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domingo, 10 de junho de 2018

O Poço e a Serpente

Poço de Sant'Ana, Caicó - Foto: Wllana Dantas
Janduhi Medeiros

O Poço de Santana é a mais deslumbrante cacimba que os engenheiros da natureza arquitetaram no sertão. Fonte soberana da mitologia da serpente, que garantia, com isso, a existência das águas portáveis e a alegria dos potes. Criaram até uma enigmática lenda da existência de uma gigante serpente no fundo do Poço. Falam que a lenda vem da sabedoria politeísta dos índios, que ali habitaram durante muito tempo. Isso inibia a criançada de chafurdar a seiva, com seus banhos extermináveis, para o lustre do dorso se manter brilhoso. Depois que a engenharia humana arquitetou o gigantesco Itans, a lenda se associou ao regozijo da molecada, e o banho foi prontamente liberado. O rio do Seridó, com as grandes enchentes, ampliou o braço que passava pelo sítio, para acolher no seu leito o sonho da meninada. Mas, meu Deus, transformaram uma mina cristalina, sagrada e lendária numa imensa fossa de pecados. O pior pecador dos templos da masmorra era incapaz desse esgoto escroto, desse tanque de escuridão. 
Poço das grandes enchentes, do rio sagrando sobre a sua superfície, deixando feliz toda natureza em seu entorno. Tudo virou uma lâmina podre, abandonada. O  Poço que me ensinou a nadar, que oferendou água benta para a Igreja batizar todos os fiéis, durante séculos, não foi tratado com o carinho dos mandamentos da água. Faltou a homilia da proteção e o Sobrado do Padre é a grande testemunha desse desprezo infernal, com suas janelas, agora, fechadas. 
Por muitos invernos, os roçados de melancias das cercanias matavam a sede dos moleques mais atrevidos. O Colégio Santa Terezinha, que ficava pertinho, tinha uma doutrina rigorosa e as freiras proibiam as meninas de tomarem banho no Poço, para a tristeza dos aprendizes do nado. Quando a enchente passava, os peixes miúdos se ofereciam à pesca, fazendo os brincantes esquecerem o tempo, mas a sombra da oiticica maliciosamente anunciava as horas, quando riscava no chão às dez da matina, e todos corriam pra suas casas. Almoço!
Da pedra do Poço a gente via todos os pássaros bem pertinho: galos de campinas, canários, golinhas e todo tipo de aves silvestres da fauna sertaneja. Andorinhas eram aos milhares, davam seus voos rasantes, num balé harmonioso e retornavam pra torre da igreja, que servia de camarim. Às vezes, aparecia um assum-preto, sempre assustado, como se estivesse fugindo de um alçapão. O capinzal do Poço era a vegetação mais verde do sertão, brilhoso, deixava o gado gordo e esbelto, couro liso e valorizado. Tudo, no entorno do poço, era aprazível. Os guaxinins gostavam da sombra da oiticica, sombra que se esparramava nas areias do Poço, refrescante e majestosa. Quando uma raposa pegava uma galinha pautava a conversa dos moradores das ribeiras. Quem descia a Rua do Lajedo, passando na Casa de Pedra, chegava ao Poço mansamente. 
Na grande festa, o Parque Lima ficava perto do Sobrado do Padre. Do Poço, a gente enxergava a ponta da roda-gigante. As músicas que tocavam na difusora do Parque Lima eram melodias simples e gostosas de serem ouvidas, e os peixes certamente gostavam. Hoje, os parques são modernos, mas as músicas são chatas, abusadas e agridem a sensibilidade da natureza. Na frente da Catedral ficava o Arco do Triunfo onde se tirava retrato, pra mandar para os parentes que moravam distante. Subindo, chegava-se à charmosa Av. Seridó, que dava de cara com o mercado. 
Aos sábados, a grande feira. Numa dessas feiras, vi um homem enfiando prego no nariz, eu olhava para os pregos e não acreditava no que estava vendo. O ficcionista olhava pra gente e percebia o nosso medo. No domingo, quando estávamos na nossa praia, só se falava nos tamanhos dos pregos. Queijo! Os queijos de Caicó! Caminhões, ônibus, entupidos de queijos, levando pra Recife, Natal, Campina Grande. Os Jipes e as Rurais levavam os produtores dos queijos para os sítios, passando pela ponte e contemplando o capinzal do Poço. No Cine São Francisco, filmes tipo Romeu e Julieta animavam as noites dos sábados, e eu roçando o braço na pele da menina ao lado, com uma sensação dura e firme de que ela estava gostando. No alvorecer de mais um domingo, descia a Rua do Lajedo, passava na Casa de Pedra e já avistava o Poço, com sua lâmina resplandecente. A cidade tinha seus balneários: o Itans, os rios, os sítios e seus açudes, mas o Poço de Santana era o mais encantador. Talvez pelas suas lendas e mistérios. 
O tempo levou essa magia na rapidez de sua correnteza. O Poço de Santana se transformou numa cova funda de excrementos, no mesmo paço onde fica a Igreja, a Casa Paroquial, o Colégio, o Palácio da Justiça, o Palácio do Executivo, o Parlamento e as primeiras residências da nobreza do principado. Porém, a cacimba limpa dos arquitetos da natureza ficou na memória da cidade, apenas como uma lenda imaginária da serpente.

Escritor, poeta e colaborador do Bar de Ferreirinha

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