baixa qualidade. 

É preciso também observar o cinismo de quem, cercado de controvérsias políticas e associado a grupos de poder, acusa Lula de corrupção sem apresentar, no próprio debate, elementos capazes de sustentar suas insinuações. A estratégia parece evidente: provocar, gerar imagens de impacto e alimentar as redes sociais com recortes convenientes, independentemente da consistência dos argumentos.

Em um ponto, Flávio Bolsonaro demonstrou uma coerência impar: mentiu e distorceu os fatos sem demonstrar o menor pudor. Na mesma semana em que se divulgavam números expressivos sobre o Produto Interno Bruto brasileiro, o candidato classificou como demagógicos os investimentos de R$ 300 bilhões em programas sociais, sob o argumento de que seriam medidas eleitoreiras. Ora, se o PIB alcançou R$ 15 trilhões, esse montante equivale a apenas 2% da riqueza produzida no país.

O problema, para a direita, nunca parece ser a falta de dinheiro, mas a destinação dos recursos. Quando se trata de políticas sociais voltadas à população trabalhadora, surgem as acusações de demagogia. Quando os beneficiários são os grandes grupos econômicos e os detentores da riqueza financeira, a generosidade fiscal costuma ganhar o nome de incentivo ao desenvolvimento.

A crítica torna-se ainda mais contundente quando se considera o peso dos juros elevados sobre as contas públicas e a transferência de renda para os detentores de títulos financeiros. Enquanto os trabalhadores dependem de políticas públicas para melhorar suas condições de vida, os rentistas encontram na elevada taxa Selic uma fonte privilegiada de remuneração. Foi nesse contexto que Lula resumiu sua visão econômica com uma frase que sintetiza a diferença entre os dois projetos: “Muito dinheiro nas mãos de poucos gera pobreza, e pouco dinheiro nas mãos de muitos gera riqueza”.

Acuado, Flávio também tentou responsabilizar o governo federal pela violência no país, como se a segurança pública pudesse ser explicada por uma única causa ou estivesse inteiramente sob o comando da Presidência da República. A realidade é muito mais complexa. Estados e suas forças policiais têm responsabilidades diretas nessa área, e o debate deveria servir para discutir políticas eficazes de prevenção, investigação e combate ao crime — não para fabricar culpados conforme a conveniência eleitoral.

Também merece atenção o legado da política armamentista do governo Bolsonaro, que ampliou o acesso a armas de fogo e munições. A de armar a população, vendida à época como solução para a insegurança, precisa ser avaliada à luz de seus efeitos concretos e dos riscos de circulação ilegal desses instrumentos. Defender o armamento indiscriminado como resposta à violência e, depois, explorar eleitoralmente o medo da população é uma contradição que não pode passar despercebida.

Lula já enfrentou adversários de peso na política brasileira, como Fernando Henrique Cardoso, Leonel Brizola, Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin. Também acumulou décadas de interlocução com lideranças internacionais de diferentes orientações políticas, entre elas Fidel Castro, George W. Bush, Barack Obama, Vladimir Putin, Nelson Mandela, Angela Merkel, Margaret Thatcher e Xi Jinping.

Que um presidente com essa trajetória tenha de enfrentar um adversário que, em muitos momentos, parece confundir debate político com provocação de redes sociais, diz muito sobre o nível a que chegou a disputa eleitoral brasileira. Não se trata de exigir reverência a Lula, mas de cobrar o mínimo de seriedade de quem pretende governar o país. Democracia pressupõe divergência, confronto de ideias e respeito ao eleitor — não uma sucessão de deboches e acusações vazias.

No encerramento, Lula elevou o tom e lançou um desafio direto ao adversário: que ambos abrissem seus sigilos e os de suas respectivas famílias, para que se verificasse quem tinha algo a esconder. Foi uma maneira contundente de devolver a Flávio Bolsonaro as acusações que ele vinha repetindo ao longo do debate. 

A provocação final deixou uma questão no ar: se há tanta certeza nas acusações, por que não permitir que os fatos falem por si? No embate entre discurso e transparência, é justamente aí que a retórica eleitoral precisa ceder lugar às provas.

Militante político   

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Logo logo, as eleições

                  

Ivar Hartmann

Minha mãe morava em Ivoti. Votava em Novo Hamburgo. Apenas 13 quilômetros. Poucos. Mas ela tinha 95 anos. Saudável e lúcida. De tanto ler a Bíblia. Para ela, o jornal diário. Eu a trazia até sua urna no Colégio 25 de Julho, e os mesários já a conheciam, de aparecer a cada 2 anos. Longe de ser tratada com a cortesia que devemos aos idosos, ela era recebida com carinho e sorrisos. Alguns dos responsáveis levantavam-se para cumprimentá-la. Em suma, um sucesso. Deveria querer eleições todo ano, face aos desvelos dos ocupantes da mesa.


