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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

É primavera: viva o povo brasileiro!

         

Rômulo Rodrigues

Estamos em marcha: existimos!

O grito de rebeldia ecoou e, mais do que nunca, está preparado para continuar zunindo nos ouvidos moucos de uma parcela da população que não se lembra — ou prefere não se lembrar — das Diretas Já e do Fora Collor. Seja por comodismo, seja por ter assumido uma neutralidade que, em momentos decisivos, se transforma em cumplicidade.

Sem pedir licença a Caetano Veloso, resgato o verso que se tornou uma espécie de oração em homenagem ao gênio piauiense Torquato Neto: “Existirmos: a que será que se destina?”. E recorro também a Gonzaguinha, para celebrar a beleza das respostas que vieram das ruas, especialmente da juventude: foi bonita, foi bonita e foi bonita. Afinal, o desafio continua sendo viver, e não ter vergonha de ser feliz.

A Revolução Francesa de 1789 não teria acontecido sem a participação decisiva da juventude e das classes trabalhadoras, representadas pelos sans-culottes, na tomada da Bastilha. A Marselhesa, seu hino revolucionário, ainda emociona quem acredita e luta pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Nos dias atuais, entretanto, parece que alguns setores médios da sociedade ainda insistem em se comportar como os antigos girondinos, distantes dos anseios populares.

A tomada da Bastilha tupiniquim aconteceu no domingo, 25 de outubro de 2026, sem armas, mas com 64 milhões de votos. O povo brasileiro foi às urnas e barrou, democraticamente, um projeto político que representa a continuidade do bolsonarismo, com suas relações controversas, suas práticas autoritárias e sua perigosa proximidade com setores que flertam com a violência e a intolerância.

O resultado foi muito mais do que uma vitória eleitoral. Foi uma virada histórica. Depois de terminar o primeiro turno atrás do adversário, Lula conseguiu reverter a desvantagem e conquistar a Presidência da República pela quarta vez, feito inédito na história democrática brasileira. Uma vitória que reafirma a força da mobilização popular e a capacidade de reação da sociedade.

Seria cômico, se não fosse trágico, constatar que quase 60 milhões de brasileiros, muitos deles com elevado nível de escolaridade, conservadores e honestos, embarcaram nessa aventura política. Uma escolha que poderia colocar em risco conquistas democráticas, direitos sociais e a própria soberania nacional, submetendo o país a interesses estrangeiros e a uma visão de mundo subordinada à velha Doutrina Monroe.

Essa parcela do eleitorado, assim como as novas gerações, deve refletir sobre o significado dessa disputa e sobre os riscos que o Brasil acaba de superar. Vale lembrar a profética frase de Lula, ainda nos tempos de liderança sindical, na década de 1980: “Os poderosos podem matar uma, duas e até três rosas. Mas não conseguirão deter a chegada da primavera”. A primavera chegou pelas mãos do povo brasileiro. E a democracia, mais uma vez, mostrou que tem raízes profundas neste país.

Viva o Brasil que é - e sempre será - dos brasileiros!

Militante político   

O dia depois

                   

Ivar Hartmann

Sempre vem o dia depois. Depois do dia em que acertamos ou erramos. Ia dizer que a direita errou ao escolher seu candidato a presidente. Mas não. Como já escrevi há quatro anos, e agora, quando da escolha do filho como candidato, o grande cabo eleitoral do Lula chama-se Jair Bolsonaro. Tornado líder pela direita, usando seu poder de voto e veto, escolheu o filho Flávio como candidato, quando o certo era ter escolhido a dupla Tarcísio-Michele. Mais uma vez, por incompetência ou soberba, facilitou para a esquerda.


Goste-se ou não, a esquerda ainda teve nestas eleições um candidato, cheio de podres do passado, mas, ainda assim, conhecido, esperto e, sobretudo, disposto a usar a caneta de presidente. O que todos fazem se podem. O ciclo Lula termina agora. Idoso, com problemas de saúde, sem poder se candidatar de novo, deixa a esquerda órfã. Bolsonaro e Lula despediram-se como figuras centrais da política brasileira. E a direita e a esquerda vão ter de ir atrás de novas lideranças. Muitos nomes estão disponíveis para ambas as facções. Uns que se julgavam herdeiros, foram banidos pelas urnas: José Dirceu, Gleisi e companhia.


Outros que se julgavam no direito de liderar, como o derrotado fugitivo Flávio, esquecem que liderança não faz parte das nossas heranças. A fuga deu adeus às suas pretensões. Primeiro porque o novo Congresso, com maioria da direita, não vai escolher um chefe foragido e inexpressivo. Segundo porque jamais um brasileiro votaria em um protegido do Trump. Tarcísio, herdeiro da direita, já começou a ser massacrado pelos bolsonaristas. Sinal que se prepara para assumir de vez, aquilo que o cabo eleitoral do Lula impediu neste ano. Pelo Brasil, que a esquerda também escolha bem sua nova liderança.

Promotor de Justiça aposentado

ivar4hartmann@gmail.com