Rômulo Rodrigues
O debate da noite de domingo, na Rede Bandeirantes de Televisão, deixou de lado a questão essencial, que é o confronto entre dois projetos de país. De um lado, a defesa da soberania nacional. De outro, os riscos da submissão aos interesses estrangeiros. Em seu lugar, prevaleceu uma encenação de confronto entre ideias e programas de governo, marcada por provocações e tentativas de desqualificação pessoal.
Foi constrangedor para qualquer pessoa comprometida com a democracia assistir a um líder de prestígio internacional ter de suportar as provocações e o desrespeito de um adversário que parecia mais interessado em produzir cortes para as redes sociais do que em discutir os problemas do Brasil. A postura de Flávio Bolsonaro, marcada por deboche e atitudes incompatíveis com a seriedade exigida de um candidato à Presidência, transformou parte do debate em um espetáculo de baixa qualidade.
É preciso também observar o cinismo de quem, cercado de controvérsias políticas e associado a grupos de poder, acusa Lula de corrupção sem apresentar, no próprio debate, elementos capazes de sustentar suas insinuações. A estratégia parece evidente: provocar, gerar imagens de impacto e alimentar as redes sociais com recortes convenientes, independentemente da consistência dos argumentos.
Em um ponto, Flávio Bolsonaro demonstrou uma coerência impar: mentiu e distorceu os fatos sem demonstrar o menor pudor. Na mesma semana em que se divulgavam números expressivos sobre o Produto Interno Bruto brasileiro, o candidato classificou como demagógicos os investimentos de R$ 300 bilhões em programas sociais, sob o argumento de que seriam medidas eleitoreiras. Ora, se o PIB alcançou R$ 15 trilhões, esse montante equivale a apenas 2% da riqueza produzida no país.
O problema, para a direita, nunca parece ser a falta de dinheiro, mas a destinação dos recursos. Quando se trata de políticas sociais voltadas à população trabalhadora, surgem as acusações de demagogia. Quando os beneficiários são os grandes grupos econômicos e os detentores da riqueza financeira, a generosidade fiscal costuma ganhar o nome de incentivo ao desenvolvimento.
A crítica torna-se ainda mais contundente quando se considera o peso dos juros elevados sobre as contas públicas e a transferência de renda para os detentores de títulos financeiros. Enquanto os trabalhadores dependem de políticas públicas para melhorar suas condições de vida, os rentistas encontram na elevada taxa Selic uma fonte privilegiada de remuneração. Foi nesse contexto que Lula resumiu sua visão econômica com uma frase que sintetiza a diferença entre os dois projetos: “Muito dinheiro nas mãos de poucos gera pobreza, e pouco dinheiro nas mãos de muitos gera riqueza”.
Acuado, Flávio também tentou responsabilizar o governo federal pela violência no país, como se a segurança pública pudesse ser explicada por uma única causa ou estivesse inteiramente sob o comando da Presidência da República. A realidade é muito mais complexa. Estados e suas forças policiais têm responsabilidades diretas nessa área, e o debate deveria servir para discutir políticas eficazes de prevenção, investigação e combate ao crime — não para fabricar culpados conforme a conveniência eleitoral.
Também merece atenção o legado da política armamentista do governo Bolsonaro, que ampliou o acesso a armas de fogo e munições. A de armar a população, vendida à época como solução para a insegurança, precisa ser avaliada à luz de seus efeitos concretos e dos riscos de circulação ilegal desses instrumentos. Defender o armamento indiscriminado como resposta à violência e, depois, explorar eleitoralmente o medo da população é uma contradição que não pode passar despercebida.
Lula já enfrentou adversários de peso na política brasileira, como Fernando Henrique Cardoso, Leonel Brizola, Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin. Também acumulou décadas de interlocução com lideranças internacionais de diferentes orientações políticas, entre elas Fidel Castro, George W. Bush, Barack Obama, Vladimir Putin, Nelson Mandela, Angela Merkel, Margaret Thatcher e Xi Jinping.
Que um presidente com essa trajetória tenha de enfrentar um adversário que, em muitos momentos, parece confundir debate político com provocação de redes sociais, diz muito sobre o nível a que chegou a disputa eleitoral brasileira. Não se trata de exigir reverência a Lula, mas de cobrar o mínimo de seriedade de quem pretende governar o país. Democracia pressupõe divergência, confronto de ideias e respeito ao eleitor — não uma sucessão de deboches e acusações vazias.
No encerramento, Lula elevou o tom e lançou um desafio direto ao adversário: que ambos abrissem seus sigilos e os de suas respectivas famílias, para que se verificasse quem tinha algo a esconder. Foi uma maneira contundente de devolver a Flávio Bolsonaro as acusações que ele vinha repetindo ao longo do debate.
A provocação final deixou uma questão no ar: se há tanta certeza nas acusações, por que não permitir que os fatos falem por si? No embate entre discurso e transparência, é justamente aí que a retórica eleitoral precisa ceder lugar às provas.
Militante político