Daqui há horas, abrem-se de novo as urnas. Muito mais importante do que saber se somos da esquerda, centro ou direita, é votar. Até votar em branco, ou anular o voto, que, não obstante o que pedem os partidos políticos, também é uma forma do eleitor se manifestar. O desagrado também é uma forma de manifestação. Na China, Rússia, Coreia do Norte ou Cuba, ninguém se arrisca a votar em branco ou anular o voto. Os olhos destas ditaduras socialistas no poder, que escolhem previamente os candidatos à disposição do eleitor, não leva o votante a arriscar.


Em Cuba, eleitor insubmisso vai para a cadeia. Na Coréia, desaparece. Na Rússia, é morto no país ou nu exterior, se é um líder em ascensão. Na China não sei. Na democracia brasileira atual, onde partidos de todos os matizes são autorizados a concorrer, o eleitor tem uma oportunidade única de se expressar. De dizer sim ou não ao escolher o Presidente da República. Em concordar com o atual ou preferir o outro. Fundamental é votar. Idade, previsão do tempo, distância ou sacrifício pessoal são o preço. Quem não paga por ele, não pode reclamar depois. Um voto é pouco no somatório. Mas é o meu voto. Para minha consciência, é muitíssimo.


Promotor de Justiça aposentado

ivar4hartmann@gmail.com

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A escolha entre a soberania e a submissão

       

No dia 25 de outubro o povo brasileiro escolherá entre dois projetos distintos. Um que reúne experiência, capacidade de negociação, compromisso com a democracia e a soberania nacional. E o outro, que representa a continuidade de uma tradição familiar marcada pelo autoritarismo, pela instabilidade institucional e pela traição aos interesses do Brasil

Rômulo Rodrigues

O destino do Brasil como uma nação soberana ou subordinada aos interesses de uma potência estrangeira será feito no domingo, dia 25 de outubro. Em circunstâncias normais, não deveria ser uma decisão difícil. Entretanto, o debate público foi contaminado pela desinformação, pelo ressentimento e por uma perigosa recusa da realidade.

Não faltam elementos concretos para avaliar os dois candidatos à Presidência da República. De um lado está Luiz Inácio Lula da Silva, cuja trajetória política é amplamente conhecida: retirante nordestino, operário metalúrgico, líder sindical e fundador do Partido dos Trabalhadores. 

Lula também participou da criação da Central Única dos Trabalhadores e se tornou uma das principais lideranças políticas da redemocratização brasileira. Agora, ao fim de seu terceiro mandato, busca nas urnas a confiança popular para governar o país pela quarta vez. 

Sua formação ocorreu no chão da fábrica, nas greves do ABC e na difícil arte da negociação coletiva. Dessa experiência nasceu um político capaz de dialogar com trabalhadores, empresários, movimentos sociais e lideranças internacionais. Pode-se concordar ou discordar de suas decisões, mas é impossível negar a extensão de sua experiência, sua capacidade de articulação e o lugar que ocupa na história política brasileira.

Do outro lado está Flávio Bolsonaro, herdeiro direto e mimado de um projeto político familiar marcado pelo autoritarismo e pelo confronto permanente com as instituições democráticas. Sua trajetória foi atingida por investigações relacionadas à chamada "rachadinha", a transações imobiliárias com dinheiro vivo e à movimentação financeira de uma loja de chocolates. O Ministério Público fez graves denúncias contra ele, mas partes importantes do caso foram anuladas ou arquivadas por imposição do pai, à época Presidente da República

Também causa preocupação seu alinhamento político com os Estados Unidos em um momento de pressões comerciais contra o Brasil. Ao participar do debate norte-americano sobre medidas que poderiam resultar em novas tarifas, Flávio adotou uma posição de submissão a interesses estrangeiros, que enfraqueceu a defesa dos interesses nacionais. 

Ele procura herdar o capital político do pai, Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão por liderar uma tentativa de golpe de Estado. Essa herança não é apenas eleitoral: representa a continuidade de um campo político associado ao ataque às instituições, à contestação do sistema eleitoral e ao ambiente que culminou na invasão das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.

O governo de Jair Bolsonaro também ficou profundamente marcado pela tenebrosa condução da pandemia. O Brasil ultrapassou a marca de 700 mil mortes por covid-19, por desídia (deixar de fazer a sua obrigação de amparar a população), pelo confronto do governo com orientações sanitárias e pela demora na adoção de medidas capazes de reduzir o sofrimento do povo. O então presidente ridicularizava em rede nacional as vítimas da pandemia.

Nos dias que antecedem o segundo turno, Lula tem reunido apoios de diferentes setores da sociedade civil, enquanto o campo bolsonarista continua cercado por investigações e controvérsias. Isso, por si só, não dispensa o eleitor de examinar propostas, resultados administrativos e compromissos democráticos. Ao contrário: torna essa análise ainda mais necessária.

