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sábado, 9 de outubro de 2021

Sujeito e predicado


Heraldo Palmeira

Lá se vão muitos anos que o mês de agosto é ponto obrigatório na minha vida. Há uma missão que me honra: ser voluntário em múltiplas funções na festa da padroeira da minha cidade. Algum talento especial? Óbvio que não, sou eu apenas tentando ser útil, nada além de uma pequena quantidade de coisas que cada um pode fazer para ajudar, como é nosso costume.

Até deixei passar um tempinho para fazer um agradecimento especial neste 2021. Não foi falta de polidez, senti necessidade de entender o significado de tamanha distinção. Ora, a Câmara Municipal da minha terra me condecorou com uma “Moção de Congratulação pela valorosa contribuição dada, por mais um ano consecutivo, à Festa de Nossa Senhora da Guia em nosso amado Acari”.

Algo que me deixou ainda mais feliz, a moção foi igualmente conferida a diversas pessoas: os padres Emanuel Medeiros e Flávio Medeiros, e a nós leigos Adriano Campelo, Canindé Medeiros, Heraldo Palmeira, Igor Barbosa, José Edson e Vicente Cassiano.

Uma declaração clara, com chancela oficial de um dos poderes municipais, de que a nossa Festa de Agosto é construída por muitos. E ela é grande exatamente por isso. A festa é o que é porque a comunidade tem muito evidente que a única protagonista é nossa Mãe Da Guia. Todo mundo ajuda como pode sem qualquer dúvida a respeito de quem é a estrela da companhia – por sinal, Ela carrega a estrela-guia na mão direita.

Sempre me encantou perceber que, obviamente sob o comando dos padres e da paróquia, é um festejo sem falsos protagonismos em que vamos nos juntando em diversas frentes num enorme sentido de pertencentes, algo bom demais e difícil de explicar. Simplesmente sabemos o que deve ser feito e fazemos.

Numa boca de noite da última festa encontrei um grupo de pessoas queridas aboletadas naquelas cadeiras de ferro e fios plásticos na calçada. Sentei-me numa delas, tinha mais o luxo de ser de balanço!

Não havia a menor chance de perder aquele dedo de prosa animado, com um lanche repleto de delícias caseiras ali quase no meio da rua, mesa posta com fartura. Retrato insuperável dos nossos costumes, do nosso jeito de ser sertanejo, da nossa maneira de achar a vida boa.

Alguns petiscos adiante – cafezinho esplendoroso, pães, tapiocas, queijos, bolos, biscoitos, bolachas, manteiga da terra, leite da fazenda... – alguém inseriu a praga do protagonismo na conversa. Falamos sobre a efemeridade e de como ela castiga quem deseja ser o centro da cena a qualquer custo. Lembramos de alguns casos – artes, futebol, política, arredores...

No nosso arraial não é complicado entender que Nossa Senhora da Guia é o sujeito da oração acariense e todos nós, sem qualquer virtude especial, somos as pequenas peças que se juntam para formar o predicado. Tentar ser predicativo levará, no máximo, ao que vai sobrar como trecho rasurado no rascunho. Afinal, quem poderá acrescentar uma qualidade ao sujeito divino que mora no altar da nossa oração de todos os agostos?

No finzinho da prosa, alguém passou a régua: “É triste ver pessoas que se movem pela vaidade tentando se autoconceder a notoriedade que só existe na própria cabeça tola”.

Nos despedimos, era hora de seguir para a nona e última noite do novenário. É sempre a noite ainda mais especial de 14 de agosto em que recebo da paróquia a cada ano uma tarefa que foge à compreensão e me deixa sem palavras: participar da descida da imagem da nossa Mãe padroeira do altar para o andor que sairá na grande procissão de encerramento da festa no dia seguinte.

