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| Lima Duarte (esquerda) e Flávio Migliaccio: gigantes do teatro |
Heraldo Palmeira
Num mesmo dia, fomos feridos de morte pelas mortes de Aldir Blanc e Flávio Migliaccio. A pandemia do coronavírus, por alguns instantes, pareceu repertório distante. Pelo menos para a gente que entendia o tamanho daquelas perdas, para quem tinha um mínimo de compreensão do sentido real das coisas nesta Terra Brasilis que pouco passou de Pindorama.
Um amigo querido, cuja amizade nos afaga desde 1983, homem de grandes lutas políticas – com quem nem sempre comungo as ideias e posições, mas me é imprescindível como referência humana – enviou-me pelas redes sociais, obviamente emocionado, um vídeo em que o universal Lima Duarte mandava uma mensagem àquela altura já metafísica ao também extraordinário Flávio Migliaccio.
E meu amigo, sempre muito falante, foi econômico: “Apenas assista”. E lá fui eu reencontrar um Lima Duarte altivo, intenso.
“Eu te entendo, Migliaccio! Eu te entendo porque, eu, como você somos do Teatro de Arena”, começa o grande ator, um dos nossos maiorais da arte da interpretação. Ali, uma lenda viva, do alto impecável dos próprios noventa anos, é apenas um grande brasileiro em cena contando uma história indispensável da nossa própria história.
E esse Teatro de Arena, dito em maiúsculas, apenas revela a grandeza do caráter e da fala de Lima Duarte. Porque ele poderia, sem nenhum favor, ter referido ao teatro de arena em minúsculas, modelo universal para encenações, tesouro da História da humanidade. Suporte cênico obviamente superior em significado mundial ao Teatro de Arena brasileiro, que sonhou levar o homem brasileiro e tudo que isso significa para a cena, baseado no orgulho do nosso falar, nosso sentir, nosso jeitão, nossa alma, com orgulho de quem somos. E libertos da encenação de consumo hollywoodiana, aquela colonizadora que ganhou o mundo, que escrevia Brazil assim, com “z”. De Zé Carioca.
Como convém aos gigantes, Lima Duarte preferiu ficar no território do Arena, em maiúsculas, que ele ajudou a criar ao lado de Augusto Boal, José Renato, Gianfrancesco Guarnieri, Paulo José, Chico de Assis... Afinal, eles todos, naquela deliciosa atuação de teimosia, foram automaticamente inscritos na história do teatro de arena, em minúsculas, universal.
A certa altura, Lima Duarte conta o momento em quem foi levado pelos temidos agentes da repressão dos militares, a bordo de uma das sorrateiras Veraneios – o nome suave tropicalizado pela Chevrolet para um carro de família, ancestral das SUVs, inspirada na Suburban americana, que o autoritarismo fardado rebatizou impunemente de camburão – algumas foram salvas como ambulâncias.
Na sua fidalguia, Lima Duarte trata Romeu Tuma e o famigerado delegado Sérgio Fleury por “cavalheiros”, e os gorilas da Veraneio por “senhores”. Uma senha subliminar para revelar os verdadeiros cavalheiros. Fala também da atual “devastação dos velhos”, talvez pela exclusão social da modernidade, e diz a um Migliaccio já ausente daqui “Não podemos mais! Eu não tive a coragem que você teve! Mas, espere aí, meu amigo, eu vou logo”.
O Arena, em maiúsculas, pode até ter sido uma utopia, se vista sob a óptica globalizada e apressada, para não dizer quase ignorante, de hoje em dia. Primeiro, uma companhia teatral perambulando por salas improvisadas. Depois, ganhando teto numa garagem adaptada em teatrinho de noventa lugares, defronte à Igreja da Consolação, no ambiente sempre inspirador do centro de São Paulo. Uma espécie de “lado B” do então poderoso TBC-Teatro Brasileiro de Comédia, ocupado com grandes e sofisticadas produções focadas no repertório internacional de sucesso.
No fundo, ambos eram palcos fundamentais que traduziam a nossa capacidade de produzir arte. E o Arena, em maiúsculas, foi real até em sua proposta utópica naqueles momentos sombrios do regime militar, de quem terminou virando firme opositor.
