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terça-feira, 28 de agosto de 2018
Eternidade
ARTHUR RIMBAUD
Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.
Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.
Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...
Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.
Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
O dever
É vosso ardor.
Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.
Dentadas
A COISA TÁ MAIS OU MENOS ASSIM: OS CANDIDATOS NÃO TEM NENHUM PLANO DE GOVERNO E O POVO NÃO QUER SER GOVERNADO POR NINGUÉM.
CACO DENTÃO
segunda-feira, 27 de agosto de 2018
Uma garota
![]() |
| Foto: reprodução |
São interessantes as pessoas com autoestima, ainda mais as pessoas com super autoestima. Aquela garota estava no segundo grupo.
O homem saía do restaurante numa tarde que ficou nublada, e a chuva que se anunciava não veio. Deu de cara com a cena.
A moça estava parada na calçada do outro lado da rua. Esperava alguém, sem demonstrar qualquer pressa. Dava longas tragadas no cigarro, encostada na vitrina do salão de beleza refinado. Acabara de sair lá de dentro com aquele ar de quem levou uma geral diante do espelho.
Não dava para saber se ela tratou dos cabelos ou de algo mais, e nem quanto gastou naquele salão caro. Não havia resultado aparente – não adiantava ficar tentando ajudar. E ainda tinha uma cor esquisita na parte final do cabelo, algo escuro misturado entre azul e verde. Difícil entender aquela paleta de cores esparramada quase sobre os ombros.
O vestido preto, apertado, era muito menor na parte da frente, deixando entrever, de forma quase acintosa e a um fiapo de pano de distância da calcinha, suas coxas brancas. Magérrimas – sinto que estou tentando ajudar porque eram esqueléticas, na verdade. Do tipo que predomina no anoréxico mundo da moda.
Ela chamava a atenção dos passantes da alameda com seu conjunto exótico. Inteiramente na dela, sem capitalizar nada. Apenas esperando.
A grande vidraça da loja deixava ver o movimento frenético dentro do salão de beleza, como se aquilo fosse um grande aquário com sua fauna e flora exóticas. Colada no vidro pelo lado de fora, era como se ela ainda estivesse dentro daquele ecossistema de futilidades.
O homem ficou encantado com aquela figura. Da maioria das pessoas, possivelmente conquistaria com facilidade o olhar destinado às mais feias. Mas era apenas uma garota de uma grande cidade vivendo sua vida em paz. Exótica, cheia de personalidade, cagando um monte para o que os outros pudessem pensar. Exercendo o que talvez seja a maior virtude da super autoestima: a prerrogativa de não estar nem aí.
O homem atravessou a rua e se aproximou.
– Você deve ser a Rafa.
– Sim, sou eu. Tudo bem?
Ela jogou o cigarro na calçada e pisou para apagar. Dobraram a esquina e se perderam no vaivém da cidade.
O homem saía do restaurante numa tarde que ficou nublada, e a chuva que se anunciava não veio. Deu de cara com a cena.
A moça estava parada na calçada do outro lado da rua. Esperava alguém, sem demonstrar qualquer pressa. Dava longas tragadas no cigarro, encostada na vitrina do salão de beleza refinado. Acabara de sair lá de dentro com aquele ar de quem levou uma geral diante do espelho.
Não dava para saber se ela tratou dos cabelos ou de algo mais, e nem quanto gastou naquele salão caro. Não havia resultado aparente – não adiantava ficar tentando ajudar. E ainda tinha uma cor esquisita na parte final do cabelo, algo escuro misturado entre azul e verde. Difícil entender aquela paleta de cores esparramada quase sobre os ombros.
O vestido preto, apertado, era muito menor na parte da frente, deixando entrever, de forma quase acintosa e a um fiapo de pano de distância da calcinha, suas coxas brancas. Magérrimas – sinto que estou tentando ajudar porque eram esqueléticas, na verdade. Do tipo que predomina no anoréxico mundo da moda.
Ela chamava a atenção dos passantes da alameda com seu conjunto exótico. Inteiramente na dela, sem capitalizar nada. Apenas esperando.
A grande vidraça da loja deixava ver o movimento frenético dentro do salão de beleza, como se aquilo fosse um grande aquário com sua fauna e flora exóticas. Colada no vidro pelo lado de fora, era como se ela ainda estivesse dentro daquele ecossistema de futilidades.
O homem ficou encantado com aquela figura. Da maioria das pessoas, possivelmente conquistaria com facilidade o olhar destinado às mais feias. Mas era apenas uma garota de uma grande cidade vivendo sua vida em paz. Exótica, cheia de personalidade, cagando um monte para o que os outros pudessem pensar. Exercendo o que talvez seja a maior virtude da super autoestima: a prerrogativa de não estar nem aí.
O homem atravessou a rua e se aproximou.
– Você deve ser a Rafa.
– Sim, sou eu. Tudo bem?
Ela jogou o cigarro na calçada e pisou para apagar. Dobraram a esquina e se perderam no vaivém da cidade.
Documentarista, produtor cultural e colaborador do Bar de Ferreirinha
O choro da loira
O executivo chega ao escritório e vê sua secretária loira chorando.
- O que aconteceu dona Paula ?
- Minha avó, que mora na Itália, morreu!
- Oh, sinto muito...
À tarde, o chefe pega a loira com nova crise de choro e pergunta:
- Ainda está chorando pela morte da sua avó?
Dentadas
Desidéria
Darcy Ribeiro
Desde que encontrei Desidéria, não tenho mais
Sossego.
É verdade que ela me falta por longos,
Longuíssimos tempos de espera.
Quando ela vem, me assombra.
