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terça-feira, 7 de janeiro de 2020
Dois poeminhas do grande Millôr Fernandes
POEMINHA SOBRE O TRABALHO
Chego sempre à hora certa,
contam comigo, não falho,
pois adoro o meu emprego:
o que detesto é o trabalho.
contam comigo, não falho,
pois adoro o meu emprego:
o que detesto é o trabalho.
POEMINHA DE HOMENAGEM À PREGUIÇA UNIVERSAL
Que nada é impossível
não é verdade;
todo mundo faz nada
com facilidade.
não é verdade;
todo mundo faz nada
com facilidade.
Dia após noite
Anderson Braga Horta
Vendo o azul, que dilúculos augura,
da madrugada, e a mágoa do sol-posto,
quedo-me triste, e penso, com desgosto:
O mesmo céu que é berço é sepultura.
da madrugada, e a mágoa do sol-posto,
quedo-me triste, e penso, com desgosto:
O mesmo céu que é berço é sepultura.
Assim também, um dia, no teu rosto,
nos teus olhos de cálida brandura,
vi tua alma a acenar-me, inda mais pura
sob o véu do cabelo descomposto.
nos teus olhos de cálida brandura,
vi tua alma a acenar-me, inda mais pura
sob o véu do cabelo descomposto.
Como a noite, porém, sucede a aurora,
tu me fugiste, e a luz, que me envolvia,
nas trevas se tornou em que ando agora.
tu me fugiste, e a luz, que me envolvia,
nas trevas se tornou em que ando agora.
Retorna entanto o sol, que antes morria.
E a minha alma, por isto, já não chora,
mas espera o raiar de um novo dia.
E a minha alma, por isto, já não chora,
mas espera o raiar de um novo dia.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
VERÃO 2020 - Muído grande em Pirangi
É verão!
Milhares de pessoas se mudaram para as praias do Rio Grande do Norte, as mais bonitas do Brasil.
Pirangi foi a que Deus escolheu pra descansar no sétimo dia da criação.
E lá, na busca por espaço pra se acomodar e beber uma gelada petiscando frutos do mar, o veranista às vezes provoca uma confusão.
Como a que a imagem acima retrata: o cara da barraca 38 surrupiou uma cadeira da barraca 39, e a zoação foi grande.
Deu o maior muído, mas depois os ânimos de acalmaram.
Afinal, a paisagem em Pirangi é deslumbrante!
Só pensa naquilo...
Na primeira visita médica depois que o paciente recebeu alta da UTI, seguiu-se o seguinte diálogo entre o paciente e o médico:
- Desde que acordei da anestesia com o coração transplantado, só penso em fazer sexo, ganhar dinheiro e fazer mais sexo. É incontrolável! Será que rejuvenesci, doutor?
- Não. O senhor continua idoso. É que o seu novo coração pertencia a uma prostituta...
domingo, 5 de janeiro de 2020
Uma namorada de peso
Ciduca Barros
Todos sabemos que o sucesso de nossa vida depende das escolhas que fizemos no passado. Aquele seridoense também sabe disso e, infelizmente, não pode mais mudar o seu destino. Em consequência de decisões erradas no passado, hoje está sozinho e financeiramente arrasado. A única coisa que não mudou em sua vida foi o seu bom humor.
O homem continua bem-humorado, entrando em frias e rindo das suas enrascadas. Leiam mais esta daquele cidadão.
Sem mulher em sua vida, certo dia resolveu marcar presença num bailão da Associação das Viúvas, lá de sua cidade, onde conheceu uma presumível “mulher da sua vida”. Dançaram, conversaram, voltaram a dançar e continuaram a conversa.
Ela caiu na sua cantada e aceitou o seu convite para dormir com ele, lá no seu cafofo. Na hora da saída do bailão, ele pediu duas mototáxis. Daí surgiu o primeiro impasse: três mototaxistas se recusaram a levar a mulher e um deles ainda disse:
– Essa mulher vai acabar com os amortecedores de minha moto!
A “criança” tinha 3 dígitos de peso. Depois de muitos diálogos e senões, um mototaxista resolveu levar a pesada encomenda, exigindo uma taxa extra.
Na porta do seu reduto, surgiu o segundo impasse. A mulher, antes de entrar, botou as mãos nas cadeiras e desfechou:
– Olhe aqui! Se não for pra dar duas trepadas, eu não tiro nem a calcinha!
Nosso personagem sentiu a agressividade da proposta, mas conhecendo a sua potencialidade, desfechou de volta:
– Pois então não bote nem a mão no elástico!
Apesar da rispidez do diálogo inicial, eles se entenderam e finalmente “dormiram” juntos. Ele na cama e ela numa rede.
Segundo o próprio, no dia seguinte, ao acordar, não encontrou nem a gordinha nem a sua velha e desbotada rede.
Escritor e colaborador do Bar de Ferreirinha
sexta-feira, 3 de janeiro de 2020
Inevitável
Isabel Machado
Inevitável foi o toque
a procura
a consumação da loucura
a transformar nós dois
em um.