E foi ali que a mente privilegiada e as mãos operárias do italiano Gianfrancesco Guarnieri jogaram tinta sobre papel para criar o lendário Eles não usam black-tie, texto que virou peça e passou um ano em cartaz na temporada original, o suficiente para salvar a aquela utopia da falência.
Um outro grande momento foi a longa excursão internacional com o musical Arena conta Zumbi, de Guarnieri e Boal e música de Edu Lobo, encenada nos Estados Unidos, México e Peru.
O Arena, em maiúsculas, foi um palco honorável por onde desfilaram textos e interpretações de Augusto Boal, José Renato, Oduvaldo Vianna Filho, Henrique Becker, Geraldo Mateus, Renata Blaustein, Lima Duarte, Gianfrancesco Guarnieri, Flávio Migliaccio, Chico de Assis, Paulo José, Monah Delacy, Eva Wilma, Benedito Ruy Barbosa, Sérgio Britto, Juca de Oliveira, Riva Nimitz, Abraão Farc, Milton Gonçalves, Antônio Pedro, Luís Carlos Arutin, Denise Del Vecchio...
Sim, é mesmo de cortar o coração quando o homem que ficou anuncia ao amigo que se foi a certeza de que, em breve, estarão juntos eles todos no infinito, para reviver o sonho do Arena, em maiúsculas. Aquele tempo que legou uma dramaturgia com alma brasileira em textos, vozes, sons e jeitão da gente.
Corta o coração porque apenas desnuda ainda mais o nosso vazio cultural. Um cenário que nem Zeca Diabo, acostumado a tratar a morte à bala com sua fidelidade canina a um escroque como Odorico Paraguaçu, foi capaz de aguentar. Nem mesmo Sinhozinho Malta, sujeito poderoso de caráter duvidoso e saídas matreiras para quase tudo. Muito menos seria possível para Tio Maneco, Xerife e Seu Chalita, que passaram a viver em nossos corações pela vida que Migliaccio lhes emprestou com ternura.
Pensei no amigo que me enviou o vídeo. Foi um dos meus primeiros fraternos conquistados quando, deixando as minhas terras natais, interior e capital, pisei pela primeira vez nas terras cariocas, para iniciar a segunda parte da minha aventura de vida que terminou se espalhando por diversos pedacinhos do mundo.
Pensei na luta política que ele colocou nos ombros desde sempre. Pensei no texto forte de Bertolt Brecht retirado da fala do personagem Pedro Jáqueras – que Lima Duarte interpretou no Arena – e que fechou a mensagem a Migliaccio: “Os que lavam as mãos o fazem numa bacia de sangue”.
Talvez muito forte para os tempos anêmicos de hoje. Fazia mais sentido nos anos sombrios, onde os poderosos de plantão tinham um pouco mais de inteligência, respeitavam e compreendiam muito bem a arte e a cultura. Sabiam que elas eram inimigas poderosíssimas, um sistema explosivo operado por mentes brilhantes como as citadas aí acima e tantas outras cabeças privilegiadas atuando nas raias da música, cinema, teatro, literatura e artes plásticas. Tanto que vem daquele período dos fins dos cinquenta até o fim dos setenta os mais saborosos ingredientes da receita do nosso caldeirão cultural nacional.
Hoje, quando vemos um monte de zumbis seguindo extremistas dos dois lados, resta apenas lamentar. E sofrer por reconhecer bons amigos fanatizados, zanzando sem destino no meio deles – o profético Raul Seixas já havia cantado muito antes o verbo “zumbizar” –, adorando esses semipoderosos de botequim que vieram, cada vez de pior nível, depois daqueles anos inigualáveis.
Sucederam-se no plantão do poder os piores boçais, sem qualquer apego às artes porque elas estão acima das suas capacidades de compreensão, que desprezam o culto e o belo por aquela dolorosa inveja dos ignorantes. Não há mesmo o que fazer a não ser esperar o tempo passar e eles irem junto.
A esses, cabe como luva a poesia de Aldir Blanc, potencializada pela voz de Elis:
O Brazil não merece o Brasil
O Brazil tá matando o Brasil
Provavelmente, essa gente jamais perceberá a sutileza do jogo de “z” e “s” do mestre da Tijuca. Seria pedir demais!
Heraldo Palmeira é escritor, documentarista, produtor cultural e colaborador do Bar de Ferreirinha


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