Ou serei eu que assombro Desidéria?
Então nos engolfamos um no outro.
Eu penetro todo inteiro.
Nela me expando como uma nuvem. Imensa,
Maior que o mundo todo. Miraculosa.
Assim viajo em Desidéria mundos impensados.
Uma vez, fomos ao lugar do Começo do Mundo.
Lá eu vi! Juro que vi!
A Boca Medonha do Sopro dos Ventos,
Soprando tormentas, vendavais.
Outra vez, de Desidéria
Vi o hórrido Lugar do Fim do Mundo.
Lá, o sol mergulha no mar.
É espantoso de ver o fremir das águas revoltas.
Ferventes, elas explodem, jorrando nuvens,
Para chover dilúvios mundo afora.
Uma vez Desidéria me levou, alçado,
E me largou, sem ela, na Selva Selvagem.
Desde o alto do céu me dispersou
Sobre aquela miríade de mil árvores,
Com seu ar florestal.
Lá me perdi para sempre de mim e dela,
Sentindo o vento descabelar as frondes.
Oh, Desidéria, não me venha nunca mais, Desidéria.
Ou, se deve vir, que venha logo.
E me leve em seu sopro etéreo ao Lugar Temido.
Sei que de lá ninguém voltou jamais.
Jamais ninguém voltou de lá.
Para contar! Para calar!
Lá estarei eternamente dissolto em Desidéria.
Médico sacana
O homem pergunta ao médico:
— Doutor, eu manco porque tenho uma
perna maior que a outra. O que o senhor
faria nesse caso?
— Bem, provavelmente eu mancaria também!
— Bem, provavelmente eu mancaria também!
domingo, 26 de agosto de 2018
Um corno cordato
Ciduca Barros
Ele era um homem de muito prestígio naquela região. Tinha prestígio político e grande importância porque era um homem rico. Ele era agropecuarista, comerciante e industrial. Sintetizando, o homem era ouvido pelo padre, pelo prefeito, pelo delegado e pelo juiz de direito daquela comarca.
De repente, a cidade começou a comentar que D. Judite Falcão, sua respeitável esposa, estava lhe botando galhas. E os comentários eram sussurrados e medrosos, pois o poderio do “hómi” era grande e ninguém poderia julgar onde iria a sua ira quando o escândalo eclodisse. E quem, segundo as más línguas, seria um namorado daquela dama? Um mero balconista de uma loja da cidade. E o boato estava se espalhando rapidamente como um rastilho de pólvora.
Naturalmente, aquela maledicência chegou aos ouvidos dos amigos, correligionários, da igreja e da comarca. Daí então um grupo de amigos resolveu intervir. Formaram uma comissão, tendo à frente o senhor vigário e o senhor prefeito, e foram falar com o “hómi”. Sob o maior sigilo se reuniram no escritório central dos seus vastos negócios.
– Puxa! Que coisa boa, meus melhores camaradas resolveram me fazer uma visita! Que honra! – disse o traído, a título de saudação.
Mandou que trouxessem água e café e, todos começaram a conversar sobre generalidades.
No momento oportuno, o vigário, que tinha sido nomeado como “relator” da má notícia, atacou:
– Seu Ernesto, nós estamos aqui numa missão muito indigesta. Nosso assunto é muito desagradável e por demais melindroso.
O traído que era um homem acostumado com as intempéries da vida, acendeu um charuto, recostou-se na sua cadeira de executivo e disparou:
– Pessoal! Eu sou um velho de casca grossa. Já enfrentei tudo na vida.
– Mas este assunto é pessoal e familiar, seu Ernesto. É um grave problema que envolve D. Judite – rebateu o padre.
Ao ouvir o nome da esposa, o semblante do velho mudou. Trouxe sua cadeira mais para perto do birô e com a voz muito mais grave, perguntou:
– De que se trata?
Pensem como ficou tenso o clima naquela sala. Baixou aquele silêncio sepulcral que antecede uma tragédia. E com todos suando por todos os poros, o padre mandou a notícia:
– D. Judite está lhe chifrando!
Aqui vocês podem imaginar o suspense que reinou no ambiente. O suor descia em bicas no corpo de todos, inclusive no do padre que não parava de afrouxar o colarinho clerical.
O poderoso Ernesto Falcão, voltou a afastar a cadeira, deu uma baforada no charuto e calmamente soprou a fumaça para o alto. Para os presentes, aquela cena lembrou um touro (de grandes pontas?) soltando fogo pelas ventas antes de chifrar (epa!).
E desandou a fazer perguntas sem sentido:
– Quem é o Ricardão? Ele ganha bem? Ele tem casa? Ele tem carro?
Com todos sem entender e se entreolhando, o velho continuou:
– Se ele for um rapaz pobre, nós temos que arrumar financeiramente a sua vida.
E jogando um balde de água fria na comissão, ele explicou:
– Eu estou doido pra me livrar daquela velha!
Escritor e colaborador do Bar de Ferreirinha
Trotes
Em uma conceituada faculdade de Medicina, quatro enfermeiras resolvem pregar trotes em um estudante novato. Depois das brincadeiras, elas se encontram pra contar o que fizeram:
- Eu coloquei algodão no estetoscópio dele! - disse a primeira, caindo na risada.
- E eu troquei as fichas dos pacientes dele! - comentou a segunda.
- Fui muito mais malvada! Encontrei uma caixa de preservativos na sua jaqueta e furei todos eles com uma agulha - disse a terceira!
A quarta enfermeira desmaiou...
Só lero
No Brasil as pessoas são
hipócritas. Dizem que
querem a verdade, mas
só vivem mentindo.
Everaldo dos Santos
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