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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O Mecanismo

 
Imagem: Hansuan Fabregas/Pixabay


H. Romeu Illanba

A putaria financeira que entupiu o esgoto do Banco Master vai deixando claro e escuro que estava em funcionamento um verdadeiro Mecanismo, com acionistas instalados no mundo financeiro, no crime organizado e em gabinetes políticos cada vez mais apavorados de Brasília. Sem contar que instituições supostamente veneráveis como STF, TCU e CVM resolveram dançar miudinho um repertório estranhíssimo, com passos de omissão e intromissão para tentar manter a orquestra desafinada de Daniel Vorcaro no palco do circo de horrores.

Até aqui, são cerca de 1 milhão de brasileiros lesados pelos esquemas fraudulentos, e o processo segue infestado de excentricidades deixando no ar algo que parece proposital para, lá adiante, permitir que tudo seja anulado por falhas processuais que parecem deliberadamente provocadas à luz do dia por instituições oficiais que deveriam estar cuidando de garantir a punição dos envolvidos. Diz o ministro da Fazenda que estamos diante da “maior fraude bancária da história” sempre escandalosa de Pindorama, e mesmo assim essa movimentação excêntrica de algumas autoridades, que atrapalha o rito normal das investigações, segue seu curso como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Mesmo que a gente saiba que esta republiqueta de bananas vive sempre no fio da navalha, essa verdadeira suruba master foi muito além da imaginação de qualquer pansexual. No meio dessa festa do pijama com dinheiro alheio, a CVM saiu de fininho pela porta lateral. O TCU apareceu sem ser convidado, representado por um “ministro” sem qualquer relevância no cenário nacional e envolvido em emendas parlamentares que estão se mostrando um festival de irregularidades no seu destino, em Roraima. No topo da cadeia, o Supremo assumiu um confuso papel de segurança desse verdadeiro clube de cafajestes, surrupiando o inquérito das mãos da Polícia Federal para impor sigilos e procedimentos nunca vistos.

Um capítulo à parte é a atuação de dois togados, cujas digníssimas (uma delas agora é ex) estão na galeria de fotos históricas da assessoria jurídica do Banco Master. Por óbvio, ambas como peças de contratos milionários. Sem contar que dois irmãos do togado relator do inquérito no STF – cuja ex foi advogada do Master – venderam participação no resort Tayayá a um dos fundos emaranhados na fedentina do Banco Master. Ou seja, qualquer manual de ética grita ao ilustre ministro se declarar impedido diante desse tuiuiú no Tayayá.

E para não perder nosso jeitão de eterna piada pronta, a segunda fase da operação policial revelou que diversos fundos sumidouros de dinheiro utilizavam nomes de personagens da franquia Frozen (Disney). Estão lá nos registros do Banco Central Anna, Olaf... Ou seja, o clube de cafajestes supostamente utilizava esses fundos para movimentar dinheiro ilícito e tudo indica que buscaram intencionalmente esses nomes de personagens porque remetiam a “congelado”. Terminaram conseguindo o intento porque agora esses (e outros) fundos estão devidamente congelados pelo Bacen. Agora, quem quiser recuperar esse rico dinheirinho provavelmente sem origem vai ter que meter a bunda na janela. Quem haverá de? Esse tipo de doido tem juízo e costuma esperar que o escândalo seja abafado. Para o bem de todos. Os envolvidos.

Como obviamente se trata de um dinheirão de muitos donos escondidos, além de uma teia de benesses distribuídas a amigos influentes, talvez esteja aí a razão desse esforço descomunal de tanta gente “insuspeita” entrando em campo posando de dona da bola.

O togado relator, que que está indócil, havia decretado que tudo deveria ser encaminhado ao Supremo, mas teve um choque de realidade quando 23 veículos, 30 armas, 31 computadores, 39 celulares, R$ 645 mil em dinheiro e um bocado de relógios foram apreendidos. Não havia onde guardar essa montanha de provas na sede do tribunal.

Venha cá, será que um ministro do STF não conhece os ritos processuais? Claro que essa intromissão é prejudicial para as investigações e beneficia os acusados. E o mesmo Supremo vai ficar calado, não há mecanismos para acabar com esse vexame autoritário e monocrático, nem que seja mandando essa mixórdia para o Plenário? Afinal, já existe um clima de constrangimento entre os ministros da corte em razão da atuação completamente excêntrica do colega relator, cujo ponto principal de descontentamento é o esforço dele para limitar a ação da Polícia Federal no caso.

Esforço que passa por evitar o acesso primário dos policiais a informações vitais, como o conteúdo de celulares e computadores apreendidos. Escolher ele mesmo os peritos que vão atuar no caso, sem o menor esforço para disfarçar a intenção de controlar a investigação. Pedir novo cronograma para os depoimentos e reduzir o tempo para a PF ouvir investigados 

Entretanto, a primeira providência do Supremo foi tomada em silêncio: o ministro cuja mulher assinou contrato de R$ 129 milhões com o Master instaurou inquérito de ofício – quando não há provocação externa da PGR ou da PF –, com o objetivo de apurar na Receita Federal e no COAF os responsáveis pelo vazamento de informações do tal contrato milionário, bem como dos investimentos dos parentes do relator no Tayayá.

Por seu turno, o Senado anunciou, dentro da Comissão de Assuntos Econômicos, a criação de um grupo de trabalho que poderá acompanhar os desdobramentos do caso. Dentro da lógica que impera em Pindorama, a primeira reação lógica é saber de que lado esses caras vão jogar. Afinal, são políticos brasileiros em ação. E como a tal comissão não tem poder de CPI, parece muito mais uma turma de bisbilhoteiros que não deverá fazer diferença.

É impressionante como somos um povo banana da republiqueta! Há quantos anos a sociedade é sacaneada? Os menos animados dizem que é desde Cabral, e que até o Descobrimento é uma farsa de data e local. Não há como negar que vivemos nesse frege desde os tempos de Ilha de Vera Cruz, que viramos uma esculhambação constante. Basta pensar que uma geringonça de dimensões continentais foi tratada como ilha. Tudo bem, há quem diga que isso é piada de português, mas virou a terra de Macunaíma, o herói sem caráter.

Temos vocação seminal para esquemas fraudulentos e gente escorregadia. Basta abrir a página dos primeiros anos da colônia e já teremos um certo Bacharel de Cananeia mais enrolado do que língua de tamanduá, lá pelas bandas de São Vicente e Cananeia.

É... O momento do Cabaré Brasil é delicado, embora nossa republiqueta de bananas tenha doutorado em avançar por um poço que nunca tem fundo.

Como diz o meme de internet, “Menino, tu ainda vai ver coisa!”.

H. Romeu Illanba não é jornalista. É um obelisco.

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