Rômulo Rodrigues
Na eleição de 2022, nos quesitos votos para Presidente da República e para Governadora do Estado, Caicó registrou o fenômeno do voto que aponta para frente. Já na escolha para deputado federal, o eleitorado da Rainha do Seridó fez uma compensação que acabou tirando parte do brilho dos resultados majoritários.
E aí o escriba precisa fazer uma pausa para refletir: como explicar uma votação expressiva na escolha do projeto de governo identificado com o progresso e, na hora de eleger uma bancada de deputados capaz de viabilizar esse projeto, o eleitorado ajuda a eleger representantes que, em diversas ocasiões, atuam para dificultar a implementação de políticas defendidas pelo campo progressista? Nesse ponto, fica a impressão de que o movimento que parecia caminhar para frente, acabou dando alguns passos para trás.
No dia 2 de setembro, o senador Rogério Marinho atuou para impedir a redução da jornada de trabalho na escala 6x1, uma proposta que conta com amplo apoio popular. É inevitável, portanto, refletir sobre os 11.932 votos que ele recebeu em Caicó. Não se trata de qualificar os eleitores, mas de questionar as escolhas políticas e suas consequências.
Se determinados partidos e seus representantes atuam contra pautas que beneficiam diretamente os trabalhadores, é legítimo perguntar por que continuam recebendo votos na cidade. E essa reflexão ganha importância diante da perspectiva de uma candidatura do Seridó alinhada ao campo progressista em 2026.
Há uma definição clássica para quem costuma dizer: “Eu odeio o PT. Sou contra a esquerda.” Vejamos, então, o que está em disputa. A esquerda, historicamente, reivindica políticas de combate à desigualdade, à fome, à miséria, ao analfabetismo, ao racismo, ao machismo, à homofobia e à pobreza.
Defende a proteção dos direitos trabalhistas, a manutenção da CLT, a redução das jornadas exaustivas e o enfrentamento de práticas que representem retrocesso social e civilizatório. E a direita, na definição mais simplificada desse discurso, muitas vezes parece ter como principal ponto de convergência a oposição à esquerda.
No segundo turno da eleição presidencial de 2022, partidos e grupos políticos apoiados por parte do eleitorado caicoense participaram de ações que dificultaram o acesso de eleitores aos locais de votação, sob a alegação de que esses eleitores votariam em Lula. Depois da confirmação do resultado, houve tentativas de questionar a legitimidade do processo eleitoral e de impedir a diplomação e a posse dos eleitos.
Posteriormente, vieram à tona investigações sobre uma trama golpista que incluía a chamada “Punhal Verde e Amarelo”, plano que, segundo as investigações, previa o assassinato do presidente eleito, de seu vice e de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Diante do fracasso das articulações golpistas, o país ainda assistiu aos atos de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas.
É nesse contexto que o debate eleitoral de 2026 precisa ser colocado. Quando um candidato defende uma aproximação que possa comprometer a soberania brasileira ou chega a falar em anexação do Brasil aos Estados Unidos, não se trata apenas de uma escolha entre esquerda e direita. Trata-se de decidir que país queremos construir: um Brasil soberano, capaz de definir seus próprios caminhos, ou um país subordinado aos interesses de outra potência.
Para o eleitor de Caicó e do Seridó, talvez seja hora de fazer a pergunta que realmente importa: o voto vai continuar andando para trás ou, finalmente, vai voltar a apontar para frente?

Nenhum comentário:
Postar um comentário