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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O Mecanismo

 
Imagem: Hansuan Fabregas/Pixabay


H. Romeu Illanba

A putaria financeira que entupiu o esgoto do Banco Master vai deixando claro e escuro que estava em funcionamento um verdadeiro Mecanismo, com acionistas instalados no mundo financeiro, no crime organizado e em gabinetes políticos cada vez mais apavorados de Brasília. Sem contar que instituições supostamente veneráveis como STF, TCU e CVM resolveram dançar miudinho um repertório estranhíssimo, com passos de omissão e intromissão para tentar manter a orquestra desafinada de Daniel Vorcaro no palco do circo de horrores.

Até aqui, são cerca de 1 milhão de brasileiros lesados pelos esquemas fraudulentos, e o processo segue infestado de excentricidades deixando no ar algo que parece proposital para, lá adiante, permitir que tudo seja anulado por falhas processuais que parecem deliberadamente provocadas à luz do dia por instituições oficiais que deveriam estar cuidando de garantir a punição dos envolvidos. Diz o ministro da Fazenda que estamos diante da “maior fraude bancária da história” sempre escandalosa de Pindorama, e mesmo assim essa movimentação excêntrica de algumas autoridades, que atrapalha o rito normal das investigações, segue seu curso como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Mesmo que a gente saiba que esta republiqueta de bananas vive sempre no fio da navalha, essa verdadeira suruba master foi muito além da imaginação de qualquer pansexual. No meio dessa festa do pijama com dinheiro alheio, a CVM saiu de fininho pela porta lateral. O TCU apareceu sem ser convidado, representado por um “ministro” sem qualquer relevância no cenário nacional e envolvido em emendas parlamentares que estão se mostrando um festival de irregularidades no seu destino, em Roraima. No topo da cadeia, o Supremo assumiu um confuso papel de segurança desse verdadeiro clube de cafajestes, surrupiando o inquérito das mãos da Polícia Federal para impor sigilos e procedimentos nunca vistos.

Um capítulo à parte é a atuação de dois togados, cujas digníssimas (uma delas agora é ex) estão na galeria de fotos históricas da assessoria jurídica do Banco Master. Por óbvio, ambas como peças de contratos milionários. Sem contar que dois irmãos do togado relator do inquérito no STF – cuja ex foi advogada do Master – venderam participação no resort Tayayá a um dos fundos emaranhados na fedentina do Banco Master. Ou seja, qualquer manual de ética grita ao ilustre ministro se declarar impedido diante desse tuiuiú no Tayayá.

E para não perder nosso jeitão de eterna piada pronta, a segunda fase da operação policial revelou que diversos fundos sumidouros de dinheiro utilizavam nomes de personagens da franquia Frozen (Disney). Estão lá nos registros do Banco Central Anna, Olaf... Ou seja, o clube de cafajestes supostamente utilizava esses fundos para movimentar dinheiro ilícito e tudo indica que buscaram intencionalmente esses nomes de personagens porque remetiam a “congelado”. Terminaram conseguindo o intento porque agora esses (e outros) fundos estão devidamente congelados pelo Bacen. Agora, quem quiser recuperar esse rico dinheirinho provavelmente sem origem vai ter que meter a bunda na janela. Quem haverá de? Esse tipo de doido tem juízo e costuma esperar que o escândalo seja abafado. Para o bem de todos. Os envolvidos.

Como obviamente se trata de um dinheirão de muitos donos escondidos, além de uma teia de benesses distribuídas a amigos influentes, talvez esteja aí a razão desse esforço descomunal de tanta gente “insuspeita” entrando em campo posando de dona da bola.

O togado relator, que que está indócil, havia decretado que tudo deveria ser encaminhado ao Supremo, mas teve um choque de realidade quando 23 veículos, 30 armas, 31 computadores, 39 celulares, R$ 645 mil em dinheiro e um bocado de relógios foram apreendidos. Não havia onde guardar essa montanha de provas na sede do tribunal.

Venha cá, será que um ministro do STF não conhece os ritos processuais? Claro que essa intromissão é prejudicial para as investigações e beneficia os acusados. E o mesmo Supremo vai ficar calado, não há mecanismos para acabar com esse vexame autoritário e monocrático, nem que seja mandando essa mixórdia para o Plenário? Afinal, já existe um clima de constrangimento entre os ministros da corte em razão da atuação completamente excêntrica do colega relator, cujo ponto principal de descontentamento é o esforço dele para limitar a ação da Polícia Federal no caso.

Esforço que passa por evitar o acesso primário dos policiais a informações vitais, como o conteúdo de celulares e computadores apreendidos. Escolher ele mesmo os peritos que vão atuar no caso, sem o menor esforço para disfarçar a intenção de controlar a investigação. Pedir novo cronograma para os depoimentos e reduzir o tempo para a PF ouvir investigados 

Entretanto, a primeira providência do Supremo foi tomada em silêncio: o ministro cuja mulher assinou contrato de R$ 129 milhões com o Master instaurou inquérito de ofício – quando não há provocação externa da PGR ou da PF –, com o objetivo de apurar na Receita Federal e no COAF os responsáveis pelo vazamento de informações do tal contrato milionário, bem como dos investimentos dos parentes do relator no Tayayá.

Por seu turno, o Senado anunciou, dentro da Comissão de Assuntos Econômicos, a criação de um grupo de trabalho que poderá acompanhar os desdobramentos do caso. Dentro da lógica que impera em Pindorama, a primeira reação lógica é saber de que lado esses caras vão jogar. Afinal, são políticos brasileiros em ação. E como a tal comissão não tem poder de CPI, parece muito mais uma turma de bisbilhoteiros que não deverá fazer diferença.

É impressionante como somos um povo banana da republiqueta! Há quantos anos a sociedade é sacaneada? Os menos animados dizem que é desde Cabral, e que até o Descobrimento é uma farsa de data e local. Não há como negar que vivemos nesse frege desde os tempos de Ilha de Vera Cruz, que viramos uma esculhambação constante. Basta pensar que uma geringonça de dimensões continentais foi tratada como ilha. Tudo bem, há quem diga que isso é piada de português, mas virou a terra de Macunaíma, o herói sem caráter.

Temos vocação seminal para esquemas fraudulentos e gente escorregadia. Basta abrir a página dos primeiros anos da colônia e já teremos um certo Bacharel de Cananeia mais enrolado do que língua de tamanduá, lá pelas bandas de São Vicente e Cananeia.

É... O momento do Cabaré Brasil é delicado, embora nossa republiqueta de bananas tenha doutorado em avançar por um poço que nunca tem fundo.

Como diz o meme de internet, “Menino, tu ainda vai ver coisa!”.

H. Romeu Illanba não é jornalista. É um obelisco.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Meu destino

Titina Medeiros - revistaquem.globo.com


Janduhi Medeiros

A talentosa atriz Titina Medeiros uniu o Seridó nestes dias pelo fio invisível e poderoso da memória familiar. 

Poucas regiões no mundo ostentam um povo tão coeso quanto o seridoense. 

No Seridó, a família não é apenas núcleo: é estrutura, é disciplina afetiva, é espinha dorsal da vida social. 

As linhagens se entrelaçam, os sobrenomes se repetem, e quase todos são primos — de sangue, de afeto ou de história.

Essa tessitura profunda vem de uma herança cultural ancestral, frequentemente associada a valores de origem hebraica: o apego à genealogia, o respeito aos antepassados, o culto à terra onde os ossos dos pais repousam. 

O seridoense gosta dos parentes, das calçadas conversadas ao fim da tarde, dos tamboretes nas portas, do chão seco que lhe moldou o caráter.

Quando Titina decidiu se enterrar em Acari, terra de sua devoção e pertencimento, ela não fez apenas uma escolha pessoal ou afetiva.

Ela externou um valor civilizatório: o orgulho do seu povo, a fidelidade às origens, a consciência de que a identidade não se abandona, se honra. 

Seu gesto foi menos um adeus e mais um retorno — um ato simbólico que reafirma que, no Seridó, a terra não é só lugar: é herança, é memória viva, é destino.

Janduhí Medeiros é escritor e poeta

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Comendo cru

Gargalo25

H. Romeu Illanba

Qualquer pessoa com dois neurônios funcionando já ouviu o velho adágio popular “O apressado come cru”. E por analogia o apressadinho sempre termina tomando nas adjacências do propriamente dito. Ainda mais nestes tempos em que, segundo o pensador italiano Umberto Eco, “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. Esses imbecis finalmente ganharam um sobrenome à altura: “tudólogos”. Os imbecis tudólogos têm, sobretudo e sempre, uma opinião formada sobre tudo, de briga de vizinhos a chuva de meteoritos numa nova lua de um ex-planeta sem nome a milhões de anos-luz. Óbvio que a crise venezuelana não passaria ilesa pelo radar desfocado dos imbecis tudólogos, que já entupiram as redes sociais de estridências de dar pena.

