Páginas

sábado, 30 de setembro de 2017

Xexéu, o mito, completa 90 anos

Xexéu com as filhas Lêda e Lenira, na homenagem
prestada pela Câmara Municipal de Caicó em 2014
Caicó amanhece em festa neste sábado, 30 de setembro de 2017.
Hoje, o comendador Stoessel Dias, Xexéu como é mais conhecido no mundo etílico-gastronômico-cultural de Caicó, está completando 90 anos de idade.
A cidade foi despertada com uma alvorada musical tocada pela Banda de Música Recreio Caicoense.
E uma data tão especial, merece uma comemoração super especial: os filhos Paulo (de Recife), Lêda (de São Paulo) e Lenira (de Natal) viajaram a Caicó pra festa de Xexéu.
Também estão na cidade Luzardo Cebolinha, neto que inscreveu para sempre o Bar de Xexeu nos anais de Natal, demais netos e bisnetos, amigos mil para este encontro especial com O Mito da boemia de Caicó.
O Bar de Ferreirinha pede licença aos familiares pra se juntar nas homenagens ao querido Xexeu, amigo e compadre de Clóvis Pereira de Araújo, in memoriam, pai dos editores (ir)responsáveis deste blogue, Roberto e Pituleira.
Nossa homenagem especial a este homem que vive cercado de amigos, foi agraciado pela Câmara Municipal de Caicó no dia 18 de julho de 2014 com a Comenda Vila do Príncipe e tem a graça de hoje estar completando 90 anos de idade.
Viva Xexeu!

Bar de Ferreirinha, em homenagem ao aniversariante, familiares e amigos, publica texto escrito por Roberto Fontes e publicado na extinta revista O Botequeiro, que era dedicada aos boêmios e bares do Rio Grande do Norte, na edição de novembro de 2011.

Xexéu, o mito

Roberto Fontes
Jornalista, cachaceiro, editor do blogue Bar de Ferreirinha


Xexéu, o mito da boemia de Caicó e arredores
Ele já fez tudo na vida: foi agricultor, motorista, bicheiro, dono de bar, caçador, recenseador do IBGE, bodegueiro, vendedor de aves na década de 40, jogador de futebol, assessor político da Prefeitura de Jucurutu, dançarino de cabaré, orador de solenidades, escritor de cartas para o INSS, jogador de baralho, boleiro nas horas vagas, ex-futuro vereador (nunca aceitou ser candidato), cambista e o maior assador de carne de sol do Brasil. Mas nunca deixou de ser boêmio, a sua principal atividade.
Stoessel Dias, casado com Guilhermina (in memoriam), pai de Tecobol (in memoriam), Paulo Dias, Lêda e Lenira, é uma figura ímpar, que só poderia ter nascido em Caicó. Sim, Stoessel é só no registro civil: ele é conhecido mesmo pelo apelido de Xexéu. Apreciador de cerveja gelada, Xexéu adora viajar - normalmente no banco da frente do carro, com o cotovelo apoiado na porta - e faz o percurso ficar menor com a sua inacreditável capacidade de contar estórias. É servidor público aposentado e frasista emérito.
 “Eu não tenho formação acadêmica nenhuma, especialmente em engenharia química, mas uma das coisas de que eu mais gosto de fazer é transformar cerveja, cachaça e outras bebidas alcoólicas em urina!”. Aos 84 anos de idade, completados no dia 30 de setembro de 2011, Xexéu continua irreverente, gozador, cachaceiro, cervejeiro, botequeiro, jogador de baralho e mulherengo – um boêmio na mais completa acepção da palavra. Sempre foi assim, desde o início de suas atividades há mais de 60 anos.
É um dos clientes-fundadores ainda em atividade do Bar de Ferreirinha, o boteco mais antigo no Rio Grande do Norte, que funciona desde 1959. Entre uma cerveja gelada e um prato de rapa de queijo de manteiga, cercado por vários bêbados atentos às suas frases recheadas de bom humor, Xexéu exercita diariamente o seu jeito bonachão. “Meia idade é a altura da vida em que o trabalho já não dá prazer e o prazer começa a dar trabalho”, costuma dizer aos companheiros de bar, que adoram as suas tiradas.
O espírito boêmio sempre falou mais alto, principalmente no tempo em que ele mantinha o Bar de Xexéu, no Mercado Público, que ficou conhecido em todo o Rio Grande do Norte pela excelência da carne de sol que só ele sabia preparar. 
Era comum, em pleno movimento do fim de tarde, algum amigo convidá-lo pra uma farra e ele, simplesmente, deixar a chave do bar pendurada na fechadura com a recomendação expressa: “o último a sair feche a porta e guarde a chave pra me entregar amanhã ou noutro dia”.
E saía pelos inferninhos da cidade e dos arredores, vivendo a mil a sua aventura boêmia e de vadio profissional. Conta o amigo e radialista Clóvis Pereira Júnior, o Pituleira, também editor do blogue Bar de Ferreirinha e companheiro de farras, que Xexéu também gostava de contar umas mentiras sinceras. “Pra impressionar, ele dizia que era filho de pais ricos, afilhado do saudoso senador Dinarte Mariz e um ex-acadêmico de Medicina que vivia como boêmio apenas porque preferia levar uma vida mais agitada e emocionante”, diz Pituleira.
Jogo do Bicho - Um fato impressionante marcou a vida de Xexéu como banqueiro do Jogo do Bicho, na década de 1950. Uma jogadora inveterada, dona de casa aposentada de Jucurutu, sonhou que o bicho seria vaca durante seis sextas-feiras consecutivas. Não só sonhou, mas avisou à vizinhança, aos familiares e aos amigos e, na sexta-feira seguinte, foi a Caicó jogar no bicho. Jogou em vaca e o bicho foi... vaca! 
A notícia se espalhou rapidamente. Na sexta-feira seguinte, o movimento na banca de Xexéu duplicou: todo mundo jogou vaca. Deu de novo, e assim foi durante mais três semanas. Na sexta semana consecutiva, caravanas de apostadores de todas as cidades do Seridó se dirigiram a Caicó para jogar no bicho. Em vaca, evidentemente! Xexéu recolheu o dinheiro das apostas, alugou o jeep de Otoni Nóbrega - único carro de frete disponível na época - e foi descarregar as apostas de sua banca com um bicheiro de Campina Grande, a 204 quilômetros de Caicó, pensando, evidentemente, em ganhar muito dinheiro. 
O bicho foi... cavalo! Aí Xexéu quebrou.
Uma vez boêmio, sempre boêmio. Ainda hoje, aos 84 anos de idade, Xexéu cumpre o ritual de beber uma cervejinha ou uma cachacinha antes do almoço. Recentemente perdeu a mulher, Guilhermina. Mas não perdeu a verve: ‘Quando a gente envelhece, o cabelo embranquece, o osso adoece, o joelho endurece, a vista escurece, a memória esquece, a gengiva aparece, a hemorróida engrandece, a barriga cresce, a pelanca desce, o pau amolece, a mulher se oferece e a gente agradece’. Vida longa a Xexéu Dias!



