O meu avô é...
Indubitavelmente, uma das melhores fases da vida é quando chegam os doces e inocentes netos. Muito já se falou sobre avós/netos, principalmente a beleza, a candura e a felicidade que sentimos em contato com esses nossos novos e belos descendentes. Muito já se contou sobre os fatos engraçados e as situações vexatórias que os netos nos colocam.
Mas, para inflacionar ainda mais a quantidade de historietas divertidas que envolvem os netos e seus velhos avós, eu também conto esta a seguir.
Um velho amigo, na meritória função de auxiliar os pais do garoto, foi buscar o seu neto no colégio. O garoto ainda era um aluno de Jardim de Infância e, por sua idade teria que viajar no banco traseiro do automóvel.
No trânsito, o garoto levantou-se do banco e ficou em pé atrás dele e o “abestalhado” do avô não notou. Era no tempo daqueles bonecos de aventuras (tipo Falcon), e o garoto vinha com um deles nas mãos e o “caduco” do avô não observou.
Ele (o avô), concentrado e atento no trânsito, ficou desligado do mundo e teve um bruto susto quando o garoto, imaginando uma briga do seu Falcon com um inimigo imaginário, deu um berro.
O susto foi tão grande que o avô quase provocou uma batida no carro que ia à sua frente.
Puto da vida, perdeu a esportiva e baixou a lenha no neto:
– Você tá doido, menino? Dar um grito desses dentro do carro. Eu quase provocava um acidente!
E, como uma punição, decretou:
– Volte a sentar no banco e permaneça quieto!
O garoto, assim procedeu. Mais na frente, ele olhou pelo espelho retrovisor e notou que o garoto estava cabisbaixo com a sua bronca. E baixou nele (no avô) um imenso remorso.
Então, ele adocicou a voz e disse:
– Volte para perto de vovô! Desculpe se vovô brigou com você. Vovô não está com raiva, não! Vovô lhe ama!
O menino, ainda com o Falcon, na mão, voltou a ficar em pé atrás do banco do motorista, e perguntou:
– Vovô! Eu posso lhe dizer uma coisa no seu ouvido?
Aí o velho se derreteu todo. Baixou aquela aura de ternura senil de avô e ele, com a voz ainda mais adocicada, disse:
– Claro, meu amor! Diga aqui no ouvidinho de vovô!
E o garoto descarregou toda a sua frustração nessa frase que o velho jamais esqueceu.
– Vovô! O senhor é um grande filho da puta!
Ciduca Barros é escritor e colaborador do Bar de Ferreirinha



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