Desde os anos 1910 existe exploração petrolífera no país, à época realizada por empresas inglesas e americanas. Em 7 de janeiro de 1936 teve início a atividade da Standard Oil por lá, que terminou sendo o marco do grande salto venezuelano nesse mercado. Em boa parte do século 20, a maior comunidade de norte-americanos fora dos EUA vivia exatamente na Venezuela.

Tempos em que o país caribenho chegou ao posto de 4º mais rico do mundo, muito em razão da associação empresarial com EUA e Inglaterra, já que o país não tinha tecnologia nem capacidade de exploração daquela riqueza. Tudo mudou com a chegada de Hugo Chávez ao poder, por um golpe de Estado, que transformou em ruínas com seu populismo e tirania o que era uma espécie de paraíso tropical cuja população vivia com alto nível financeiro. De quebra, estatizou instalações privadas das empresas estrangeiras. Como se não bastasse, deixou Nicolás Maduro como herança maldita.

Olhando para a Arábia Saudita, onde está outra reserva mundial gigante, temos além do colosso estatal Saudi Aramco (a PDVSA de lá), empresas estrangeiras norte-americanas, inglesas e chinesas operando na produção petrolífera. Algo que se repete em diversos outros países produtores do Oriente Médio. Também podemos lembrar o período de efervescência cultural do Irã nos tempos em que empresas inglesas e americanas estavam presentes em seu território. Basta olhar velhas fotos da Teerã dos anos 1970 para encontrar uma juventude risonha, com as moças andando de saias curtas. Ou seja, não é a presença estrangeira que necessariamente destrói o país detentor da riqueza explorada. Por isso é sempre recomendável conhecer a realidade antes de repetir opinião alheia e sair cagando goma.

Parece correto reformar o discurso “a Venezuela só é esse País quase falido porque os EUA e alguns outros países dominaram sua política e roubaram suas riquezas...”. Talvez seja justo incluir Rússia e China num tipo de exploração falimentar para os venezuelanos, pagando muito menos pelo petróleo e utilizando navios piratas para levar o produto para seus próprios territórios – a China era o maior comprador do petróleo venezuelano até este momento.

Não poucos os indícios de operações suspeitas da Venezuela para exportar e transportar o produto, que incluem o Brasil. Foram muitos petroleiros flagrados navegando com o sistema de GPS desligado, trocando bandeira e o próprio nome (repintado) em alto-mar. Por “coincidência”, todos fazendo a rota de Caracas para Rússia e China – um deles, que vinha se escondendo há dias no mar, foi tomado por forças especiais enquanto estava sob escolta de uma embarcação militar russa.

Também chama atenção o fato de o governo chavista/madurista permanecer no poder, se propondo a seguir as determinações dos EUA. Tanto que já anunciou a libertação de todos os presos políticos como “gesto de paz”. E agora se sabe que a atual presidente interina Delcy Rodríguez e seu irmão, o presidente da Assembleia Nacional Jorge Rodríguez, procuraram a Chevron – empresa americana com presença centenária no país – há algum tempo. Mantiveram estreito contato com a empresa e com um diplomata dos EUA (que atua nos bastidores) porque desejavam restabelecer as relações internacionais políticas e empresariais da Venezuela. Está claro que não incluíam Maduro nesse futuro e ninguém consegue garantir que não tenham exigido a retirada do ditador de cena.

Ou seja, os imbecis tudólogos são no mínimo imprudentes ao sair falando sem informações. Além deles, muitos jornalistas militantes da esquerda festiva estão readequando os discursos inflamados de ontem para diminuir o vexame – agora não conseguem esconder que estavam desinformados, para dizer o mínimo. Também é interessante o esquecimento seletivo sobre Maduro ter em mente tomar na marra um pedaço do território da vizinha Guiana, que guarda imensa reserva petrolífera e nenhuma capacidade de defesa militar.

Nem sempre os fatos são agradáveis, inclusive para os rebanhos políticos que vivem de narrativas. E quase sempre os “tudólogos” quebram a cara porque ignoram os fatos, não esperam o dia seguinte dos acontecimentos. Há um rebanho numeroso que sempre sintetiza tudo colocando os EUA no papel de vilão desde o prefácio. Virou modelo de discurso que naufraga por falta de isenção e ignorância dos contextos históricos. Neste caso da Venezuela, passar ao largo de uma relação construída ao longo do século 20 com os EUA é apenas desinformação, defesa de ponto de vista ideologizado ou simples desprezo intencional dos fatos.

A História não se reescreve com narrativas ou opiniões, muito menos as construídas por ideologia política contaminada com complexo de inferioridade terceiro-mundistas. Ou seja, devemos nos indignar com qualquer um que ultrapasse a linha da civilidade. A mesma indignação que serve para Donald Trump não pode poupar Stalin, Mussolini, Mao, Castro, líderes árabes, africanos e asiáticos pelas barbaridades cometidas contra seus próprios povos. Sim, ficou cansativa essa conversa mole de que Tio Sam é o único malvado nesse circo de horrores. Por isso essas campanhas enlouquecidas pelas redes sociais em favor de A ou B sempre deixam no ar a impressão de que as pessoas falam do que não conhecem, apenas repetem o que o “mestre” mandou.

Os americanos são bonzinhos? Claro que não! Afinal, não há bonzinhos na História. Ela foi construída e transmitida pelas potências dominantes em cada período – impérios mongol, chinês, persa, egípcio, alexandrino, romano, árabe, britânico... Hoje vivemos uma batalha de interesses entre EUA, China e Rússia pelo domínio geopolítico a partir da economia. E isso só não virou uma carnificina porque o poderio militar dos EUA não tem paralelo, algo que os adversários sabem muito bem. Repete-se a lógica aberta pela imensa ferida causada pelas bombas de Hiroshima e Nagasaki: a paz será garantida pelas bombas. Até quando, é apenas palpite. Pode não ser o ideal, mas é melhor que seja até sempre porque acreditar no desarmamento geral tem cara de utopia.

A maioria das pessoas deu de ombros ou fez chacota quando Trump apareceu proclamando “Make America Great Again (MAGA)” e “America First” na última campanha eleitoral. Agora sabemos que era um aviso do que viria. Tanto é verdade que no dia em que Maduro foi retirado de Caracas apareceu no perfil oficial da Casa Branca uma publicação cujo título era “Chega de Jogos”, junto com a sigla “FAFO” (“F*ck Around and Find Out”). Em tradução livre, algo como “Faça besteira e arque com as consequências” ou “Brincou com fogo, vai se queimar”.

Ou seja, a ação na Venezuela parece ter sido a primeira amostra da nova “política internacional” dos EUA neste momento, e a Casa Branca fez questão de avisar que ações imprudentes ou desafiadoras podem gerar reações duras. Recado mais direto para Rússia e China impossível.

É importante entender que essa absurda política externa americana não tem nada de amadora. Tanto que entraram no radar Groenlândia (que pertence à Dinamarca e domina a região do Mar do Norte, rota naval crucial para Europa e Ásia), Panamá (o canal é outro ponto fundamental do comércio internacional) e, agora, Fernando de Noronha e base aérea de Parnamirim (pontos estratégicos no hemisfério sul para frear a influência da China neste lado do globo). E Cuba (transformada em ruínas pela ditadura e que tem localização estratégica), já recebeu um recado direto: “Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, eu estaria pelo menos preocupado”.

É mais saudável utilizar a inteligência para pensar o mundo com princípios de cidadania, com esclarecimento, com leitura analítica, compreendendo os fatos para tentar sofrer menos. Usar a boca para replicar discursos de direita e esquerda é entrar num armário com cheiro de naftalina e achar que vai encontrar uma roupa da moda. Estamos num mundo pós-tudo, onde direita e esquerda não fazem mais qualquer sentido e nada mais parece surpreender. Talvez seja mais adequado tentar trabalhar para que o tudo não seja assim tão tudo.

Como fez o presidente da Alemanha Frank Steinmeier em um evento, demonstrando o incômodo europeu com a pressão americana sobre a Dinamarca, em razão da Groenlândia: “Hoje há a quebra de valores por parte do nosso parceiro mais importante, os EUA, que ajudaram a construir essa ordem mundial. [...] Trata-se de impedir que o mundo se transforme em um covil da ladrões, onde os mais inescrupulosos tomam tudo o que querem, onde regiões ou países inteiros são tratados como propriedade de algumas poucas grandes potências”.

Claro que o recado dirigido aos EUA parece ainda mais talhado para a Rússia, que invadiu a Ucrânia, destruiu o país e começa a enviar ameaças veladas e drones espiões como avisos militares para a Europa. De quebra, o líder alemão também cutucou as posições sempre dúbias de Brasil e Índia: “Países como Brasil e Índia precisam ser convencidos a proteger a ordem mundial”.