No dia 25, estarão diante do eleitorado dois projetos radicalmente distintos. Um deles, com seus acertos e erros, reúne experiência administrativa, capacidade de negociação e compromisso declarado com a soberania nacional e o regime democrático. O outro representa a continuidade de uma tradição política familiar marcada pelo autoritarismo, pela instabilidade institucional e por relações preocupantes com interesses estrangeiros.

Para quem deseja um Brasil soberano, democrático, socialmente justo e capaz de oferecer paz e prosperidade às gerações atuais e futuras, a escolha é evidente: Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente.

Militante político  

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Uma semana de ressaca é muito

      


Rômulo Rodrigues

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, saiu na frente no domingo, dia 4, com uma estratégia atribuída a Steve Bannon, que combinou ciência e arte na disputa política. A operação teria sido estruturada em torno de três variáveis, partindo da premissa de que, até cinco dias antes do pleito, parcela significativa do eleitorado ainda define suas escolhas e consolida o voto. A ciência estaria no diagnóstico e a arte, na aplicação tática dos três pontos destinados a atingir o emocional do eleitor progressista, explorando narrativas difundidas pelos veículos do sistema Globo, assumidamente patronos da candidatura de Flávio Bolsonaro.

Os números das eleições anteriores ajudam a compreender essa dinâmica. Em 2018, foram aproximadamente 107 milhões de votos válidos, dos quais 49 milhões destinados a Jair Bolsonaro. Em 2022, os votos válidos chegaram a 118 milhões, e Bolsonaro obteve cerca de 51 milhões. Já em 2026, foram 119 milhões de votos válidos, com 56 milhões para Flávio Bolsonaro. Uma escalada eleitoral que, nessa leitura, estaria dentro do esperado.

O dado que mais chama a atenção, porém, é a abstenção: 33 milhões de eleitores deixaram de comparecer às urnas, em um universo de aproximadamente 158 milhões de pessoas aptas a votar. Somados aos votos brancos e nulos, esses números revelam a dimensão do contingente que não se traduziu em votos válidos para nenhum dos candidatos.

No Nordeste, o contingente de oito milhões de eleitores que se abstiveram merece atenção especial. Caso eles tivessem comparecido e votado na mesma proporção dos que efetivamente foram às urnas na região, Lula poderia ter alcançado a vitória ainda no primeiro turno, por uma margem estimada em 800 mil votos. A abstenção, portanto, não pode ser tratada como um dado secundário: ela pode ter sido determinante para o resultado.

Outro aspecto fundamental é que o eleitorado da direita e da extrema direita demonstrou estar mobilizado, comparecendo em peso às urnas nas diferentes regiões do país. O crescimento da votação de Flávio em relação à obtida pelo pai nas eleições anteriores reforça essa percepção. Para esse segmento, os questionamentos de ordem moral e política levantados durante a campanha aparentemente não foram suficientes para abalar a disposição de voto.

É preciso compreender que a disputa não se limitou à comparação entre propostas ou ao desempenho dos candidatos. Também envolveu a capacidade de mobilização, a exploração dos sentimentos do eleitorado e a construção de narrativas capazes de influenciar as escolhas na reta final.

Para recuperar o equilíbrio emocional depois dessa ressaca eleitoral, vale recorrer a Vladimir Maiakovski: “Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveremos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras haveremos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas.”

Enquanto isso, alguns episódios que poderiam ter provocado maior desgaste político parecem não ter produzido o efeito esperado entre os eleitores da direita. Do lado da soberania nacional e do campo progressista, passaram praticamente despercebidas as críticas à atuação do ministro do STF André Mendonça, apontado como cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro.

Também merece análise a exploração política do debate sobre a proibição das bets, em meio à atuação de setores do futebol interessados na manutenção desse mercado. Soma-se a isso a percepção de uma articulação entre Flávio Bolsonaro e os organizadores do debate eleitoral, com a transferência de responsabilidades para o candidato Lula, numa estratégia que remete ao método utilizado no confronto entre Collor e Lula, em 1989.

A lição que fica é dura: não basta ter argumentos, denunciar contradições ou acreditar que os fatos falarão por si. É necessário compreender o comportamento do eleitorado, enfrentar a desinformação, disputar as narrativas e, sobretudo, mobilizar quem pode fazer a diferença nas urnas.

Uma semana de ressaca é muito. Mas transformar a frustração em aprendizado político é indispensável para quem pretende mudar o rumo dessa história.

