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| Foto: Nelder Medeiros |
Heraldo Palmeira
Você vai à Festa de Agosto? Eita pergunta boa de responder quando a resposta é SIM!
Eu não conheço momento maior na vida de um acariense legítimo, como eu, do que a Festa de Nossa Senhora da Guia, nossa adorada padroeira. Afinal, é o tempo da gente, da nossa origem, da nossa história, das melhores lembranças, do reencontro com a cidade onde nascemos, com as famílias, com os amigos. Tradição que vamos passando de geração em geração.
A Festa de Agosto é a minha primeira agenda de cada ano que começa. Já me programo. É o maior presente que me dou. Em qualquer lugar do mundo em que eu estiver, não tem conversa: chispo para Acari. Chego antes de começar e vou embora depois que termina. É minha lei!
Por isso, sou testemunha ocular do crescimento da Festa nos últimos anos. Sim, temos hoje uma das maiores e melhores festas populares do Estado, e digo isso sem nenhum favor. Portanto, antes de qualquer coisa, merecemos nos orgulhar do que construímos juntos ao longo do tempo.
A parte religiosa é uma das mais sublimes e ricas sob o ponto de vista litúrgico, resultado do zelo dos nossos padres queridos Estanislau, Ambrósio, Ernesto, Jalmir, Deoclides, Cortez, Raimundo, Flávio, Stanley, Henock, Costa, Fabiano, que habitam nossa memória mais recente e cujos sacerdócios honram a luta do patriarca Tomás de Araújo em nos legar esse Acari que estufa nosso peito.
Impossível não lembrar dos leigos devotados, a começar pelos ilustres ministros da eucaristia, e passar também por Geraldo, Terezinha, Ivanilde (Cuncum), Patrício, Antônio Eduardo, Onessino, Amália, Pinta, Margarida, Mariquinha, Zefinha, Zé Lopes, Miúdo, Coquinho, Vânia, Edna, nomes registrados na história da Festa.
Impossível não se emocionar com a Banda de Música, o Coral e as novenas tradicionalíssimas, que formam um espetáculo raro de se ver.
Na parte social, o nosso Pavilhão tornou-se protagonista e ponto de atração de milhares de pessoas. Um lugar de muitas virtudes e que, pela dimensão que adquiriu, já precisa de alguns ajustes. Algo normal em tudo que cresce muito.
Na Festa de Agosto do ano passado, recebemos a honrosa visita da SESI Big Band e do sanfoneiro Waldonys. Dois shows muito elogiados pela qualidade artística e que não agrediram a audição das pessoas. A paz dos nossos ouvidos não foi coincidência, houve um motivo técnico para isso.
Naquele dia, desde o momento da passagem de som até o fim do show, esteve no comando da mesa o engenheiro de som Eduardo Pinheiro, um dos melhores que conheço, meu amigo de longa data e com quem tive a honra de trabalhar em diversas ocasiões, inclusive nos DVDs que produzi sobre a nossa Banda de Música e a Festa de Agosto, ambos com a honrosa parceria pessoal de Vânia Bezerra e do Camarões.
Eduardo é também o engenheiro de som da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte e do projeto SESI Big Band. Além disso, costumeiramente comanda o som do Teatro Riachuelo, em Natal, e de diversos shows de grandes artistas pelo país inteiro.
Há quase 15 anos eu venho, sem sucesso, reclamando que o som do Pavilhão é alto demais, é alto demais, é alto demais. E estou falando de um assunto que conheço, trabalho nesse negócio há mais de 40 anos, nos melhores estúdios e com os melhores músicos do país. Também atuei em grandes eventos, em diversos pontos do Brasil.
Onde está o centro desse problema? Na sensibilidade (ou falta dela) dos operadores de som, um problema que existe no país inteiro. Sim, é isso mesmo: é preciso que alguém determine aos operadores de som do Pavilhão os parâmetros que a comunidade deseja. Em qualquer lugar do mundo, o contratante é quem manda. Ponto final.
E para nos livrar daquele incômodo das passagens de som infindáveis, que começam já no meio da tarde, basta que esses operadores utilizem recursos técnicos muito simples, que qualquer bom profissional da área conhece – e que foram utilizados por Eduardo naquela noite especial da Festa do ano passado.
Certa feita, Chico de Onessino foi delicadamente pedir ao operador de som para diminuir as frequências graves, que fazem tudo vibrar dentro das casas. O operador, com toda “sapiência”, respondeu que aquilo era efeito do vento que encanava no Pavilhão. Essa, nem Nossa Senhora da Guia resolve!
Além do problema do som alto demais, que nos obriga a conversar aos gritos, o crescimento da parte social da Festa foi criando uma série de problemas no Pavilhão, que vêm se agravando a cada ano, todos eles relacionados à convivência em sociedade, educação e boas maneiras.
