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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Diarreias mentais - CLXXVI


Feminicídio X 50 tons de cinza

Eu leio livros desde a minha mais tenra juventude. Os meus primeiros livros, eu os li na Biblioteca Olegário Vale, na minha terra Caicó, na longínqua década de 1950. A bibliotecária era Dona Bezinha (tia do meu amigo Tarcísio Araújo). Daquelas estantes empoeiradas eu li desde
"Os Miseráveis", de Victor Hugo, aos outros grandes clássicos da literatura mundial. Cresci (e envelheci) lendo grandes obras literárias, desde Machado de Assis a Eça de Queiroz, passando por Jorge Amado e pelo moderno John Grisham.
Eu não sei o que pode afirmar os demais leitores (e leitoras),  mas     me parece que uma forte e dirigida publicidade da mídia mundial está fazendo uma "lavagem cerebral" nas pessoas e induzindo-as a comprar e, o que é pior, a ler determinados livros que ferem frontalmente tudo o que sabemos sobre honra, lucidez, vergonha, caráter, bom senso e dignidade da pessoa humana.
É o caso específico do "fenômeno" de vendas intitulado "Cinquenta tons de cinza". Por que será que esse livro se tornou o maior "fenômeno" editorial dos últimos tempos? Por quê? Não sei responder. Trata-se de uma história de "sacanagem" entre a jovem Anastasia Steele (que se dizia virgem) e o bilionário Christian Grey que tem uma tara. 
Por que uma tara? Será que sadomasoquismo não é uma anomalia sexual?
O que me espanta nisso tudo é que algumas leitoras que só sabem trepar no velho e tradicional "papai-e-mamãe", compram, leem e ainda fazem a apologia do livro. Algumas leitoras, que ameaçam com a Lei Maria da Penha, quando os seus companheiros falam mais alto, compram e ficam maravilhadas lendo sobre as "porradas" que a personagem Anastasia Steele toma.
Será que as sacanagens descritas por Bruna Surfistinha em seu erótico livro não seriam bem melhores? Ou, que tal, aquelas posições estrambóticas ensinadas no livro de Kama Sutra não lhes dariam mais prazer?
Eu tenho certeza de que o corpo do talentoso escritor brasileiro Nelson Rodrigues está se revirando no seu túmulo, pois quando, no passado, ele afirmou que "toda mulher gosta de apanhar”, o mundo feminino quase desabou sobre a sua cabeça. 
Ou será que ele deveria ter dito: "toda mulher gosta de ver outra mulher apanhar"?
Atualmente, os homens entenderam que as mulheres (inclusive suas ex-mulheres) lhes pertencem. A todo instante, a imprensa nacional nos mostra mulheres sendo espancadas, e até mortas, por seus companheiros (inclusive por seus ex-companheiros). Todos nós ficamos escandalizados com essa barbárie, inclusive as fãs das porradas que o personagem do livro aplica na “mocinha” de “Cinquenta ons de cinza”.
Não é um contrassenso, bater palmas para “Cinquenta tons de cinza” e ficar com “peninha” da mulher com a cara quebrada pelo marido que aparece nos programas policiais da tevê brasileira?

Ciduca Barros é escritor e colaborador do Bar de Ferreirinha

Um comentário:

  1. Ciduca, meu caro.
    Como vc, eu também comecei a ler com 7 anos de idade. e me encantavam as histórias contadas nos livro escolares tais como: o engenho de açúcar, o bicho folharal, a fazenda, a boiada, etc, etc, etc... Dai, tomei gosto e passei a ler os excelentes, Machado de Assis, José de Alencar, José Lins do Rego e outros, passando por Jorge Amado, Dostoiéski, Victor Hugo, Gabriel Garcia Márquez, etc, etc, etc...
    Enfim. Como vc, adquiri conhecimentos e aprendi a escrever o Português correto, modéstia à parte. Essa geração de hoje são um bando de apedeutas, ignorantes e, às vezes, motivo de chacotas.
    Abraços
    Carlos Rocha

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