Militante político   

STF: os aiatolás amedrontados

                 

Ivar Hartmann

A história sempre se repete. Nesse caso em continentes diferentes e com nuances próprias. Há quase 50 anos, no Irã, os governantes caíram por conta de grandes protestos populares. Lá, não foram expressados pelo voto, mas por manifestações de rua. Fevereiro de 1979: O Aiatolá Khomeini, que liderava a oposição do exílio, retornou ao país (também poderia estar preso), e assumiu o comando do movimento popular. Poucos dias depois, o exército se declarou neutro e o governo anterior ruiu. Os aiatolás assumiram o poder de vida e morte, agregando Executivo, Legislativo e Judiciário nas mãos de poucos.


Passados meio século, agora, no Brasil, os aiatolás que sentados no STF, vestindo também seus trajes pretos, governavam com mão de aranha o país, decidindo quem prender, quem soltar, mandar a polícia fazer o que desejavam, graças à corrupção do Executivo e a passividade do Legislativo, sentem seu governo em perigo. Os eleitos, vitoriosos nas urnas, de forma altissonante, já avisaram: não haverá perdão para quem tripudiou as leis. E há ministros do STF e TSE que tremem.


Enquanto seus castelos começam a ruir, receosos, como se viu em recentes despachos de dois dos cabeças, os aiatolás Alexandre e Gilmar, mudaram decisões que eles mesmos, com prepotência, tinham criado. Resta, como sempre, na América Latina, recorrer ao exército. Ninguém crê que algum general vá empenhar um soldado em suas defesas.


Disse Júlio César: “A sorte está lançada! ” De combate em combate entrou em Roma vitorioso (ou Brasília se quiserem). Dias atrás todos poderosos, senhores do cutelo, que podiam prender a qualquer um de nós por mero capricho, temem agora a guilhotina. Aconteceu na França revolucionária.


Promotor de Justiça aposentado

ivar4hartmann@gmail.com

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ausência de Lula abalou o império

     


Rômulo Rodrigues

O debate presidencial da Globo, marcado para 1º de outubro, acabou não ocorrendo. Lula já havia anunciado que não participaria e optou por conceder uma entrevista ao Flow Podcast.

Flávio Bolsonaro também desistiu momentos antes do programa, depois de mudanças nas regras e da autorização judicial para a participação de Renan Santos.

Lula acertou ao não trocar sua estratégia eleitoral por um confronto que seria pouco produtivo. A opção foi falar diretamente ao público pelas plataformas digitais, em um formato diferente do tradicional debate televisivo.

A decisão provocou forte reação da Globo e dos adversários. O cancelamento, entretanto, não pode ser atribuído apenas à ausência dos dois principais candidatos. 

Decisões do TSE e do STF alteraram as regras do programa e contribuíram para o cancelamento do encontro. Flávio desistiu depois que Renan Santos obteve autorização para participar.

Santos, inclusive, já disse publicamente que não vai se aliar ao candidato da extrema-direita num eventual segundo turno para não ser acusado de 'formação de quadrilha'. A desistência foi uma tentativa de evitar um confronto que poderia ser politicamente incômodo para o Rachadinha.

A história da relação entre a Globo e as eleições brasileiras também voltou ao debate. Em 1982, a cobertura da eleição para o governo do Rio de Janeiro ficou marcada pelo episódio da Proconsult e pela controvérsia em torno da apuração. Em 1989, a emissora foi criticada pela edição do debate entre Lula e Fernando Collor exibida pelo Jornal Nacional. Os debates entre Lula e Collor foram realizados por um pool de emissoras.

O episódio de 2026 recoloca em discussão o papel da televisão tradicional diante do crescimento das plataformas digitais. Enquanto a Globo preparava seu último confronto antes do primeiro turno, Lula escolheu outro palco para conversar com o eleitorado.

E, ao final da entrevista, deixou uma mensagem especialmente dirigida aos jovens: “Em vez de você ficar protestando, entre na política. Seja candidato de alguma coisa. Participe de um partido político. Participe da comunidade do seu bairro. Não fique paralisado, achando que ninguém presta. A pessoa boa que você quer que eu seja, talvez seja você. Então, seja eu amanhã, porque eu já fui você ontem”

É uma convocação para que a política não seja vista apenas como espetáculo eleitoral, mas como participação cotidiana na vida democrática.

Militante político   

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Preconceitos de fé e de cor

     


Rômulo Rodrigues

Quando a fé entra no xadrez eleitoral

O dia “D” de passar o Brasil a limpo se aproxima. Faltam cinco dias para que os eleitores façam suas escolhas e, como o escriba não é afeito a superstições ou coincidências, vale alertar que há um debate em torno dos símbolos religiosos e de sua utilização na política.

É uma questão que interessa ao eleitor católico. Que lugar a fé popular, suas tradições e seus símbolos ocuparão no Brasil diante do avanço de grupos religiosos que procuram ampliar sua influência sobre a política?

