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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Uma semana de ressaca é muito

      


Rômulo Rodrigues

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, saiu na frente no domingo, dia 4, com uma estratégia atribuída a Steve Bannon, que combinou ciência e arte na disputa política. A operação teria sido estruturada em torno de três variáveis, partindo da premissa de que, até cinco dias antes do pleito, parcela significativa do eleitorado ainda define suas escolhas e consolida o voto. A ciência estaria no diagnóstico e a arte, na aplicação tática dos três pontos destinados a atingir o emocional do eleitor progressista, explorando narrativas difundidas pelos veículos do sistema Globo, assumidamente patronos da candidatura de Flávio Bolsonaro.

Os números das eleições anteriores ajudam a compreender essa dinâmica. Em 2018, foram aproximadamente 107 milhões de votos válidos, dos quais 49 milhões destinados a Jair Bolsonaro. Em 2022, os votos válidos chegaram a 118 milhões, e Bolsonaro obteve cerca de 51 milhões. Já em 2026, foram 119 milhões de votos válidos, com 56 milhões para Flávio Bolsonaro. Uma escalada eleitoral que, nessa leitura, estaria dentro do esperado.

O dado que mais chama a atenção, porém, é a abstenção: 33 milhões de eleitores deixaram de comparecer às urnas, em um universo de aproximadamente 158 milhões de pessoas aptas a votar. Somados aos votos brancos e nulos, esses números revelam a dimensão do contingente que não se traduziu em votos válidos para nenhum dos candidatos.

No Nordeste, o contingente de oito milhões de eleitores que se abstiveram merece atenção especial. Caso eles tivessem comparecido e votado na mesma proporção dos que efetivamente foram às urnas na região, Lula poderia ter alcançado a vitória ainda no primeiro turno, por uma margem estimada em 800 mil votos. A abstenção, portanto, não pode ser tratada como um dado secundário: ela pode ter sido determinante para o resultado.

Outro aspecto fundamental é que o eleitorado da direita e da extrema direita demonstrou estar mobilizado, comparecendo em peso às urnas nas diferentes regiões do país. O crescimento da votação de Flávio em relação à obtida pelo pai nas eleições anteriores reforça essa percepção. Para esse segmento, os questionamentos de ordem moral e política levantados durante a campanha aparentemente não foram suficientes para abalar a disposição de voto.

É preciso compreender que a disputa não se limitou à comparação entre propostas ou ao desempenho dos candidatos. Também envolveu a capacidade de mobilização, a exploração dos sentimentos do eleitorado e a construção de narrativas capazes de influenciar as escolhas na reta final.

Para recuperar o equilíbrio emocional depois dessa ressaca eleitoral, vale recorrer a Vladimir Maiakovski: “Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveremos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras haveremos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas.”

Enquanto isso, alguns episódios que poderiam ter provocado maior desgaste político parecem não ter produzido o efeito esperado entre os eleitores da direita. Do lado da soberania nacional e do campo progressista, passaram praticamente despercebidas as críticas à atuação do ministro do STF André Mendonça, apontado como cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro.

Também merece análise a exploração política do debate sobre a proibição das bets, em meio à atuação de setores do futebol interessados na manutenção desse mercado. Soma-se a isso a percepção de uma articulação entre Flávio Bolsonaro e os organizadores do debate eleitoral, com a transferência de responsabilidades para o candidato Lula, numa estratégia que remete ao método utilizado no confronto entre Collor e Lula, em 1989.

A lição que fica é dura: não basta ter argumentos, denunciar contradições ou acreditar que os fatos falarão por si. É necessário compreender o comportamento do eleitorado, enfrentar a desinformação, disputar as narrativas e, sobretudo, mobilizar quem pode fazer a diferença nas urnas.

Uma semana de ressaca é muito. Mas transformar a frustração em aprendizado político é indispensável para quem pretende mudar o rumo dessa história.

Militante político   

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