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terça-feira, 9 de junho de 2026

São João sem forró é como pamonha sem milho

Caricatura: https://www.moxotodagente.com.br/

Cachês milionários para sertanejos despreza artistas nordestinos e o Forró fica na portaria


Roberto Fontes

Tem alguma coisa errada no reino do milho, da pamonha e da fogueira. 

Enquanto as prefeituras nordestinas despejam cachês milionários sobre artistas sertanejos, muitos dos verdadeiros donos da festa junina seguem sendo tratados como figurantes no próprio terreiro.

A polêmica explodiu depois que o paraibano Flávio José anunciou o cancelamento de cerca de 15 shows na Bahia pela resistência de algumas prefeituras em pagar seu cachê de R$ 350 mil. 

Nada de extraordinário, não fosse o detalhe de que vários artistas sertanejos contratados para os mesmos festejos receberão entre R$ 650 mil e R$ 1,1 milhão por apresentação.

A conta não fecha, mas para quem criou a trilha sonora do São João, o cofre fecha.

Já para quem chega de fora da tradição junina, ele se abre sem cerimônia.

Os números mostram que nomes históricos do forró, como Flávio José, Alceu Valença, Elba Ramalho e Alcymar Monteiro, recebem valores muito inferiores aos destinados às atrações que dominam atualmente as grades dos festejos. 

E o mais curioso é que muitos desses artistas sequer têm ligação direta com a cultura junina nordestina.

O problema, porém, vai além dos grandes nomes do forró. 

Enquanto se discute cachês de centenas de milhares de reais, milhares de músicos locais, trios pé-de-serra, sanfoneiros, zabumbeiros e cantores de pequenas cidades continuam sobrevivendo com cachês modestos, quando não humilhantes.

É justamente aí que mora a maior injustiça: o São João nasceu nos terreiros, nas praças, nos sítios e nas comunidades do Nordeste, e foi construído ao som da sanfona, do triângulo e da zabumba. 

Mas, ano após ano, seus criadores vão perdendo espaço para atrações importadas que transformam uma manifestação cultural em simples espetáculo de mercado.

Ninguém questiona o direito de qualquer artista trabalhar e receber pelo seu sucesso, mas o que causa estranheza é ver gestores públicos alegando falta de recursos para valorizar o forró tradicional enquanto encontram milhões para contratar atrações que pouco ou nada têm a ver com a essência da festa.

Neste ritmo corre-se o risco de chegar o dia em que haverá mais chapéu de cowboy do que chapéu de couro nas festas juninas do Nordeste.

E, quando isso acontecer, talvez seja tarde demais para perguntar onde foi parar o São João que nossos avós conheciam.

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