Não é uma discussão inteiramente nova. Nos últimos anos, manifestações de natureza religiosa passaram a ocupar espaços cada vez mais visíveis na política e também na cultura popular. 

No Carnaval de Salvador, por exemplo, o episódio envolvendo Baby do Brasil e Ivete Sangalo, em 2024, expôs publicamente o choque entre diferentes formas de manifestação da fé em um espaço tradicionalmente marcado pela diversidade religiosa.

O debate ganhou novo combustível na reta final da campanha. A religião, mais uma vez, aparece como elemento de mobilização eleitoral, enquanto diferentes grupos procuram associar suas posições políticas à defesa da fé, da família e dos valores cristãos.

Para o povo do Seridó, região profundamente marcada pelo catolicismo popular e pela devoção à Senhora Sant’Ana, a discussão merece atenção. Lá, a fé não se resume ao espaço das igrejas. Ela está presente nas festas, nas procissões, nas tradições familiares e na própria identidade cultural da região.

Nossa Senhora Aparecida, por sua vez, ocupa lugar singular na religiosidade brasileira. Sua imagem, encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul no século XVIII, tornou-se um dos maiores símbolos da fé católica no país.

Por isso, é importante  observar que  a religião se tornou parte importante do jogo político e os símbolos da fé popular passaram a ser utilizados como instrumentos de mobilização.

No fim das contas, cada eleitor responderá pelo seu voto. E não haverá como dizer, depois, que não sabia quais forças políticas ajudou a colocar em posição de decidir os rumos do país. A disputa é entre os vendilhões do tempo, representada pela extrema direita, e o campo progressista, que respeita a diversidade religiosa no Brasil, um país laico.

A velha fábula do diabo em cima da árvore ensina justamente isso: diante das consequências de uma escolha, não basta dizer que “eu só fiz soltar o cavalo”.

Militante político  

A ONU, o Brasil e as eleições

                

Ivar Hartmann

Ao final de Segunda Guerra, quando se criou a ONU - que ia acabar com as guerras - o Brasil era uma potência mundial. O gaúcho Oswaldo Aranha, político e diplomata, era o representante brasileiro nos EUA. Foi o primeiro a discursar na tribuna da ONU, o que deu início à tradição de o Brasil abrir anualmente os debates da Assembleia Geral, como ocorreu agora. Ele conduziu a sessão que aprovou a divisão da Palestina  e abriu caminho para a criação do Estado de Israel em 1948. Os Estados Unidos pagam 22% de todo o orçamento de funcionamento da organização, seguido pela China com 15%. O Brasil paga 1,4 % deste total. Os 54 países africanos pagam 3,5%. E os 22 países árabes 6%.  


Nesta miscelânea de continentes, línguas, religiões, populações e interesses, na ONU há o Poder de Veto. As decisões sobre questões substanciais, precisam incluir os votos concordantes dos cinco membros permanentes (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia). Agora vejam: Santa Catarina e Rio Grande do Sul, juntos, somam mais de 10% de todo o Produto Interno Bruto gerado no Brasil. O Nordeste (nove estados) concentra o maior número absoluto e valores pagos do Bolsa Família. E o Norte (sete Estados) destaca-se por apresentar a maior proporção de dependência econômica e os maiores valores médios de repasse por família.


É fato a força de trabalho e produção do Brasil está no Sul. Mas, o Nordeste tem 27 senadores (três por estado) e a Região Norte tem 21 senadores de um total de 81. As duas regiões detém a maior força política e da corrupção conhecida. Decidem o Orçamento e as leis. Aprovam ou vetam de acordo com seus interesses regionais. O Sul, a exemplo da ONU, não deveria também ter Poder de Veto nas questões de Orçamento?


Promotor de Justiça aposentado

ivar4hartmann@gmail.com

terça-feira, 22 de setembro de 2026

O tiro saiu pela culatra

    


Rômulo Rodrigues

A reta final da campanha começa a mostrar sinais de desgaste da candidatura de Flávio Bolsonaro. Diante disso, setores da extrema direita reagem com violência e procuram criar um ambiente de medo, recorrendo a métodos que remetem às experiências do fascismo italiano dos anos 1920 e do nazismo alemão dos anos 1930 — regimes cuja violência deixou marcas profundas na história.

A candidatura de Flávio Bolsonaro enfrenta ainda o impacto da crise que envolve o STF e o caso Banco Master. O episódio ganhou novas dimensões com a atuação do ministro André Mendonça, relator de parte das investigações, e com a divulgação de informações que colocaram a campanha bolsonarista diante de novos questionamentos.

Também voltou ao debate a atuação de Fernando Cerimedo, consultor político argentino ligado a estratégias digitais da extrema direita latino-americana. A polícia boliviana encontrou uma estrutura de robôs e “fazenda de cliques” ligada a ele. Cerimedo já havia participado da campanha de desinformação que questionou, sem apresentar provas, a lisura da eleição brasileira de 2022.

