H. Romeu Hilamba
Dois dias antes das Eleições de Meio de Mandato (Midterms), Donald Trump vociferou em Iowa: “Finjam que estou na cédula eleitoral, porque, essencialmente, eu estou na cédula”. Os americanos foram obedientes e responderam com uma derrota acachapante, avassaladora dos republicanos, varrendo o país com uma onda azul democrata poucas vezes vista, e que instalou na Casa Branca um pato manco. E mais: essa vitória democrata foi um triunfo pessoal de Barack Obama, que cruzou o país eletrizando o eleitorado como nos velhos tempos.
No dia seguinte, a capa da revista Time estampou a imagem histórica de Trump com a boca tapada por um adesivo onde se lê “I Voted” (eu votei) — há quem considere que, para o vaidosíssimo Donald Trump, este foi o golpe mais doloroso da derrota. Na Casa Branca, o novo pato manco convocou uma coletiva onde falou apenas das obras do salão de festas que mandou construir como parte do seu legado, do heliponto e da beleza do espelho d’água de Washington. Uma lorota destrambelhada para um povo americano sufocado pela crise econômica, que soou mais para demência do que esperteza, já que não dá para disfarçar o desastre eleitoral. Até porque, enquanto balbuciava essas bobagens, ele não conseguiu nada melhor para colocar diante das câmeras do que a cara de bunda.
Esse fracasso espetacular deve ser espetado na conta do próprio Trump e de mais ninguém. A figura personalista, que sofre de profunda psicose do espelho e tara por holofotes. Por isso é constrangedor ver alguns auxiliares querendo encontrar culpados e aquele rebanho imbecilizado espalhando loucamente teorias da conspiração que beiram o ridículo. Basta dar ouvidos à voz rouca das ruas, como fez a CNN, apurando que a maioria dos americanos “se opõe à ‘guerra’ de Trump, à sua política econômica, às suas medidas rigorosas de imigração e à sua liderança”. Simples assim, o óbvio não tem mistério.
Trump atirou no próprio pé ao ferir de morte um dos principais valores da sociedade americana, conhecida pelo seu consumismo: ter dinheiro para comprar desenfreadamente. O resultado veio a cavalo e deixou pegadas em várias regiões do país, que hoje está horrorizado com a quantidade de cidadãos vivendo em barracas pelas ruas ou nos seus carros, porque não têm dinheiro para pagar moradia. E foi esse desencanto da sociedade que gritou nas urnas e calou o boquirroto incurável e cansativo.
Nunca foi tão atual a famosa frase “É a economia, estúpido!”, de James Carville, estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton. Virou jargão político global ao compreender que o eleitor trocou debates ideológicos e política externa por questões do próprio bolso — inflação, custo de vida, perda do poder de compra, endividamento familiar e recessão — na hora de decidir o voto. Ou seja, cada vez mais a economia cotidiana substitui os índices econômicos oficiais e afeta o destino de governos e candidatos.
O Texas, reduto raiz dos conservadores e do Partido Republicano, é um retrato do tsunami que moldou a derrota e a rejeição a Trump. O senador eleito James Talarico quebrou uma hegemonia de quase 40 anos dos republicanos no Estado, despachando o procurador-geral do estado (desde 2015) Ken Paxton. A latina Gina Hinojosa, nova governadora, ejetou da cadeira Greg Abbott, um dos pilares do Partido Republicano, que disputava seu 4º mandato.
E, por um bom motivo interesseiro, foi exatamente no Texas que Elon Musk despejou US$ 224 milhões (R$ 1,2 bilhão) nas campanhas derrotadas. É naquele estado que ele tem atividades importantes e está montando um parque empresarial descomunal para abrigar suas principais operações — ao todo, o bilionário gastou US$ 474 milhões (R$ 2,6 bilhões) nestas Midterms, tentando comprar aliados no Congresso.
Mais recados poderosos vieram de outros estados. Na Geórgia — terra de Martin Luther King Jr. —, a governadora eleita Keisha Bottoms retomou o poder para os democratas, que estava com os republicanos desde 1998. Como se fosse pouco, é a primeira negra eleita governadora nos EUA, um soco sufocante no racismo de Trump. E ainda tem algo para se pensar: ela venceu Rick Jackson, o magnata do ramo da saúde que gastou US$ 100 milhões (R$ 549 milhões) do próprio bolso na campanha.
No discurso de campanha, Bottoms “defendeu a ampliação do Medicaid, programa público de assistência à saúde — financiado pelos governos federal e estaduais —, que oferece cobertura médica a pessoas de baixa renda”. Já no Novo México, Deb Haaland se elegeu a primeira mulher indígena a governar um estado americano. Some-se a esses sinais a mobilização do eleitorado hispânico, que passou os últimos anos sendo assombrado por discriminação, discursos hostis, arbitrariedades e ações desumanas da política de imigração.
No Michigan, estado que faz fronteira com o Canadá e, em razão das parcerias comerciais com o país vizinho, sofreu diretamente o efeito da estúpida guerra de tarifas de Trump, o desastre não foi menor: após 32 anos de controle republicano, elegeu para uma das cadeiras de grande importância para o controle do Senado o médico democrata Abdul El-Sayed, o primeiro senador muçulmano da história americana.
Sem nenhuma surpresa, depois da derrota Trump assumiu imediatamente o papel de “Sr. Veto” (com um daqueles bonés idiotas e tudo). Vestiu-se para cambalear até o fim do mandato atrapalhando a vida do país, mostrando que maus perdedores rastejam em qualquer lugar, até na Casa Branca.
Doravante, inimigos e aliados internacionais a quem ele distribuiu ameaças, coices e ofensas, certamente o enxergarão como um derrotado que começa a derreter no caminho até o fim da linha. O líder que, movido por presunção, deselegância e estupidez foi capaz de torrar um capital político impressionante mesmo sentado na cadeira mais poderosa do mundo.
A humilhação emanada das urnas parece conter uma mensagem de que os americanos se cansaram de um projeto político e de um bando de amadores que resolveram afrontar, de forma inédita, os valores basilares da sua preciosa democracia. A onda azul deixa claro que o país pretende sobreviver livre dessa gente.
Sobrevivência, por sinal, é uma palavra que acabou de ser incorporada à linguagem cotidiana do gabinete presidencial e adjacências. Já se espalha pelo ar a expectativa de que o novo Congresso de maioria democrata transformará em tormento a vida de Trump e sua corriola. É provável que, em pouco tempo, a ilusão de que o país deveria lhe agradecer pela “era de ouro”, que só existe na sua ilha da fantasia, vire abóbora recheada com uma robusta e implacável cadeia de investigações sobre diversos pontos — conflito com o Irã, operação na Venezuela, corrupção nas ações do governo, negócios/enriquecimento da família presidencial e escândalos sexuais até aqui blindados.
Talvez reste um último pesadelo assombrando Mar-a-Lago: não vai ser tão fácil simplesmente pegar o boné e sumir. Ainda mais para alguém que desqualificou e afrontou profissionais da inteligência no início do mandato. Há muita água para rolar debaixo dessas pontes. E nem precisa ser espião, basta ficar espiando.
H. Romeu Hilamba não é jornalista. É um obelisco.

Isso é uma análise!
ResponderExcluirEssa resposta do povo americano sempre a esperada após tamanho volume de impropérios e atitudes erráticas do líder da nação. Quem conhece o que sensível ao eleitor sabe que participacao em guerras sem sentido, conflitos com paises vizinhos historicamente amigos por motivos fúteis e, principalmente, crise economica (inflacao onde ela raramente acontece) recebe respostas implacaveis nas urnas.
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