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domingo, 8 de outubro de 2017

O rádio

Ciduca Barros

Costumo dizer aos amigos que eu, talvez por ter sido um garoto do interior numa época bem antes da televisão, nunca abandonei o meu aparelho de rádio. 
Tenho sempre um na cabeceira da cama e, muitas vezes, ele permanece ligado durante a noite (sob protestos do meu cônjuge). 
E tem mais: eu escuto também emissoras de rádio na faixa AM (em português: Modulação em Amplitude).  
Antigamente (década de 1950, por exemplo), possuir um aparelho de rádio era um grande desejo de consumo, concretizado por poucos no nosso Seridó.  
Apesar das dificuldades, um conterrâneo conseguiu comprar o seu, a prestações, é claro. 
Era um da marca “Zenith”, de cinco válvulas, quatro faixas de ondas, caixa de baquelita, com um dial grande de plástico. 
Em resumo: era o mais moderno daquele tempo. É desnecessário dizer que o homem tinha o maior ciúme daquela preciosidade. 
Pediu à esposa que costurasse uma capa para o bichinho (coisa de pobre?), que durante o dia (energia, só à noite) ficava convenientemente coberto e resguardado da poeira.  
Devidamente instalado em cima de uma cristaleira (qual casa que, naquele tempo, não tinha uma?), o ponto mais alto da casa, para evitar que seus filhos mexessem. 
Mas surgiu um problema: quando ele foi “curtir” o rádio, com o volume do som também alto, sua mulher, que tomava a fresca do final da tarde na calçada com as comadres, não gostou e gritou donde estava: 
– Baixe esse rádio para não incomodar os vizinhos, homem! 
Ele, calmamente, “baixou” o rádio de cima da cristaleira para cima da mesa de jantar. 
– O rádio continua alto, homem! A vizinhança não vai gostar. 
Baixou mais uma vez o aparelho, tirando-o de cima da mesa e colocando-o num assento duma cadeira.  
– O rádio continua alto, homem! Baixe isso! 
E mais uma vez ele baixou. Tirou da cadeira e colocou o rádio no chão, mas, mesmo assim, ouviu outra reclamação: 
– Ou você baixa esse rádio de uma vez por todas, ou eu mesma vou sair daqui e vou baixar! 
Não sabendo como baixar mais, ele gritou de volta: 
– Mulher! A porra deste rádio só vai baixar mais se eu cavar um buraco e enterrar ele! 

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