Nesse cenário, o movimento de André Mendonça, que parecia destinado a produzir efeitos políticos favoráveis ao campo bolsonarista, acabou ampliando a crise institucional. O episódio expôs disputas internas no Supremo e alimentou o debate sobre as relações entre setores do Judiciário, da política e dos interesses econômicos envolvidos no caso Master.

A resposta democrática, portanto, passa pelo voto consciente. Escolher representantes comprometidos com projetos que favoreçam interesses particulares, em detrimento da soberania e do patrimônio nacional, significa entregar-lhes um cheque em branco para decidir o futuro do país.

É difícil imaginar que um candidato à Presidência da República apresente como proposta de governo a fiscalização de rolos de papel higiênico e bandejas de ovos nos supermercados. Mais do que uma simples excentricidade, esse tipo de discurso merece ser analisado pelo eleitor para que se compreenda que projeto de país está sendo apresentado.

A bizarrice chega ao limite quando Flávio Bolsonaro atribui ao governo Lula responsabilidades pelo caso Banco Master, enquanto seu próprio nome aparece no inquérito relacionado ao financiamento do filme Dark Horse. Além, claro, do pedido explícito de dinheiro que ele fez a um banqueiro envolvido com vários crimes contra a economia popular. A investigação, que apura possíveis irregularidades, foi aberta por determinação de André Mendonça e teve parte de seus documentos tornada pública.

No Seridó, em Caicó, no Rio Grande do Norte e no Nordeste brasileiro, o eleitor terá novamente a oportunidade de responder nas urnas. O desafio é não permitir que o ódio, a desinformação e a política do medo se transformem em projeto de poder.

Militante político  

STF: caso de polícia

               

Ivar Hartmann

Qualquer brasileiro conhece a situação. Em uma conversa, alguém fica sabendo de um fato estarrecedor de corrupção. Via comissões, presentes, viagens, proteção ilegal, sempre redundando em prejuízo para o Brasil. A resposta do interlocutor é: “Mas isso é caso de polícia! ”. E é. Desde que se confie na polícia. Mas estamos em um caso de mega corrupção, com comissões via honorários advocatícios, presentes, incluindo festas com mulheres europeias, viagens em jatinhos particulares, etc. E que os recebedores vão de ministros do STF a senadores, deputados e altos cargos federais. Aí ficamos desconfiados e tementes.


Uma parte da elite de servidores em Brasília, com enorme poder, possuindo amizades como tentáculos de polvo, está envolvida. Os escândalos do Banco Master e do INSS são algo tão grandioso e espetacular, com dezenas de bilhões de reais desviados, que ficamos na dúvida se será feita justiça. Por exemplo, a pergunta maior: Alexandre de Moraes vai perder o cargo? Porque a pergunta maior? Porque, nos últimos tempos, ele representa toda a soberba, injustiça e aproveitamento pessoal de juiz, que se possa imaginar.


Isso infelicita promotores de justiça e juízes de todo o país, homens sérios, detentores de cargos conquistados em concursos difíceis. Ao seu lado estão outras figuras que os fatos carimbaram como pertencentes a um ou vários dos esquemas de Brasília: Toffoli, Gonet e o sempre presente Gilmar Mendes. Como no tempo do Chacrinha, estão mais sujeitos a continuar nos tronos do que ir para a cadeia. Tal a força da rede que os protege. Por isso, Gilmar ri à toa. Daí a necessidade de entrar para os grupos de internet criados para proteger André Mendonça. Novo Ali Babá contra os 40 ladrões. Só 40?


Promotor de Justiça aposentado

ivar4hartmann@gmail.com

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O espectro do golpe ronda o Brasil

    


Rômulo Rodrigues

Há sinais de que a crise que hoje atravessa o Supremo Tribunal Federal pode ultrapassar os limites de uma disputa interna da Corte e ganhar contornos eleitorais. 

A sessão de 15 de setembro, marcada pela discussão sobre a possível investigação do ministro Alexandre de Moraes, expôs fissuras que já repercutem na disputa presidencial.

O episódio alimenta a percepção de que setores do establishment político e econômico pretendem enfraquecer Moraes e, por consequência, reduzir a capacidade de resistência do Supremo diante da extrema direita.

A questão central, portanto, não estaria apenas no destino de um ministro, mas no papel que o STF terá no processo eleitoral de 2026.

No centro da crise está também o caso Banco Master e as relações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com autoridades e políticos. As investigações alcançaram diferentes integrantes do Supremo e também atingiram o candidato presidencial Flávio Bolsonaro.

Nesse ambiente, a narrativa de que os problemas envolvendo o Banco Master seriam exclusivamente responsabilidade do governo Lula ganha espaço no debate político, embora as investigações envolvam personagens de diferentes campos.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, passou a explorar politicamente a crise do STF e defende mudanças na composição da Corte caso seja eleito presidente.