Estórias e histórias 
O Bar de Ferreirinha, blogue que também é o espaço boêmio dos bêbados de Caicó, publicou várias estórias em que Xexéu Dias foi protagonista. Algumas seguem abaixo:

Homem feliz
Xexéu passou maus momentos com um pico de pressão alta. 
Precisou, inclusive, de atendimento cardiológico porque o tensiômetro marcou estratosféricos 20 X 14, valor perigosíssimo para um boêmio oitentão. 
Aliviado, ele comentava numa roda de amigos que a pressão voltou ao normal, que a dor de cabeça sumiu e que a velha rotina de pif-paf, cerveja, lero e jogos de azar em geral estava de volta. 
Benedito Santos (in memoriam), amigo, gozador emérito, comentou sobre o inconveniente:
- Xexéu, considere-se um homem feliz: pelo menos você ainda tem alguma coisa que sobe...

Azar no pif-paf
Xexéu chegou em casa murcho, com o rabo entre as pernas.
- O que foi que aconteceu? - pergunta Guilhermina, sua mulher.
- Perdi todo o meu dinheiro no pif-paf!
Guilhermina fica uma fera:
- Também, pudera! Você é um imbecil! Não sabe que dá azar jogar em plena sexta-feira santa?
- E os putos que ganharam meu dinheiro? Por acaso estavam jogando num sábado de carnaval?

Olho no olho (contada por Orlando Caboré Rodrigues)
Uma senhora entra no bar e surpreende Xexéu retirando uma manta de carne de sol de uma sacola e, de imediato, pondo no fogo para assá-la.
A intrusa:
- Vixe, que sujeira! O senhor sequer lavou a carne!
Xexeu, rápido no gatilho, devolve a ofensa:
- A senhora já comprou pão lavado?
Em outra ocasião, Xexéu assava queijo de coalho.
O coronel Benedito Queiroz (in memoriam), da Polícia Militar, freguês assíduo, arrisca:
- Só compro o queijo depois de experimentá-lo…
A resposta de Xexéu:
- Benedito, você também come uma fatia quando vai comprar sabão?

Nenhum comentário:

Postar um comentário