Rômulo Rodrigues
Há sinais de que a crise que hoje atravessa o Supremo Tribunal Federal pode ultrapassar os limites de uma disputa interna da Corte e ganhar contornos eleitorais.
A sessão de 15 de setembro, marcada pela discussão sobre a possível investigação do ministro Alexandre de Moraes, expôs fissuras que já repercutem na disputa presidencial.
O episódio alimenta a percepção de que setores do establishment político e econômico pretendem enfraquecer Moraes e, por consequência, reduzir a capacidade de resistência do Supremo diante da extrema direita.
A questão central, portanto, não estaria apenas no destino de um ministro, mas no papel que o STF terá no processo eleitoral de 2026.
No centro da crise está também o caso Banco Master e as relações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com autoridades e políticos. As investigações alcançaram diferentes integrantes do Supremo e também atingiram o candidato presidencial Flávio Bolsonaro.
Nesse ambiente, a narrativa de que os problemas envolvendo o Banco Master seriam exclusivamente responsabilidade do governo Lula ganha espaço no debate político, embora as investigações envolvam personagens de diferentes campos.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, passou a explorar politicamente a crise do STF e defende mudanças na composição da Corte caso seja eleito presidente.
O que está em disputa, portanto, não é apenas a imagem de um ministro, mas a própria compreensão sobre os limites entre Justiça, política e poder econômico.
A história brasileira oferece exemplos suficientes para lembrar que instituições democráticas não são indestrutíveis. O passado registra períodos em que tribunais, imprensa e setores das elites econômicas se acomodaram diante de rupturas institucionais.
A lembrança de episódios como a entrega de Olga Benário aos nazistas e a submissão de instituições ao regime militar de 1964 pertence a essa memória histórica — ainda que os contextos atuais sejam, evidentemente, diferentes.
Também chama atenção a repetição de episódios de violência política. Ataques contra sedes partidárias e outras manifestações de intolerância revelam que o ambiente eleitoral exige atenção e responsabilidade.
A democracia não pode ser defendida apenas quando seus resultados agradam. Ela depende da preservação das instituições, do respeito ao voto e da rejeição a qualquer tentativa de manipular o processo eleitoral.
Nesse cenário, a disputa de 2026 não se resume a nomes ou partidos. Envolve projetos diferentes para o país e, sobretudo, diferentes concepções sobre o papel das instituições democráticas.
É nesse ponto que a crítica social encontra uma imagem conhecida do cinema. Em Django Livre, uma personagem negra, integrada à estrutura de poder de uma fazenda escravista, demonstra não aceitar que outro homem negro ocupe uma posição que considera superior à sua.
A cena pode ser lida como metáfora para aqueles que, mesmo tendo alcançado posições sociais acima da média, acabam defendendo estruturas que historicamente mantiveram outros brasileiros na parte de baixo da sociedade. No Seridó e em tantas outras regiões do país, essa contradição ainda merece reflexão.
Não se trata de negar erros cometidos por governos ou partidos. Trata-se de reconhecer que políticas de inclusão social, ampliação de direitos e maior participação dos trabalhadores no orçamento público também produzem reação daqueles que se sentem ameaçados pela mudança.
Quando a crise institucional se transforma em instrumento eleitoral, o risco é fazer do medo uma estratégia de poder. Por isso, mais importante do que escolher um lado na disputa do STF é acompanhar os fatos, cobrar investigação independente e preservar a democracia.
O Brasil já pagou caro quando interesses políticos passaram a valer mais do que as instituições. Que a história, desta vez, sirva de alerta.
Militante político