O que está em disputa, portanto, não é apenas a imagem de um ministro, mas a própria compreensão sobre os limites entre Justiça, política e poder econômico.

A história brasileira oferece exemplos suficientes para lembrar que instituições democráticas não são indestrutíveis. O passado registra períodos em que tribunais, imprensa e setores das elites econômicas se acomodaram diante de rupturas institucionais.

A lembrança de episódios como a entrega de Olga Benário aos nazistas e a submissão de instituições ao regime militar de 1964 pertence a essa memória histórica — ainda que os contextos atuais sejam, evidentemente, diferentes.

Também chama atenção a repetição de episódios de violência política. Ataques contra sedes partidárias e outras manifestações de intolerância revelam que o ambiente eleitoral exige atenção e responsabilidade.

A democracia não pode ser defendida apenas quando seus resultados agradam. Ela depende da preservação das instituições, do respeito ao voto e da rejeição a qualquer tentativa de manipular o processo eleitoral.

Nesse cenário, a disputa de 2026 não se resume a nomes ou partidos. Envolve projetos diferentes para o país e, sobretudo, diferentes concepções sobre o papel das instituições democráticas.

É nesse ponto que a crítica social encontra uma imagem conhecida do cinema. Em Django Livre, uma personagem negra, integrada à estrutura de poder de uma fazenda escravista, demonstra não aceitar que outro homem negro ocupe uma posição que considera superior à sua.

A cena pode ser lida como metáfora para aqueles que, mesmo tendo alcançado posições sociais acima da média, acabam defendendo estruturas que historicamente mantiveram outros brasileiros na parte de baixo da sociedade. No Seridó e em tantas outras regiões do país, essa contradição ainda merece reflexão.

Não se trata de negar erros cometidos por governos ou partidos. Trata-se de reconhecer que políticas de inclusão social, ampliação de direitos e maior participação dos trabalhadores no orçamento público também produzem reação daqueles que se sentem ameaçados pela mudança.

Quando a crise institucional se transforma em instrumento eleitoral, o risco é fazer do medo uma estratégia de poder. Por isso, mais importante do que escolher um lado na disputa do STF é acompanhar os fatos, cobrar investigação independente e preservar a democracia.

O Brasil já pagou caro quando interesses políticos passaram a valer mais do que as instituições. Que a história, desta vez, sirva de alerta.

Militante político  

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Filme Feito Pipa é o Brasil no Oscar 2027

Foto: Jamille Queiroz/Divulgação

Película ganha um significado especial para a cultura norte-rio-grandense: o roteirista André Araújo é ex-aluno da UERN

O filme brasileiro Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton e roteirizado por Deberton e André Araújo, foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, na categoria de Melhor Filme Internacional.

Para o Rio Grande do Norte, a escolha ganha significado especial. André Araújo é egresso do curso de Comunicação Social, habilitação em Rádio, TV e Internet, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), onde se formou em 2010.

A história do longa nasceu das memórias de infância dos dois roteiristas em Russas, no Ceará, e acompanha Gugu, um garoto apaixonado por futebol, criado pela avó, cuja saúde se fragiliza. 

Diante da possibilidade de ir morar com o pai, com quem mantém uma relação distante, o menino precisa lidar com conflitos familiares e com um processo precoce de amadurecimento.

A relação de André com Feito Pipa começou ainda durante sua formação na Uern. O roteiro teve origem em experiências ligadas ao seu Trabalho de Conclusão de Curso e foi desenvolvido posteriormente em parceria com Allan Deberton. A passagem pela universidade, segundo o próprio roteirista, foi decisiva para seu contato com o audiovisual e para a construção de sua trajetória profissional.

Para a reitora da Uern, Cicília Maia, a conquista evidencia a contribuição da universidade pública para a formação profissional e para a produção cultural. A trajetória de André também leva o nome da instituição a uma das principais vitrines do cinema mundial.

Feito Pipa estreou mundialmente no Festival de Berlim, em fevereiro, onde conquistou o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus. Em agosto, recebeu quatro Kikitos no Festival de Gramado, além de uma Menção Honrosa para Yuri Gomes.

O longa também foi premiado nos festivais de Cartagena das Índias, na Colômbia, e Guadalajara, no México, ampliando sua trajetória internacional.

A produção foi filmada em Quixadá e outras localidades do Ceará e chega aos cinemas brasileiros em 5 de novembro, com distribuição da Paris Filmes.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Envelhecer com saúde e novas perspectivas


O processo natural de envelhecimento das pessoas pode representar o início de novos projetos, descobertas e possibilidades. 