Uma tarefa que, desde o primeiro ano da sua instituição, os Dedés de Milton (Joamilton e Joanilton Galvão) lá no alto, Canindé Medeiros e Aprígio Júnior no meio, Vicente Cassiano e eu cá no chão realizamos com nossos corações em festa.

Fico pensando o óbvio: quem de nós se atreveria a protagonismos naqueles minutos esplendorosos em que nos conectamos ao divino pela nossa fé e recebemos do Alto tamanha graça? Por isso mesmo, nos vestimos em roupas iguais e neutras (apenas nas cores branca e preta) e cuidamos para cada dupla ter a mesma altura, de modo a evitar desequilíbrios para a imagem durante o pequeno traslado.

Também estavam ali, cumprindo seus papéis, Adriano Campelo cantando lá no mezanino do Coral Amália Rodrigues, Igor Barbosa na equipe de coroinhas e José Edson (Edinho) comandando a sacristia – depois que a matriz foi elevada à dignidade de basílica, passei a tratá-lo por “arquissacristão”. Como deixar passar uma chance dessa para tirar onda com o amigo?

E no comando da cerimônia criada em 2015 pelo então pároco Fabiano Dantas, que tanto encanta os fiéis, estavam os padres Emanuel Medeiros e Flávio Medeiros. A eles cabia a honra de apor os ornamentos da imagem da padroeira quando a instalamos no andor, bem como trocar as vestes do Menino Jesus que ela tem no braço – a cada ano nos deslumbramos com as vestes sempre confeccionadas por pessoas da comunidade.

O que pode ser mais cristalino a respeito da construção coletiva da nossa Festa de Agosto do que constatar que todos nós, os agraciados com a Moção de Congratulação da Câmara Municipal, estávamos em ação numa mesma cerimônia? Esse é o grande sentido do que fazemos, a comunhão de esforços para louvar nossa padroeira e manter vivas as nossas melhores tradições, que aprendemos dos mais velhos e estamos ensinando aos mais novos para que se perpetuem pelo tempo vindouro.

Depois da novena, noite já mais alta, hora de estar junto da banda de música e outros artistas, ajudar no cerimonial do Pavilhão Virtual, uma grande ação cultural da prefeitura. Meu papel? Nada além de conversar a respeito da arte que fazemos em nossa terra, falar das músicas do repertório, mediar e usufruir do prazer do encontro de quem está na cidade com quem morre de saudade vendo a festa pelas redes sociais.

E no pavilhão lá estavam, todas as noites, diversos personagens fundamentais que se repetem em diversas cerimônias dos festejos religiosos e sociais. Somos os mesmos, voluntários de todos os anos, orgulhosos da nossa origem, prontos antes mesmo de qualquer chamado.

Em resposta aos vereadores que me incluíram na lista das moções deste ano, apresento minha gratidão e o meu orgulho por tamanha distinção. Faço questão de reproduzir aqui uma parte final do documento: “O reconhecimento desta Casa Legislativa se faz presente nesta singela moção”. Adorei o tom delicado e coloquial do texto, exatamente a língua que falamos. Sem os pedantismos que encantam os falsos protagonistas.

Para finalizar, encho o peito com o nosso prefixo em homenagem a todos: viva Nossa Senhora da Guia!

Heraldo Palmeira, setembro de 2021

3 comentários:

  1. Simples e preciso. Melhor, precioso. Relato fiel de uma devoção nata do povo seridoense. Fez-me lembrar de meu pai José Nilson Barros e sua devoção a Sra. Santana em CAICÓ. Parabéns !

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    1. Obrigado, João. Essa devoção é um orgulho para todos nós seridoenses, sempre caminhando sob a proteção dos nossos santos padroeiros e da nossa fé que vem de longe, dos nossos antepassados.

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  2. Mestre Rose,
    Você é um grande estudioso e praticante das nossas "sertanejices"; sabe, portanto, que o importante é a gente poder fazer parte em qualquer papel. E ainda ter direito a uma homenagem desse tamanho, não tem tamanho. Obrigado!

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