Nada foi comum
Tudo foi vital
anormal...
dentro da normalidade contida
no ato.
Inevitável foi o tato
e meus seios foram teus
... tudo... o corpo todo
sentiu-te em gula
nas entranhas
nas loucas manhas
da manhã-festim...
Inevitável
tatear-me em falso
pra sentir-te pleno
em mim...
a procura
a consumação da loucura
a transformar nós dois
em um.
Nada foi comum
Tudo foi vital
anormal...
dentro da normalidade contida
no ato.
Inevitável foi o tato
e meus seios foram teus
... tudo... o corpo todo
sentiu-te em gula
nas entranhas
nas loucas manhas
da manhã-festim...
Inevitável
tatear-me em falso
pra sentir-te pleno
em mim...
quarta-feira, 1 de janeiro de 2020
Diarreias mentais - CLXXX
Aposentadoria por invalidez
Recentemente, o Governo Federal dificultou o acesso à aposentadoria para todos os trabalhadores brasileiros o que, logicamente, tornou esta historieta ainda mais distante da realidade atual.
Antigamente, vimos trabalhadores brasileiros, ainda jovens e com pouco tempo de contribuição, darem aquela “enrolada” no INSS (naquela época, INPS) e conseguirem suas aposentadorias por invalidez.
Todos nós conhecemos pessoas que se aposentaram, por invalidez, sob a alegação de delicados problemas de saúde, e continuaram lépidos e fagueiros pela vida afora.
Como eles conseguiram, não sabemos. Posteriormente, a previdência oficial, acertadamente, fechou aquela porta de irregularidades.
Esta historieta, cujo personagem é nosso conterrâneo lá do Seridó, aconteceu enquanto aquela porta ainda estava aberta.
Alberto tinha menos de 30 anos de idade.
Certa feita, sofreu um acidente automobilístico, coisa de pequena monta, e aproveitou o ensejo para urdir uma aposentadoria por invalidez.
Sob a alegação de que estava com uma séria e dolorosa lesão na coluna vertebral, inicialmente, conseguiu ficar usufruindo de licença-saúde da previdência e, naturalmente, afastado do trabalho.
Durante esse tempo, ele era visto nos lugares mais improváveis para quem estaria com uma lesão tão delicada: boates (as baladas de hoje), rodas de samba, peladas de futebol, barzinhos, etc.
Por várias vezes, chegava a época de nova perícia médica para avaliação da sua licença e, inexplicavelmente, ele conseguia novo período de ócio e lazer.
– Eu ainda vou me aposentar alegando este problema – jactava-se Alberto.
E a vida do nosso amigo-enrolão continuou, meses e meses, de pândega em pândega, até o dia de mais uma perícia médica.
Como nas ocasiões anteriores, ele chegou ao INPS, dramaticamente, torto.
Lembram-se daquele gato na garrafa da Zinebra? Ele sempre entrava ali daquele jeito, fazendo três rastros.
Quando adentrava na sala do médico-perito ficava mais torto ainda, como Quasímodo, personagem do livro “O Corcunda de Notre-Dame”, de Victor Hugo.
Como eu relatava, naquele dia, aquela figura, misto de gato da Zinebra com Quasímodo, entrou na sala do médico, vagarosamente, pisando no chão com uma cautela excessiva e com uma cara de quem estava sentindo muita dor. Em “câmara lenta”, sentou-se defronte ao birô do perito.
O médico, com a sua longa ficha médica na mão, o encarou e indagou:
– E então? Como está o seu problema na coluna?
O conterrâneo fez um longo e enfadonho discurso sobre o seu grave problema de saúde: que estava cada dia pior, com dores horríveis.
Alegou que dormia muito mal. Informou que, como o doutor havia presenciado, ele mal conseguia andar. E disse que, tinha certeza, que aquele mal ainda o levaria a uma triste aposentadoria e blá, blá, blá.
O médico, de mão no queixo, silenciosamente, apenas escutava aquele lúgubre histórico.
Depois de ouvir muita lamúria, o médico perguntou:
– Terminou?
Então veio a bomba que o enrolão não esperava:
– Você não seria um sujeito que pratica ginástica de alto impacto lá na Academia Brutamontes?
E a máscara do nosso aleijadinho caiu por terra. Ele vinha de há muito fazendo exercícios físicos (queria se aposentar, por invalidez e em forma) numa conhecida academia da cidade.
Ali, ele fazia os exercícios com tanto esmero e tanta perfeição, que o instrutor o punha sempre em frente da turma como protótipo. Não sabia ele que, o perito-médico, era um daqueles que ficavam lá atrás, humildemente, ouvindo o instrutor gritar:
– Espelhem-se em Alberto!
Naquele dia sua armação foi desmascarada. Foi-se o seu sonho de uma aposentadoria por invalidez. Ele saiu do INPS puto da vida, mas, andando normalmente.
Milagrosamente, estava curado!
Ciduca Barros é escritor e colaborador do Bar de Ferreirinha
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