É impossível negar que a encrenca vai muito além dessas “verdades” fechadas nos limites dos currais de rebanhos polarizados. É urgente perceber que o mundo agora vai muito além de capitalistas e comunistas. Afinal, o anão de jardim da Coreia do Norte informou ao mundo que “o governo monitora de perto os acontecimentos na Venezuela, espera que a democracia seja restaurada, que a vontade do povo venezuelano seja respeitada e que a situação seja estabilizada o mais breve possível por meio do diálogo”.

Como diz o meme de internet, “Menino, tu ainda vai ver coisa!”.

H. Romeu Illanba não é jornalista. É um obelisco.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O carteiro sumiu

RichardsDrawings/Pixabay

Goya Bada

Meninos e meninas – e todas as variações – deste meu Brasil ora varonil ora brochado: não tá fácil! Que outro lugar deste mundinho de meu Deus passamos uma boa vergonha por dia, fora as dezenas de ruborizações nossas de cada dia?

Nem na hora do almoço esses jornalistas deixam a gente em paz, servindo molhos amargos como o rombo acumulado nas contas do governo federal até novembro: R$ 83,8 bilhões. Nesse balaio estão Correios, Casa da Moeda, Infraero, Serpro, Dataprev, Emgepron, Hemobras e EMGEA. Formam um pacote de lixo embalado como empresas estatais.

Segundo dados do Banco Central, esse grupo de ineficiência é um sumidouro de dinheiro público que apresentou rombo de R$ 6,73 bilhões em 2024 e R$ 6,35 bilhões em 2025. Petrobras, Eletrobras e bancos públicos não estão incluídos no cálculo desse ralo. Ou seja, o que é ruim não está livre de piorar.

O mais impressionante é que esses mamutes deficitários atuam em áreas altamente valorizadas no mercado mundial – tecnologia (Dataprev e Serpro), logística (Correios), infraestrutura aeroportuária (Infraero), impressos de segurança (Casa da Moeda), biotecnologia (Hemobrás), projetos navais (Emgepron), gerência de ativos (EMGEA) – e mesmo assim funcionam muito mais como cabides de emprego para apaniguados do Estado-patrão. Tanto que a maioria delas é simplesmente custeada pelo Tesouro e ponto final.

Embrulha o estômago pensar que, no governo FHC, as gigantes UPS, FedEx e Amazon manifestaram interesse em comprar os Correios, mas os espertos de sempre jamais arriscariam abrir mão de uma teta então muito fértil e melaram qualquer possibilidade de privatização – os rumores apontavam R$ 8 bilhões para abrir o leilão, e lá se vão 23 anos que o tucano deixou o poder.

Do posto de empresa-modelo mais admirada do país para o limbo atual foi uma ladeira de incompetência. A empresa tinha 51% de participação no mercado em 2019 e despencou para os 22% atuais. É claro que todo mundo faz uma pergunta básica: como é que diretoria, conselho e o próprio governo (acionista) não perceberam tamanho desastre?

E os sacripantas oficiais ainda têm a ousadia de tripudiar da nossa inteligência, afirmando que a bancarrota da empresa era inevitável desde que a sociedade se modernizou e deixou de enviar cartas com a popularização da comunicação digital. Como se o grosso da atividade da empresa não fosse a entrega de encomendas e mercadorias.

Bom lembrar que desde 2015 as empresas de correios do mundo entenderam que o nicho de correspondências estava desaparecendo e trataram de se reestruturar. Os alemães, muito bobinhos, resolveram a questão privatizando sua estatal e ponto final. Agora, surge a conversa de buscar parcerias ou abrir o capital. Ah, bom! Resta saber onde estão os incautos para entrar nessa roubada antes de qualquer reestruturação da empresa – embora a atividade tenha grande potencial econômico, os métodos “empresariais” do setor público dispensam apresentações.

Da sua trincheira no Palhaço do Planalto, Sassá Mutema foi aos alto-falantes para declarar apoio ao aporte de R$ 12 bilhões nos Correios e, peito estufado, afirmou que enquanto estiver desonrando a Presidência do Bordel Pau-Brasil, não haverá privatizações. Claro, o rebanho foi ao delírio já decorando a fala e ensaiando a claque para o ano da graça eleitoral que começa daqui a três dias. Como de costume, o fariseu de botequim esqueceu de lembrar algumas coisinhas que costumam dinamitar urnas eleitorais.

Como investidor não é dado a rasgar dinheiro, não existem interessados em comprar essa sucata desde a tentativa no (des)governo Bolsonaro. Nada menos que 15 mil funcionários (17% do quadro), que pelo visto já não fazem falta, deverão ser demitidos até 2027. Muitas agências serão fechadas e imóveis vendidos. Os R$ 12 bilhões aportados para “salvar” quem já está no inferno serão espetados nas costas daqueles otários de sempre, chamados “contribuintes”.

O empréstimo “saneador” foi assinado sexta-feira (26) com validade até 2040, garantido adicionalmente pela União. Ou seja, na falta de pagamento da estatal – algo bastante provável – e de liquidez das suas próprias garantias, o Tesouro [também conhecido por Viúva (nós)] abrirá pernas e cofres para manter os sorrisos dos credores da dinheirama: Banco do Brasil (R$ 3 bilhões), Bradesco (R$ 3 bilhões), CEF (R$ 3 bilhões), Itaú (R$ 1,5 bilhão) e Santander (R$ 1,5 bilhão).

Os mais céticos já entendem que BB e CEF vão terminar entubando suas (nossas) partes. Afinal, se daqui a 15 anos ainda houver ECT, o pessoal dos bancões estatais envolvidos no empréstimo provavelmente serão acometidos de amnésia do fiofó alheio. Até porque, segundo Emmanoel Rondon, presidente da encrenca, para complementar o descalabro, no próximo ano (que começa daqui a três dias) o ralo vai sugar mais R$ 8 bilhões com um novo empréstimo. Ou seja, por ora a continha vai fechar mesmo em R$ 20 bilhões. E ele afirma também que, se nada fosse feito, o rombo chegaria a R$ 23 bilhões em 2026.

Causou estranheza em Brasília a ausência das viúvas e bobos alegres da esquerda-caviar festiva para embarcar como avalistas nessa barca furada, já que defendem o Estado chafurdando na economia. Na verdade, esses militontos ficaram todos afônicos porque sabem que a friagem do sereno vai virar mais uma tempestade com dinheiro público.

E, last but not least, privatizada em junho/2022 a Eletrobrás encerrou o exercício de 2024 com lucro de R$ 10,4 bilhões, quase dobrando o resultado do ano anterior.

Goya Bada não é jornalista. É um doce.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Papangu-rei


Vatti Catar

Já dizia o velho Ulysses Guimarães: “Se você acha esse Congresso ruim, espere o próximo”. A velha raposa política vaticinou o que virou quase uma lei não escrita a cada eleição, quando emergem das urnas parlamentares ainda mais insignificantes, baixos, escatológicos, corruptos, indignos... A lista dos adjetivos é interminável e as perspectivas para a abertura das urnas em 2026 deverão confirmar a fala do Senhor Diretas, político lendário que foi um dos maiores presidentes da história da Câmara dos Deputados.

Somente um país amoral como o Brasil tolera um Congresso que piora a cada eleição. Hoje temos Senado e Câmara presididos por duas figuras absolutamente inadequadas, que ninguém sabe direito de onde vieram – não me venham falar de geografia e da naturalidade desses caras. Repetem a velha escrita do coronelismo como filhos de famílias dominantes nas políticas regionais e cercadas de investigações. Uma simples visita ao maior site de buscas da internet traz resumos desoladores:

“A família do senador e seus membros têm sido alvo de diversas notícias e investigações envolvendo polêmicas, que abrangem desde crimes ambientais e grilagem de terras no Amapá até esquemas de corrupção, rachadinha, contrabando e tráfico de drogas.”

“Mãe, pai, avó a padrasto do deputado já foram investigados ou presos nos últimos 10 anos.”

Os acordões que estão na ordem do dia para frear a refrega entre Legislativo e Judiciário não parecem motivados pelo indispensável equilíbrio entre os Poderes. Na verdade, visam acalmar o festival de rabos presos que provocam insônia generalizada. De um lado, um Congresso que dispensa apresentações. Do outro, um Supremo que engoliu a língua diante das inexplicáveis ligações diretas de parentes de ministros ou gestos de simpatia de alguns deles com empresas e empresários que operam na economia dos esgotos e reluzem na ostentação desabrida.

E os expedientes são um escárnio: patrocínios, bocas-livres nababescas no exterior, esposas, filhos e parentes embutidos em escritórios de advocacia pagos a peso de ouro para defender réus bilionários em tribunais superiores – alguns contratos são tão generalistas que podem até entubar manjubinha frita no forno da Pizzaria Brasil.