É com essa perspectiva que Natal recebe nesta semana, nos dias 16 e 17 de setembro, a Expo Longevidade 2026, no Praiamar Arena Hotel, a partir das 8h.

Com o conceito “Qualidade de vida não tem idade”, o evento reunirá especialistas para discutir saúde física e mental, alimentação, atividade física, sono, autonomia, tecnologia, empreendedorismo, propósito e bem-estar.

Entre os participantes está David Villalva, fundador da Digitalidade, startup voltada à assistência tecnológica para o público 60+. Ele apresentará a palestra “Seu cliente 60+ não é digital. É tecnológico e isso é uma oportunidade”.

Também estará no evento o médico mastologista e oncologista Maciel Matias, autor do método Nossa Vida Integrada, que falará sobre saúde integral, propósito, relacionamentos e autoconhecimento.

A programação inclui ainda a geriatra Ângela Costa, que lançará o livro Café para EnvelheSER, no dia 16, às 10h40, e conduzirá o painel de encerramento, “Saúde Digestiva no Envelhecimento”.

A Expo Longevidade terá palestras, painéis, oficinas, pitches, feira de produtos e serviços 50+ e atrações culturais, com temas relacionados à saúde, longevidade, autonomia, tecnologia e qualidade de vida.

Realizado pela Argus Eventos, o encontro propõe uma mudança de olhar sobre o envelhecimento: não existe idade determinada para aprender, recomeçar, fazer planos ou realizar novos sonhos.

Serviço

Evento: Expo Longevidade 2026 – Qualidade de vida não tem idade

Data: 16 e 17 de setembro de 2026

Local: Praiamar Arena Hotel – Natal/RN

Horário: a partir das 8h

Programação: palestras, painéis, oficinas, pitches, feira e atrações culturais

Inscrições: https://www.sympla.com.br/evento/expo-longevidade-2026/3422406?share_id=copiarlink

Assim se passaram 10 anos

    


Rômulo Rodrigues

Uma canção nostálgica que fez sucesso no rádio na voz de Emilinha Borba na década de 1950,  dá título a uma farsa de péssimas recordações: o golpe de 31 de agosto de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff, afastada do cargo em um processo que, para seus críticos, esteve muito mais relacionado à disputa política do que à prática de um crime de responsabilidade. Dilma era mulher, honesta e, sobretudo, não fazia parte do grupo que articulou a sua derrubada.

O golpe foi anunciado, em certo sentido, pelo então senador Romero Jucá, ao falar de um grande acordo nacional, “com o Supremo, com tudo”, e envolvendo também os comandantes militares. As justificativas apresentadas para o impeachment se apoiaram nas chamadas “pedaladas fiscais” e na edição de decretos de crédito suplementar. 

A expressão “pedalada fiscal” ganhou o debate público como uma espécie de neologismo político, enquanto a promessa de uma “ponte para o futuro”, apresentada pelo governo Michel Temer, pouco entregou além de uma agenda econômica de forte impacto social e, posteriormente, da indicação de Alexandre de Moraes para o STF.

Para Jair Bolsonaro chegar à Presidência em 2018, porém, foi necessário retirar Lula da disputa. O então ex-presidente foi condenado e permaneceu preso por 580 dias, em um processo posteriormente anulado pelo Supremo Tribunal Federal. E, assim, o monte de terra pariu um rato que se revelou um dos mais graves capítulos da história recente do país.

O governo Bolsonaro deixou uma herança marcada pelo retorno do Brasil ao Mapa da Fome da ONU, pela condução desastrosa da pandemia, com mais de 500 mil mortes ainda em 2021, e pelas suspeitas e investigações relacionadas à negociação de vacinas. De quebra, veio a indicação de André Mendonça, o “terrivelmente evangélico”, para o Supremo Tribunal Federal.

Agora, os partidários da palavra de ordem “Deus, Pátria, Família” fomentam uma nova crise política em torno da Suprema Corte, em uma tentativa de criar as condições para mais um golpe. Jogam a bomba no colo do presidente Lula e apostam em duas ondas que imaginam capazes de levá-los novamente ao poder: a ideia de que o brasileiro tem memória curta e esquecerá os escândalos do governo do inelegível; e a crença de que uma parcela expressiva do eleitorado continuará votando movida pelo ódio, acreditando em qualquer mentira que venha acompanhada da palavra de ordem do “mito”.

É uma aposta política que não pode ser subestimada. Que reflitam, portanto, aqueles que, sem uma razão justa, continuam fortalecendo o consórcio de interesses reunido no que se convencionou chamar de Centrão e seus periféricos. A história não costuma absolver alianças construídas em nome do poder, sobretudo quando, para alcançá-lo, princípios democráticos são tratados como obstáculos descartáveis. Dez anos se passaram. Mas algumas feridas continuam abertas — e a memória, neste caso, é também uma forma de defesa da democracia.

Militante político