Carlos Drummond de Andrade
Ainda há casamentos secretos, como no tempo de Cimarosa.
Mas sem música. A vantagem deste tipo de união é que,
permanecendo oculto, não sofre o desgaste da vida social e
conserva o toque de mistério e poesia que frequentemente
falta aos casamentos comuns.
Jurandir sentiu-se tão bem em seu matrimônio secreto
com a filha de um banqueiro (cada um vivia na sua casa,
e encontravam-se em ambiente secretíssimo) que
nem se sentia casado. Esquecendo-se do vínculo, ele
prevaricava sem maldade. O mesmo acontecia com Andreia.
Até que os dois se viram cara a cara num motel, a que
haviam acorrido em consequência de anúncios classificados,
dele e dela, em busca de fantasia.
Jurandir e Andreia fitaram-se por um momento, como se
não se conhecessem. Afinal se lembraram.
— Mas eu sou casado com você, querida. Não podemos
ter uma aventura juntos.
— É mesmo, amor. Também sou casada com você.
É totalmente impossível nos desligarmos desta verdade.
— Quem sabe?… — ponderou Jurandir. — A gente pode
se esquecer, como habitualmente.
— Então tá — e naquela tarde viveram a situação nova.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

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