O escárnio mais reluzente até agora – nesta terra em que tudo se dá nunca se sabe o dia de amanhã – é reincidente: um mesmo togado que dispensou multa bilionária de um cliente da agora ex-mulher, decretou sigilo sepulcral em favor de outro depois de, por pura coincidência, participar de um voo de jatinho da alegria palmeirense – alegria que durou somente até o Flamengo apresentar seu jogo no Peru e levantar o tetra da Libertadores. Vá lá, alguém pode enxergar uma corrente de apoio para quer tia Leila fique calma, ainda mais agora que ventos suspeitos de fraudes da CPMI do INSS podem soprar no banquinho dela.

Ao mesmo tempo em que uma andorinha solitária não consegue emplacar sua data venia no código de conduta das outras incelenças de preto, no outro lado da Praça dos Três Podreres (linguagem neutre) as incelenças eleitas só caçam níqueis e fingem que nada demais aconteceu com os coleguinhas fujões do bananal bananeiro. Ao que tudo indica, jatinhos continuarão esvoaçando togas e gravatas nos ares urbi et orbi, tendo Brasília como hangar, e pousos e decolagens seguirão livres de freios de arrumação.

No Executivo, o fedor do patife-mor et caterva sobre os números de Petrobras, Banco do Brasil (inclusive Previ) e Correios remete ao lamaçal mensalão + petrolão. É apenas a firma reconhecida da vocação dos petralhas e a continuação do fluxo de esgoto no Palhaço do Planalto após a imundície deixada pelo soldador e seu pelotão fardado.

A questão do Executivo é complexa porque, diante da menor crítica, os rebanhos enlouquecem espalhando narrativas de defesa para seus capatazes, sempre apontando os dedinhos melados de esterco para o curral do outro lado do pasto. Pior, acreditam nas versões amestradas produzidas em laboratórios de narrativas, mas param de mugir diante de uma pergunta simples: que empresa contrataria esses insignificantes como CEOs? Ou alguém já esqueceu daquela outra que conseguiu quebrar uma lojinha de R$ 1,99?

Se a direita bronca não se envergonha de bater continência para pneus, tentar contato com ETs e pedir um golpe militar para salvar a democracia, a esquerdinha caviar-festiva constrange o circo com suas “viúvas” posando com aquele ar de intelequitual que finge não enxergar a roubalheira no seu próprio mar de lama, mas avista uma realidade paralela doentia e vive nela. Essa gente da militância veste um colete fajuto onde mandou imprimir “Guardiães das Virtudes”, no melhor estilo flanelinha que acredita ser engenheiro de tráfego.

Estes últimos dias de 2025 revelam que estão sumindo as boias de salvação dessa água imunda que começa a subir pelas nossas canelas, e que a corredeira não vai desaguar no precipício final da Terra plana para desaparecer por encanto negacionista. Há até quem jure ter visto disco voador sobrevoando Copacabana com uma faixa publicitária onde se lia “Em terra de rabo preso todo papangu vira rei”.

Vatti Catar não é jornalista árabe. É uma imprecação.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Sem salário, Bolsonaro pode receber Bolsa Família

 


Ex-presidente vai fazer curso de 
solda na cadeia para aumentar o soldo

O ex-presidente Jair Bolsonaro poderá ser beneficiado pelo Bolsa Família em breve. 

Bolsonaro deu entrada no pedido do benefício depois que o PL cortou o seu salário de R$ 46 mil, como Aspone. 

O ex-presidente receberá o Bolsa Família de sua própria família.

Flávio Bolsonaro já abriu uma nova franquia de chocolates para garantir o leitinho condensado do papai.

Com Bolsonaro fora do páreo, a direita se movimenta para lançar seus candidatos. 

Mas não há unanimidade. 

Flávio já se lançou, mas sem consenso. 

E sua candidatura já nasce com um racha. 

Ou melhor: uma rachadinha.

A notícia da perda de renda de Bolsonaro veio junto com a do aumento da renda do brasileiro. 

Um aumento de 5%. 

O ex-presidente planeja aumentar seus rendimentos fazendo trabalhos manuais na cadeia. 

Por isso, ele já se matriculou num curso de solda à distância. 

Por via das dúvidas, a PF reforçou as barras da cela.

Com informações do Jornal Sensacionalista

Mimimi do xilindró


Alisando Cresci

A pior característica dos estúpidos é a certeza de que o resto do mundo vive na estupidez. Há ainda uma casta mais estúpida na espécie dos estúpidos: os estúpidos burros – nenhuma associação com a nobre espécie dos asnos. O pior é que a estupidez não tem monopólio.

Lula e Bolsonaro são estúpidos e muito parecidos. Embora seus seguidores dogmáticos digam o contrário com uma idolatria constrangedora – e obviamente estúpida –, não passam de dois sujeitos ignorantes, incompetentes, fanfarrões, misóginos, homofóbicos, racistas, corruptos, indignos da Presidência da República. Estão por aí há mais de 50 anos sem qualquer relevância, mas hoje dominam a política brasileira pilotando uma polarização dolorosa para os destinos nacionais. Na verdade, disputam palmo a palmo o campeonato de vexames sempre caríssimos para o bolso do contribuinte. Não é tarefa difícil, dada a estupidez coletiva de uma sociedade que sempre se lixou para ela mesma.

Por muitos anos imaginamos que a representação brasileira do reino da burrice humana fosse feudo dos petralhas, naquela exuberância de gerar provas contra eles mesmos e na competência em colocar a corda nos próprios pescoços. Qual nada, desde 2017 emergiu das trevas do baixo clero uma família que roubou cetro e coroa dos adversários. Como naquele momento a petralhada estava encarcerada na roubada bilionária do consórcio mensalão + petrolão, ocupar o território da outra facção ficou mais fácil para os emergentes da estupidez, que tomaram o centro do picadeiro e tornaram o espetáculo ainda mais dantesco. Tanto que a frase “É inacreditável a falta de adulto na sala!” se tornou uma espécie de tatuagem na testa da família Bolsonaro, um coletivo de estúpidos.

Foram quatro anos de aberrações ao lado de figuras inacreditáveis como aliadas. Até o coitado do Jesus entrou na dança: não bastasse a cruz milenar, foi colocado no pau da goiabeira! E as Forças Armadas, especialmente o Exército, causaram assombro com a quantidade de gente desqualificada que vestia farda e foi ocupar cargos civis no governo.

O tempo passou e a ópera-bufa teve seu desfecho com o país amanhecendo debaixo de memes com a prisão do líder da bananada. “Se o cara for preso, o país vai parar”, esbravejaram em várias ocasiões os babões mais próximos da cesta de ovos. Bela profecia, o país já estava parado pelo feriadão.

A eterna mania de brincar com a inteligência coletiva que permeia a política nacional parece ter dado chabu e jogado a pá de cal nessa figura sinistra. A multidão que protestaria continuou na praia, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê trepada na serra. Ou num shopping, que ninguém é de ferro. Até porque a “prisão” foi mostrada: uma acomodação individual com 12 m², ar-condicionado, televisão, frigobar, janelas e banheiro exclusivo, com direito a equipe médica de plantão 24 horas. Quem vai perder um churrasco ou um cineminha por isso? Desde então as ruas estão cuidando somente do próprio cotidiano.

Inventar uma “vigília de orações” foi o cúmulo da estupidez, inclusive porque o alvo das preces nunca foi um modelo de religiosidade. Já a esposa, embalada como quase pastora, estava rezando a milhas e milhas dali, no Ceará – e provocando mais confusão, honrando a tatuagem na testa da família. Tudo ia bem até que a tentativa de romper do hímen da tornozeleira eletrônica alertou a Justiça do estupro iminente das medidas cautelares em curso. O Instituto de Criminalística atestou que o equipamento continuou virgem, mas ficou comprovada a tentativa de abuso de inviolável.

Até o Inspetor Clouseau, famoso pela estupidez em A Pantera Cor-de-Rosa, foi um dos primeiros a perceber que a tentativa de rompimento do hímen da tornozeleira era uma cagada sem tamanho, que seria associada ao tumulto da hora do culto orar pelo Exército de Brancaleone.

Quando o plano ruiu e a prisão preventiva foi decretada, chegaram a inventar que o destrambelhado tinha batido com a tornozeleira numa escada – sem estabacar-se no chão, diga-se! Passo seguinte, um dos luminares da egrégia confraria sugeriu criar a narrativa de que o homem tinha surtado e violado a dita cuja, abrindo uma picada para a defesa alegar mais um problema de saúde, agora de cunho mental, em busca de atenuantes que mantivessem a prisão domiciliar. Os aliados cogitaram ressuscitar o projeto de anistia. O mais impressionante é que a versão do surto psicótico extrapolou o ambiente dos currais do rebanho e contaminou a tese da defesa, surpreendendo o mundo jurídico.

