Desbotou o verniz?
Acabou a tesão
Acredito que todos sabem o que é verniz. Segundo o Dicionário de Aurélio "é uma solução de goma ou resina natural ou sintética em álcool, essência ou óleo sicativo, usada para recobrir e proteger metais, madeiras, etc". Quem nunca protegeu alguns objetos com verniz para resguardá-los das intempéries do tempo?
Portanto, como eu disse antes, todos conhecem e muitos já usaram este tipo de protetor. No entanto, o Dicionário Aurélio também define verniz como “polidez superficial de maneiras” ou “aparência favorável dada a um procedimento mau”.
É desse perigoso verniz que eu desejo discorrer. Um falso verniz de bondade, caráter, probidade, respeito, amor e carinho, que muitas pessoas aplicam em suas más qualidades e enganam outros viventes.
Vamos excluir dessa lista os políticos brasileiros, pois a falsa aparência já é parte intrínseca de muitos deles e inúmeros são useiros e vezeiros em passar verniz em suas caras de pau.
Falemos daquele tipo de verniz que é abundantemente usado, consciente ou inconscientemente, quando duas pessoas se conhecem e são atraídas sentimentalmente, mas mascararam as suas verdadeiras falhas com um bom verniz e vão tentar uma convivência. Eu digo “vão tentar” porque, ambos com seus defeitos envernizados, a probabilidade de não dar certo é altíssima.
Todos conhecem casais que pareciam dois pombinhos eternamente apaixonados. De repente, o romance chegou ao fim, caiu o verniz. Os insultos mútuos substituíram as antigas doces declarações de amorosas.
E aqueles pares, melosamente apaixonados, todos com uma forte demão de verniz em sua rudeza? Acabou a tesão! Então tome porradas para tudo que é lado. Porradas acompanhadas de palavrões e impropérios, que ficaram camuflados por o bom verniz.
E aqueles, que tinham um vínculo legal em sua relação? Casaram, com seus defeitos maquiados, e quase viveram para sempre. Por que “quase”. Porque as intempéries da vida, o desgaste natural de um relacionamento, carcomeram as suas caras de pau devidamente envernizadas. Daí, desfizerem as suas máscaras e foram brigar nos tribunais. Os anos de um casamento cheio de tesão foram esquecidos. O verniz desbotou.
Ciduca Barros é escritor e colaborador do Bar de Ferreirinha



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