Vamos nos colocar no lugar dos moradores da rua Otávio Lamartine, que têm dificuldade de entrar e sair de casa ou de receber amigos e familiares nas portas de suas casas. Se isso fosse pouco, muitas vezes chegam a ser hostilizados por estranhos que estão ocupando o espaço da balaustrada.
Claro, estamos falando de um ambiente público, mas a situação chegou ao limite porque muita gente que não mora naquelas casas resolveu tratar o espaço como um “camarote” do Pavilhão, o que, definitivamente, não é. A balaustrada é apenas uma calçada, que serve de passagem a transeuntes e lugar de convivência e acesso às famílias residentes e seus amigos.
É preciso pensar que, em alguns dias, a multidão é enorme e que as calçadas precisam estar disponíveis como rota de fuga, caso surja alguma emergência. E não falo apenas da balaustrada, falo também das calçadas dos dois lados da rua, que agora são ocupadas por grupos que colocam suas caixas de cerveja no chão e impedem o fluxo das pessoas.
Falo dos becos que terminam transformados em banheiros, gerando imundície na via pública e desrespeito com quem vai passando ou está nos arredores.
Por que realizar dois shows todas as noites? Por que não apenas um show de domingo a quinta-feira, das 21h30 à meia-noite? Alguém me respondeu: “Porque os jovens vão reclamar”. Quem são esses jovens e por que eles têm primazia sobre o resto da população?
Por que, nestes 15 anos que reclamo do som alto demais e de outros problemas do Pavilhão, o resto da população tem de ficar submetido a shows ruins, de bandas que tocam mal e naquele padrão sonoro horroroso? Só porque isso agrada a esses jovens, que costumam levar comida e bebida de casa e pouco consomem dos produtos e serviços comercializados no Pavilhão?
Vamos para a matemática simples: se em 10 dias de festa temos 20 bandas ruins, não seria melhor investir o mesmo dinheiro em 10 bandas razoáveis, uma por noite? Já pode ser um bom começo, inclusive para a educação musical e cultural dos nossos jovens. Tecnicamente, isso se chama formação de plateia. Com dois ou três anos, o nível terá melhorado muito e todos sairão ganhando.
Que tal pegar o mesmo dinheiro e fazer shows apenas de quinta a sábado, trazendo boas atrações nos finais de semana? Afinal, de domingo a quarta, permanece na cidade um público bem menor, que estaria satisfeito com um bom som ambiente no Pavilhão e a oportunidade de reencontrar os amigos para uma boa prosa. E muito provavelmente muita gente que já não frequenta o local estaria de volta.
É preciso respeitar e compreender que Edna, Toinho, Félix, Chico, Hilda, Zita, Ubaldo e tantos outros moradores se sintam incomodados e prejudicados. Não são eles, mas a cidade que reclama hoje uma solução justa e conciliatória para todos os interesses que cercam o Pavilhão.
Algumas pessoas, sempre interessadas na discórdia, correram para espalhar que os moradores desejam tirar o Pavilhão da rua Otávio Lamartine. Pois bem, tive o cuidado de conversar com alguns deles. Além disso, vimos a ótima matéria de Nelder Medeiros, onde a mesma coisa ficou claríssima: ninguém quer mudar o local coisa nenhuma!
O que todos desejam é encontrar solução para os muitos problemas que estão instalados e se agravam há muitos anos no Pavilhão. Por isso, a audiência pública marcada para o dia 11 de junho é uma ótima oportunidade para que todos possam opinar e ajudar a Prefeitura Municipal a tomar as melhores providências possíveis.
Algumas vozes da discórdia também insistem que isso é uma questão política. Vamos ser justos: esse problema vem se formando há muitos anos e passa por diversas administrações municipais. Todos os prefeitos colaboraram para termos hoje uma Festa que se tornou grandiosa.
Acari precisa se livrar dessa infeliz divisão política, onde tudo tem de ser bacurau ou bicudo. Até quando seguiremos nessa bobagem que só atrapalha nossa cidade? Não precisa ir longe, basta ver o que a divisão esquerda-direita fez com o Brasil, nos colocando nesse atoleiro que parece não ter fim.
Eu prefiro lembrar sempre que em Acari somos todos Araújo, Bezerra, Cananéa, Galvão, Medeiros, Pereira, no fundo uma só grande família. E enquanto seguirmos divididos, vamos sofrer o enfraquecimento da nossa cidade.
Portanto, todos nós temos obrigação de contribuir com os ajustes necessários no Pavilhão. Agosto está bem aí e tenho certeza que estaremos, mais uma vez, festejando nossa padroeira como bem diz Gata: “A festa de Nossa Senhora da Guia é a melhor festa do mundo! E me dê licença”.
São Paulo (SP), 2 junho de 2019
Heraldo Palmeira é escritor, documentarista, produtor cultural e colaborador do Bar de Ferreirinha


Muito bom. Vou tomar a liberdade de encaminhar esse texto aos meus familiares.
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