Tudo seguia o roteiro da balela, já que ninguém sabia direito como tinha sido a tal tentativa de violação da tornozeleira. Até que surgiram na imprensa as imagens deprimentes da canela com a tornozeleira toda queimada. Para não deixar dúvida quanto ao nível da (falta de) inteligência dessa figura estúpida, sua própria voz foi ouvida assumindo a culpa pela tentativa de violação, confessando à policial que havia criado aquele pregueado ao redor do aparelho quando realizou a “Operação Jerico” com um ferro de solda. Tamanha cagada de queimar as beiradas do equipamento foi “por curiosidade”, segundo balbuciou a própria anta. No meio daquele frisson, Closeau teve um dos seus lampejos brilhantes: “Bastava ter cortado a perna, montar numa muleta e entrar na História com a ‘Fuga Saci’”.

Defender essa criatura é tarefa facílima. Os advogados sabem que não vão precisar explicar nada sobre as derrotas jurídicas certas, porque o cliente não dá chance. Mas, ele (ou alguém) paga muito bem e isso é o que interessa no fim. Só fica difícil para os causídicos convencerem os juízes de que alguém que dizem estar sob efeito constante de medicamentos fortes consiga realizar algo assim sem queimar as próprias canelas. Diante do conjunto de tantas maluquices e até para o bem do preso, o Supremo achou prudente manter a prisão preventiva. Por unanimidade.

E o Supremo teve boas razões. Afinal, foi abandonado em casa um doente que, segundo a própria família e advogados, padece de problemas nos sistemas cardiológico, pulmonar, gastrointestinal, neurológico, oncológico e psiquiátrico. A turma togada deve ter enxergado um bem caracterizado abandono de incapaz. Como é que deixam um indivíduo enfermo, idoso e alucinado sem vigilância e acompanhamento? Assim como atentou contra a tornozeleira, poderia ter introduzido o ferro quente no ouvido, ou atentado contra a própria existência!

Viu-se que os petralhas eram fichinha na arte de construir patíbulos para uso próprio e restou um clima boquiaberto entre os aliados. Muitos começam a se perguntar como é que que um sujeito que vive de imagem pública insiste numa opção pra lá de temerária para o próprio futuro político. Manter esse coquetel de desculpas esfarrapadas que mistura surto psicótico, confusão mental e efeito colateral de medicamentos potentes, inclusive psicotrópicos, significa adentrar um ambiente cercado de preconceito onde falta de lucidez e dependência grave a medicamentos pesados comprometem a credibilidade. Nada mais mortal para quem se acha o cavalo do cão da direita. Não seria melhor os doutores emitirem logo um laudo comprovando que o distinto é, na verdade, vítima de idiotia (retardo mental grave)?

Diante do espetáculo deprimente, os amigos-ratos começaram a pular do navio do capitão. O rombo no casco é enorme e só ficaram os velhos gatos-pingados oportunistas de sempre. Já o rebanho encurralado, vive a dolorosa constatação de que Bolsonaro é um destrambelhado idoso, doente, condenado e preso, que diz ouvir vozes vindas de dentro da tornozeleira eletrônica que tentou violar de forma demente. Os gaiatos de plantão já andam espalhando que o sujeito é tão fã de Lula que foi presidente, foi preso e agora quer ser metalúrgico. Também andam espalhando que a bichinha presa na canela, mesmo depois de tanto calor do ferro, disse “Tô contigo e não abro”.

Tudo que está acontecendo com Bolsonaro é de responsabilidade única e exclusiva dele mesmo, e esse tipo de trapalhão se torna tóxico quando ameaça o sistema. Por isso, nos ambientes íntimos da direita, já há um forte desejo de que Bolsonaro vire um problema exclusivo da Justiça, suma na poeira do esquecimento, leve os filhos junto e pare de atrapalhar a jornada do campo político, onde cada vez mais se forma um consenso de que essa família é uma fonte constante de estupidez e instabilidade.

Tanto que o Centrão já começou a negociar uma chapa presidencial sem ninguém do clã Buscapé. E como não tem bobo na trinca Valdemar-Ciro-Kassab, o enorme grupo que lideram tratou de espalhar que “o vídeo da tornozeleira inviabiliza anistia”. Até porque a insistência de tentar escapar pelo beco estreito da saúde mental desata um nó indigesto para o Centrão: se esse sujeito não responde por si, não tem mais condições de liderar absolutamente nada, muito menos exercer influência nas decisões do seu campo político numa sucessão presidencial.

É fato que a direita está tentando romper a própria tornozeleira eletrônica e se livrar dessa ligação cada vez mais indesejada. Pelo visto, chegou a hora do troco, de lançar o capitão gagá ao mar como ele fez com tantos aliados.

Ninguém merece ficar aturando essa aporrinhação infindável sempre que alguém importante cai nas redes da Justiça. O sujeito cometeu crimes e foi condenado? Que vá cumprir a pena que conquistou, o resto do país não pode ser penalizado junto. E chega dessa lenga-lenga de saúde frágil. Na hora da cana, esses patifes alegam que estão só vivos. Mas sempre prontos para subir em palanques, ocupar cargos e cometer novos crimes. Ora bolas!

Na verdade, o país vive as consequências da sua própria fragilidade. Enquanto continuarmos elegendo e reelegendo gente desqualificada, qualquer reclamação perde a legitimidade porque, a cada eleição, a chance de mudar é jogada na lixeira da cidadania. Afinal, os eleitos apenas são quem são, uma maioria de prontuários ambulantes que escolhemos como representantes nos Executivos federal, estaduais e municipais, Congresso Nacional, assembleias legislativas e câmaras municipais. Sem contar as nomeações para tribunais superiores, cada vez mais infestados de representantes jurídicos de padrinhos políticos.

Essa estupidez que emerge das urnas e a conivência que nos flagela refletem a sociedade que somos, e garantem ao Brasil uma posição vergonhosa: quatro insignificantes que ocuparam a Presidência – Collor, Lula, Temer e Bolsonaro – foram parar no xilindró tratados com mesuras que nenhum criminoso comum merece. E Dilma escapou por um triz. É tão vergonhoso que até o Rio de Janeiro, alma mater do crime organizado nacional, já dá sinais de aborrecimento por ter ameaçada a liderança de prisões de chefes de Executivo com sua corja de governadores que puxaram cadeia.

Enquanto durar a polarização ao redor de figuras degradantes o Brasil não sairá desse atoleiro eterno. Também parece insustentável que um país com mais de 200 milhões de habitantes aceite bovinamente ser governado por presidentes eleitos com menos de 30% dos votos, verdadeira miséria democrática de uma estatística que se perpetua por décadas. Um eleito nesse tipo de cenário deformado emerge das urnas sem representar nada além de uma minoria, e as consequências estão aí visíveis a olho nu.

O resultado dessa distorção é ter Lula e Bolsonaro se perpetuando em benefício próprio e de seus grupelhos, sem abrir espaço para qualquer tipo de renovação. São figuras desprezíveis que tomam microfones e privadas como sinônimos, e tratam o país como botequim de sua propriedade onde tudo é tocado com o elevado grau de imundície que carregam. Bem feito!

Enfim, chegamos à tal execução de pena tendo de aturar os jeitinhos brasileiros para vencer a dificuldade de punir. Os ilustres criminosos foram parar em quartéis, sala de estado-maior na PF e marmotas do gênero. E tudo indica que essas figuras que sujaram a farda manterão suas patentes militares.

Seguimos cheios de dedos para meter algemas em bandidos e mostrar imagens de suas prisões, que serviriam de alerta para futuros criminosos. Insistimos em deixar esses patifes criarem suas verdades mentirosas para desmanchar suas mentiras verdadeiras. Falta culhão a esta eterna republiqueta de bananas.

A última do papagaio é a alegação de que o general de pijama Augusto Heleno sofre de demência. Ora, se essa figura enfrenta o alemão Alzheimer desde 2018, como é que foi ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República de 2019 a 2023? A resposta é simples: porque foi nomeado por outro demente, o do ferro de solda. O pior de tudo é que, quando a coisa ficou histriônica demais, a defesa tratou de enfiar o Exército no meio da polêmica alegando que a Força é que errou ao indicar 2018 como início da doença – baseado em declaração do próprio enfermo.

A única carta fora do baralho fardado foi Bolsonaro, largado à própria sorte – como fez com tantos aliados – quando o Exército deixou claro que não o quer em suas dependências durante o cumprimento da pena. Na verdade, a instituição reservou espaço apenas para os oficiais-generais condenados. Capitão não entra nesse clube fechado, ainda mais quando parece estar em fim de linha.

Cadê os doidos que iriam parar o país batendo continência a pneus, em transe com aquelas rezas enlouquecidas na chuva, com celulares na cabeça procurando ETs? Caíram na real e desistiram do papelão que protagonizaram naqueles acampamentos ridículos? Claro, todo mundo tem mais o que fazer.

É saudável prestar atenção aos sinais do absoluto alheamento da caserna, que não emitiu sequer uma nota de duas cabeças (ativa e clubinhos da reserva) para protestar pelas prisões. É óbvio que as Forças Armadas não querem ser confundidas com os trapalhões da tropa.

Será que viramos a página e estamos num novo ciclo histórico? Pouco provável. Ainda vivemos divididos nos malditos rebanhos. Os militontos que cortaram os pulsos quando os petralhas foram engambelados, agora sentem orgasmos com a desgraça dos patriotários. E vice-versa. Nada mais bipolar! Sim, é verdade que a prisão levará o capitão ao ostracismo, inclusive por sua completa falta de brilhantismo. Mas há um rebanho órfão ansioso para conhecer seu novo capataz e ser tangido.

É sempre bom considerar que nesta republiqueta de bananas a casta política costuma se entregar a uma simbiose vergonhosa ao menor sinal de perigo, todos militando no mesmo lado para que o sistema de bons negócios não sofra solução de continuidade. E se livrando de quem botar a bunda (ou a canela) na janela.

É nestas horas que surgem projetos parlamentares sem qualquer interesse público como blindar e anistiar políticos, conter a atuação de instituições como Banco Central e Polícia Federal ou criar mecanismos para dificultar a punição de criminosos.

*Alisando Cresci não é jornalista. É especialista em mimimi de beiradas.

domingo, 31 de agosto de 2025

Bibica volta à lista de bilionários da Forbes

 A 13ª lista de bilionários brasileiros da revista Forbes, divulgada ontem, tem 31 estreantes, e o retorno de um dos mais assíduos. 

Bibica Di Barreira (foto), caicoense fundador e presidente do Conselho de Administração da Ryfs Corporation - uma das gigantes do entretenimento online - voltou ao ranking depois do tarifaço imposto pelo governo do Estados Unidos.

Os negócios da Ryfs aumentaram de forma exponencial, graças à procura pelos jogos da empresa por outros países, também afetados pelo tarifaço.

Bibica Di Barreira voltou ao ranking na 5ª posição entre os brasileiros mais endinheirados, com uma fortuna estimada em R$ 4,2 bilhões.

Empresário Bibica Di Barreira voltou em
5º lugar entre os brasileiros da Forbes

Entre os brasileiros estreantes eles estão nomes como Iris Abravanel, viúva de Silvio Santos, e Lauro Fiuza, um dos fundadores do Grupo Servtec, empresa do setor de energia. 

Em geral, os "novatos" são executivos ou herdeiros.

O ranking de 2025 da Forbes reúne, ao todo, 300 brasileiros com fortuna de R$ 1 bilhão ou mais. 

O mais rico é Eduardo Saverin: ele lidera o seleto grupo pelo segundo ano consecutivo. 

Só neste ano a fortuna dele cresceu 45,5%, para R$ 227 bilhões.

Já o novato mais rico da lista é Max Van Hoegaerden Herrmann Telles, filho mais novo do bilionário Marcel Herrmann Telles.

Segundo a Forbes, ele está assumindo a participação do pai na AB InBev, a maior cervejaria do mundo, proprietária da Ambev.


sábado, 30 de agosto de 2025

Dinheiro lavado

 

Imagem: Bru-nO/Pixabay


Giovanni Mick Torium*

A maior e mais importante operação policial já realizada do Brasil contra o crime organizado foi um primor de execução. Foi de cair o cu da bunda a dinheirama movimentada no negócio de combustíveis do Primeiro Comando da Capital (PCC): R$ 52 bilhões desde 2020. Estamos falando de um grupo de traficantes truculentos que se transformou num complexo sistema de negócios em diversas frentes empresariais. O mesmo modelito de empreendedorismo adotado pela Máfia italiana para legalizar seu dinheiro sujo, que se espalhou por outras organizações criminosas ao redor do mundo com a ajuda de profissionais cada vez mais especializados e muito bem pagos.

Entretanto, somos um país tão imbecil que setores da administração pública deram vexame em gabinetes refrigerados para requerer a paternidade do feito. Na verdade, foram três operações associadas: Carbono Oculto (Ministério Público de São Paulo), Quasar e Tanque (Polícia Federal). Enquanto 1,4 mil agentes públicos – aquela turma que vive enxugando gelo – estava em campo fazendo buscas, apreensões e prisões em dez estados, um bando de burocratas que ocupa cargos quase sempre pelo mérito do compadrio, da bajulação ou da ignorância eleitoral se pôs a contar vantagens como qualquer bom faroleiro. A trombeta dos miseráveis soou em duas entrevistas coletivas, Sampa e Brasília, juntando água e óleo. De um lado, os ministros Ricardo Lewandowski e Fernando Haddad, com a ajuda do chefe da PF Andrei Passos. Do outro, o governador paulista Tarcísio de Freitas. Todos com suas miras telescópicas apontadas para as urnas de 2026.

A operação só foi um sucesso porque, durante dois anos inteiros, diversos agentes públicos estaduais e federais trabalharam em estreita colaboração e sigilo, deixando fora da sala a maldita divisão política que polarizou o país e nos levou a este ponto de mediocridade generalizada, onde figuras manjadas vêm falar sobre trabalhar em uníssono e são as primeiras vozes a buscar os solos midiáticos.

Mesmo diante desse cerco histórico às finanças do PCC, se mantém no governo federal outra disputa inacreditável entre patotas de barnabés para definir se esses grupos criminosos devem ser chamados de facção, organização criminosa ou máfia. Sim, aquela filosofia de botequim cheia de dedos que cria direitos vadios para quem comete crimes sem qualquer deferência. A mesma lógica estúpida de que favela deve ser chamada de comunidade, às favas o fato de que as condições miseráveis de quem vive nelas jamais melhoram.

Enquanto isso, a bandidagem cada vez mais organizada vai refinando seus métodos de atuação, pouco se lixando para títulos e mesuras de quem não tem coisa melhor para fazer enquanto se agarra ad aeternum nas tetas públicas. A começar pelas excelências parlamentares que mantêm engavetada a PEC da Segurança Pública, muitas delas eleitas e reeleitas com campanhas financiadas por esse dinheiro sujo.

A operação policial jogou pelos ares apenas um dos setores da atividade da quadrilha, que inclui fazendas de plantação de cana, usinas, distribuidoras, postos de serviços, lojas de conveniência e até terminais portuários. Sem contar um enorme sistema de importação de insumos para produção e adulteração de combustíveis. Ou seja, uma operação comercial que não foi montada da noite para o dia e obviamente entrava como areia nos olhos, quiçá nos bolsos de autoridades há muito tempo. Autoridades que preferiam gastar dinheiro com colírio ao invés de fechar a janela por onde entrava o vento empoeirado.

Há quantos anos se sabe que dinheiro escondido em salas de apartamentos, dentro de paredes ou enterrado é destruído pela ação do tempo? Há até uma série televisiva de sucesso mundial que mostra as agruras que o traficante Pablo Escobar enfrentou com esse tipo de armazenamento rudimentar – chegava a perder 10% do faturamento anual para mofo e roedores, algo que nos anos de ouro alcançou US$ 2,1 bilhões de prejuízo/ano.

Ora, essa história é antiga pois o colombiano morreu em 1993. Passou tempo mais do que suficiente para que se criasse um sistema eficiente de monitoramento das principais facções brasileiras, que também precisariam de métodos mais modernos para armazenar dinheiro. A começar pelas contas bancárias que foram abertas aos montes. Essa displicência facilitou as providências que deram ares de legalidade ao fluxo de capital ilícito, com tudo ficando lavadinho da silva.

Segundo foi noticiado, a porta de entrada para legalizar o dinheiro eram fintechs (startups do mercado financeiro) que transacionam recursos de clientes – em contas que não identificam os titulares e permitem ocultar origem e destino do dinheiro – com administradoras de recursos encarregadas de buscar aplicações em novos negócios de fachada em diversos setores, aquisição de propriedades, fundos de investimento... O processo vai criando um emaranhado onde fica cada vez mais difícil revelar os donos da bufunfa. Para alegria dos criminosos de todos os ramos, tudo absolutamente dentro da lei.

Por merecerem regalias normativas em relação aos bancos tradicionais, as fintechs terminaram virando portas de entrada do sistema financeiro para dinheiro sem origem. O mais impressionante é que mesmo movimentando milhões de reais diariamente estavam liberadas de informar detalhes das operações, o que permitia incluir lucrativa vista grossa de operadores com olhos bem arregalados e sem qualquer vestígio de areia.

É grande a tentação de acreditar que essa fragilidade no controle e fiscalização foi garantida por uma legislação de caso pensado. Ou Brasília não é o centro legislador que na véspera da operação policial tentava aprovar, na calada da noite, a PEC da Blindagem? Já vai se formando um consenso de que seria a senha para acomodar membros infiltrados do crime organizado nas cadeiras do parlamento federal, o que livraria os criminosos de seguir financiando campanhas de políticos duvidosos. Assim, eles mesmos poderiam usufruir diretamente de uma nova legislação que os deixaria acima da Justiça e livres para legislar em causa própria, numa espécie de utopia da cafajestagem. Salvou-nos – por ora – o desconforto de ministros do STF, que chegou aos porões da Câmara e estancou o frenesi aprobativo.

Difícil acreditar que as fintechs foram criadas para atender apenas ao PCC ou qualquer outra sigla do crime organizado. Alguém ficará surpreso se a lista de clientes também esconder os velhos pilantras de sempre, que vivem solfejando moralidade e espírito público em seus imaculados colarinhos brancos especializados em desviar recursos públicos?

A economia do crime foi sendo legalizada debaixo dos narizes de um país que se acostumou a não sentir mau cheiro na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Diante do escândalo, o governo reagiu prometendo para o dia seguinte normativos que equiparem fintechs a bancos no rigor do acompanhamento e fiscalização de transações. Por que só agora, cara-pálida?

Algum gênio da raça pensou na ideia de infiltrar policiais nessas organizações financeiras que caem na tentação e se entregam ao riquíssimo pecado de lavar dinheiro. Não diga! Falta originalidade, para dizer o mínimo, porque é a mesma infiltração que o crime organizado demonstra ter feito há muito tempo nas mesas de operações do mercado, no ambiente empresarial, nos gabinetes políticos, no Judiciário, em congregações religiosas, nas universidades e no escambau.

É óbvio que o teatro de operações mudou completamente, já não está mais limitado a apenas caçar apelidos do mundo do crime debaixo de balas. Faz tempo que o PCC deixou de ser associado até com certo romantismo ao tal de Marcola – preso desde 1999 e esquecido numa cela da Papuda –, a liderança marginal e truculenta que se gaba de ter formulado o “Código do Diabo”, o conjunto de normas de conduta que todos os membros eram obrigados a cumprir.

O fato de seu nome não aparecer na operação policial demonstra que a turma parece cada vez mais independente e se distanciando do velho líder e seus métodos arcaicos. A organização saltou para um patamar de negócios cuja complexidade não deve ser fácil de alcançar – muito menos comandar de fato – por alguém que apenas completou o ensino básico na cadeia, se gaba de ter lido um punhado de livros, mas está encarcerado em regime de segurança máxima a milhares de quilômetros da sede da organização e longe do cotidiano dos negócios.

O surgimento de novos nomes como cabeças do negócio deixa no ar a impressão de que “PCC” já pode ter virado uma sigla generalista para designar esquemas criminosos que nada têm a ver com a organização original. Um sistema que pode estar credenciando “franqueados” e cobrando algum tipo de pedágio pela estrutura e pelo poder de intimidação, diluindo atividades ilegais de outros grupos para dificultar a ação dos agentes da lei, repetindo o que ocorreu com a Máfia siciliana – hoje tem máfia até de flanelinhas! Por isso mesmo, muita gente da Faria Lima deve ter faturado alto nesse embalo, mesmo sem nunca ter obtido carteirinha da turma de Marcola.

A gigantesca ação policial desnuda algo que qualquer um menos bobo enxerga até na vizinhança: o Brasil não consegue mais esconder sua índole criminosa, sempre protegida pela impunidade. Ou este não é o país que se acostumou a ver as grandes investigações terminarem mofadas ou roídas nas gavetas dos tribunais superiores maturando anulações vergonhosas, anistias e prescrições? Afinal, os maiores escândalos sempre correm para as altas cortes porque cifras milionárias e gente poderosa têm alergia à primeira instância.

Passeando aleatoriamente pela impunidade tupiniquim, o armário de 1983 mostra o esqueleto empoeirado do caso Coroa-Brastel, que eletrizou o país ao misturar o empresário Assis Paim Cunha e os então poderosos ministros Delfim Netto e Ernane Galvêas – está tudo a um clique na internet, inclusive o tamanho da pizza. Por isso, se quiser, vá gastar sua mufa sozinho. Eu vou continuar cagando e andando.

*Giovanni Mick Torium não é jornalista. É especialista em esgoto.

terça-feira, 10 de junho de 2025

O imbrochável... broxou!


Goya Bada*

Foi de dar pena o estado emocional de Jair Bolsonaro no depoimento a Alexandre de Moraes, hoje, falando mansinho, atropelando as palavras, gaguejando, visivelmente apavorado. Tanto que, durante horas de depoimento, só emitiu "entubar" como único exemplar do seu português ruim. Mas o sofrimento estava apenas começando.

O resumo é que o réu passou o tempo todo se lamuriando pela derrota eleitoral, mas em momento algum duvidou da legitimidade ou afirmou que a eleição foi fraudada. Mantendo a costumeira linguagem de botequim, declarou textualmente “tivemos que entubar o resultado das eleições”. Fez politicagem, se vangloriou, atacou Lula e adotou o papel de coitadinho que deixou a praia do Rio pelo “espinho” de subir o planalto para assumir a Presidência.

Talvez começando a entender o tamanho do problema que criou para si mesmo, em diversos momentos tentou culpar o próprio temperamento, a ponto de dizer que “tem se esforçado para melhorar”. Pediu para não ser condenado e que Deus iluminasse os votos de todos os juízes que o julgarão. Vexatório! A cara dos advogados deu o tom da preocupação sobre o futuro.

Houve um momento de grande constrangimento quando reconheceu que fez acusações levianas sobre propinas a três ministros do Supremo (Barroso, Moraes e Fachin). Afirmou que não tinha provas, que foram bravatas, chamou à cena o “temperamento” mais uma vez e pediu desculpas públicas aos três.

Outro enorme constrangimento se deu quando reconheceu que pode ter exagerado nas críticas às urnas eletrônicas, que estava apenas alertando sobre problemas de fraude que poderiam ocorrer “no futuro”, pois “nenhum sistema computacional está livre de invasões”, que pode estar imune hoje, mas ser invadido e fraudado no futuro. De quebra, defendeu as eleições paraguaias e venezuelanas.

Mais um constrangimento foi reconhecer que o relatório da comissão de militares não apontou qualquer irregularidade sobre o sistema das urnas eletrônicas e negou pressão (de que é acusado) para mudar o resultado do relatório e postergar a divulgação para depois do 2º turno das eleições.

Mais um constrangimento ocorreu quando interrogado sobre a minuta do golpe e reconheceu que eram apenas “ilações”, “considerandos”, “conversas informais”, que o material foi mostrado numa tela aos comandantes militares e que não fez os enxugamentos (de que é acusado) no texto original.

Em muitos momentos delicados, repetiu o “modelo Lula”: não sabia de nada, não viu, não foi informado. Ou seja, é legítimo supor que presidentes não governam o país, não têm autoridade, todo mundo faz o que quer em Brasília.

Confirmou a reunião com Zambelli e o hacker Delgatti e disse ter encaminhado o rapaz para o Ministério da Defesa e “não soube de mais nada”. Ou seja, ao invés de mandar prender um sujeito que prometia invadir o sistema eleitoral do país que supostamente governava, mandou-o apresentar o “projeto” ao ministério. E finalmente lançou a deputada fujona aos tubarões ao confirmar a reunião.

Não lembra de ter telefonado para o general Heleno retornar às pressas a Brasília. Ou seja, deixou no ar a impressão de que o milico de pijama – sentado logo atrás com cara de paisagem – está fora de órbita, pois deixou a festa do neto e pediu carona ao minstro da Aeronáutica (leia-se jatinho da FAB) para atender o chamado.

O pior momento de todos: convidou o ministro para a viagem política que pretende fazer nos próximos dias “se o senhor autorizar”. Depois de levar um elegante “declino” pela testa, rastejou ainda mais: convidou Alexandre de Moraes para ser vice dele na eleição de 2026. I-NA-CRE-DI-TÁ-VEL!!!

Um degradante pedido de penico ao “inimigo” em rede nacional, com vergonhosa bajulação. Algo que pode ser lido como “estou apavorado!”. Imediatamente, a militância entrou em parafuso e se dividiu. A banda mais bronca achou tudo muito engraçado, que o sujeito deu um show no depoimento e ainda tirou onda nos dois convites surreais ao ministro. A banda que acreditava fazer parte da salvação do mundo foi tomada por um sentimento difuso de vergonha e revolta ao perceber que apenas fazia parte do bloco dos bobos alegres, já que o próprio Bolsonaro rasgou a fantasia de “vilão” e de “inimigo número 1” que havia sido desenhada para Alexandre de Moraes.

O procurador-geral Gonet chamou o réu apenas de “senhor Bolsonaro”, sem jamais citar o último cargo, evitando o ridículo vício oficializado pela liturgia bajulatória nacional.

Ao fim do depoimento do réu, o resumo da ópera parece um apito agudo de um trem desgovernado e rumando para o abismo. Em resumo, o imbrochável... brochou!

*Goya Bada não é jornalista. É um doce.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

IA virou a ‘bitcoin reborn’ da malandragem

 Djair Galvão

Brasil virou um 'celeiro' de especialistas em Inteligência Artificial. Aqui se vende todo tipo de solução com as IAs. Uma picaretagem intelectual que repete estratégia de negócios das moedas virtuais


Você rola a tela do telefone, em qualquer plataforma, e aparece um vídeo com alguém falando - em tom professoral - como é fácil falar inglês sem esforço, aprender mandarim em meia hora, tirar suas vendas do fundo do poço ou resolver seus problemas históricos com o uso da língua portuguesa. Outra mocinha, de dentes brancos como a neve, dirá que a dieta dos sonhos será prescrita em poucos cliques e seu emagrecimento já estará garantido. Um terceiro indivíduo, de blazer italiano da Shopee, calça de sarja e sapatênis, mostrará como seus vídeos ficarão perfeitos, dublados em qualquer idioma. Por fim, seu corpo será bem-cuidado: o algoritmo ajustará tudo, indicará exercícios e os melhores médicos e hospitais, se for o caso.

Estamos numa fase na contemporaneidade em que fantasia e realidade se misturam numa espécie de encantamento coletivo - ou de quase todo mundo.

Outra situação que certamente muitos conhecem: você é apresentado a um sujeito num encontro com amigos e ele diz ser “especialista em IA”. Tem plano de vendas, de aulas de inglês, de musculação, indicação de vinhos, cervejas artesanais e das comidas perfeitas para você se dar bem e ser feliz para sempre. As maravilhas embutidas nas suas promessas são embaladas em termos em inglês e em palavras supostamente inteligentes. Depois disso, basta assinar um contrato com a empresa dele - na verdade um site vazio qualquer que promete muito e entrega tudo nas mãos da Inteligência Artificial. Se ele encontrou um otário, negócio fechado!

Essa febre das IAs lembra a atual crise dos bonecos de silicone, que grupos de adultos aparentemente desajustados chamam de 'bebês reborn': o crescente número de pessoas que se entregam de cabeça a uma dita novidade que vai revolucionar tudo e mudar suas vidas num passe de mágica. Também me faz recordar as constantes ligações telefônicas que ouvi em salas de espera de aeroportos nas quais sujeitos marombados falavam com seus “clientes” sobre ganhos que estes teriam com mais e mais investimentos em bitcoins. Nas diversas ocasiões que acabei ouvindo, o vendedor estava sendo cobrado para devolver o dinheiro e dizia que estava aguardando a liberação daquele "investimento" pela empresa. Traduzindo: o golpista vendera moedas virtuais num esquema de pirâmide e a pessoa enganada havia notado. Era hora de inventar uma história e partir para a próxima vítima. 

Jogos de apostas de picaretagem como Tigrinho, a turma das pirâmides das bitcoins, o mercado dos bonecos de silicone e a procissão real ou virtual de vendedores de IAs parecem ter um encontro marcado nesta quadra da humanidade. Todos guardam essa relação: promessas, fantasias, enganação, venda de sonhos e - tcharammm!!! - acontece o milagre da transferência de recursos para o bolso de uns poucos.

As corporações norte-americanas disputam avidamente esse mercado, alimentam os influenciadores com suas telas mágicas, impulsionam seus conteúdos, pagam milhões a alguns - uma ínfima parcela do seu faturamento multibilionário -, cujas fronteiras se desconhece. Nada é feito por acaso. Nada está desconectado do processo avassalador de dominação por meio das plataformas virtuais, inclusive chinesas. Estas, com seus protótipos de Inteligência Artificial, atiçam uma briga planetária que só começou.

Do lado mais frágil, os ditos consumidores ou “usuários” (dependentes químicos, inclusive) desse modelo de negócios que é a nova face do capitalismo no século 21.

Na prática, essa corrida do ouro na qual uns poucos pegam o que puderem vai se desenrolando sem nenhuma regulação, a milhões de quilômetros de qualquer comportamento que lembre ética ou cuidado com a saúde mental das pessoas. Estas foram reduzidas a admiradoras de um mundo maravilhoso, cercado de malandros por todos os lados. Uma ilha da fantasia de onde, minuto após outro, milhares perdem suas identidades, suas vidas, seu futuro e mergulham na depressão e no vazio.

Até onde pode-se avistar, esse universo turvo das promessas de "tudo nas mãos de todos - em segundos" é produto de um surto coletivo. Que parece não ter fim. E que se transmuta numa velocidade capaz de nos enganar como fazem os mágicos durante seus truques no picadeiro. Sabemos que a magia que rola entre os gestos calculados desses profissionais nos prendem pela curiosidade, mas estamos sempre dispostos a buscar o próximo encantamento a ser mostrado.

Esse é propriamente o mundo que se descortina nessa selva de enganadores, trapaceiros e pretensos especialistas. Eles exploram, à moda dos aventureiros do Velho Oeste, os avanços tecnológicos em curso e aqueles que ainda estão por vir. 

A tecnologia usada como fetiche e que vira negócio ou “oportunidade”, como se diz no jargão do empreendendorismo e afins. Estamos diante de um mundo sombrio e fazemos de conta de que tudo está cada vez mais lindo.

Repetindo uma expressão clássica, “Quem viver, verá”.

Leia outros textos de Djair Galvão clicando neste endereço:

https://substack.com/@djairgalvao?r=282wgt&utm_medium=ios

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Luto no Bar de Ferreirinha

Ismael Benévolo Xavier
*24/11/1940   +09/09/2024

O dia amanheceu mais triste hoje para os milhares de leitores do Bar de Ferreirinha.
Perdemos um dos mais ilustres clientes, assíduo colaborador e amigo dos editores do blogue mais escroto da internet.
Ismael Benévolo Xavier, conhecido no submundo etílico-cultural de Caicó e do Rio Grande do Norte, virou luz aos 84 anos.
Irmão de Nelhão, outro sócio do blogue/bar, Ismael nos deixou depois de uma luta pela vida que durou mais de sete anos.
A Moça Caetana - como sempre - ganhou de novo.
Ismael cumpriu a sua missão de pai, esposo e cidadão com muita dignidade: aos familiares e amigos, em especial ao editor-assistente Nelhão Benévolo, manifestamos a nossa solidariedade pela perda.
Dividimos esta tristeza com todos os que desfrutaram da alegre e descontraída convivência de Ismael aqui neste plano: um abraço fraterno e solidário!

Atualização, às 18h18 
O Bar de Ferreirinha esteve presente às últimas homenagens prestadas a Ismael, durante velório e sepultamento no Morada da Paz, em Emaús, Parnamirim.
E constatou o quanto ele era querido pela família - esposa, filhos, netos, irmãos, sobrinhos.
Muitos amigos também compareceram à cerimônia religiosa, e destacaram a paixão de Ismael pela vida.
Uma das mensagens enviadas virtualmente e exibida ao vivo, durante o velório, 
resumiu com exatidão o espírito dele: "Ismael, seu sobrenome é Alegria!"
Um epitáfio pra ele poderia ser escrito assim:

Viveu intensamente, 
alegremente e não 
teve vergonha 
de ser feliz.

Descanse em paz, Ismael!

Roberto e Pituleira
Editores (ir)responsáveis

domingo, 14 de julho de 2024

Cessar fogo

 


Empresário brasileiro Bibica Di Barreira está no Leste Europeu e informa direto de Varsóvia que, sim, é possível um acordo de cessar-fogo entre Rússia X Ucrânia

O empresário caicoense Bibica Di Barreira - que se prontificou espontaneamente a intermediar um cessar-fogo na guerra Rússia X Ucrânia - disse ontem com exclusividade ao Bar de Ferreirinha que os dois lados conseguiram avançar nas negociações para conter a invasão.

"Claro que não é fácil chegar a um acordo quando há uma guerra em curso, quando civis estão sendo mortos, mas posso assegurar que há avanços", disse ele, que viajou ao leste europeu semana passada.

Observadores internacionais já especulam a possibilidade de o brasileiro ser indicado para o próximo Prêmio Nobel da Paz.

Conciliador, Di Barreira não aderiu ao embargo comercial contra a Rússia, e os produtos da RYFFS Corporation (conglomerado de entretenimento virtual que ele criou e preside) continuam sendo vendidos principalmente em Moscou, onde a população é alucinada por jogo do bicho e rifas. 

Já os carrinhos do picolé caseiro Caicó permanecem sem circular na Praça Vermelha, o que tem provocado protestos: os russos estão putões com o presidente Putin. 

Bibica visitou a Rússia e a Ucrânia viajando por conta própria no jatinho do conglomerado RYFFS, e foi recebido por ministros dos dois países, mas não quis dar detalhes das conversas, afirmando apenas que desempenhou um papel de mediador. 

"Chegou a hora dos líderes locais voltarem a conversar e restaurar a civilidade entre os dois países vizinhos. Estamos trabalhando noite e dia pela paz", disse o empresário caicoense em entrevista exclusiva ao Bar de Ferreirinha.