Imagem: Bru-nO/Pixabay
Giovanni Mick Torium*
A maior e mais importante operação policial já realizada do Brasil contra o crime organizado foi um primor de execução. Foi de cair o cu da bunda a dinheirama movimentada no negócio de combustíveis do Primeiro Comando da Capital (PCC): R$ 52 bilhões desde 2020. Estamos falando de um grupo de traficantes truculentos que se transformou num complexo sistema de negócios em diversas frentes empresariais. O mesmo modelito de empreendedorismo adotado pela Máfia italiana para legalizar seu dinheiro sujo, que se espalhou por outras organizações criminosas ao redor do mundo com a ajuda de profissionais cada vez mais especializados e muito bem pagos.
Entretanto, somos um país tão imbecil que setores da administração pública deram vexame em gabinetes refrigerados para requerer a paternidade do feito. Na verdade, foram três operações associadas: Carbono Oculto (Ministério Público de São Paulo), Quasar e Tanque (Polícia Federal). Enquanto 1,4 mil agentes públicos – aquela turma que vive enxugando gelo – estava em campo fazendo buscas, apreensões e prisões em dez estados, um bando de burocratas que ocupa cargos quase sempre pelo mérito do compadrio, da bajulação ou da ignorância eleitoral se pôs a contar vantagens como qualquer bom faroleiro. A trombeta dos miseráveis soou em duas entrevistas coletivas, Sampa e Brasília, juntando água e óleo. De um lado, os ministros Ricardo Lewandowski e Fernando Haddad, com a ajuda do chefe da PF Andrei Passos. Do outro, o governador paulista Tarcísio de Freitas. Todos com suas miras telescópicas apontadas para as urnas de 2026.
A operação só foi um sucesso porque, durante dois anos inteiros, diversos agentes públicos estaduais e federais trabalharam em estreita colaboração e sigilo, deixando fora da sala a maldita divisão política que polarizou o país e nos levou a este ponto de mediocridade generalizada, onde figuras manjadas vêm falar sobre trabalhar em uníssono e são as primeiras vozes a buscar os solos midiáticos.
Mesmo diante desse cerco histórico às finanças do PCC, se mantém no governo federal outra disputa inacreditável entre patotas de barnabés para definir se esses grupos criminosos devem ser chamados de facção, organização criminosa ou máfia. Sim, aquela filosofia de botequim cheia de dedos que cria direitos vadios para quem comete crimes sem qualquer deferência. A mesma lógica estúpida de que favela deve ser chamada de comunidade, às favas o fato de que as condições miseráveis de quem vive nelas jamais melhoram.
Enquanto isso, a bandidagem cada vez mais organizada vai refinando seus métodos de atuação, pouco se lixando para títulos e mesuras de quem não tem coisa melhor para fazer enquanto se agarra ad aeternum nas tetas públicas. A começar pelas excelências parlamentares que mantêm engavetada a PEC da Segurança Pública, muitas delas eleitas e reeleitas com campanhas financiadas por esse dinheiro sujo.
A operação policial jogou pelos ares apenas um dos setores da atividade da quadrilha, que inclui fazendas de plantação de cana, usinas, distribuidoras, postos de serviços, lojas de conveniência e até terminais portuários. Sem contar um enorme sistema de importação de insumos para produção e adulteração de combustíveis. Ou seja, uma operação comercial que não foi montada da noite para o dia e obviamente entrava como areia nos olhos, quiçá nos bolsos de autoridades há muito tempo. Autoridades que preferiam gastar dinheiro com colírio ao invés de fechar a janela por onde entrava o vento empoeirado.
Há quantos anos se sabe que dinheiro escondido em salas de apartamentos, dentro de paredes ou enterrado é destruído pela ação do tempo? Há até uma série televisiva de sucesso mundial que mostra as agruras que o traficante Pablo Escobar enfrentou com esse tipo de armazenamento rudimentar – chegava a perder 10% do faturamento anual para mofo e roedores, algo que nos anos de ouro alcançou US$ 2,1 bilhões de prejuízo/ano.
Ora, essa história é antiga pois o colombiano morreu em 1993. Passou tempo mais do que suficiente para que se criasse um sistema eficiente de monitoramento das principais facções brasileiras, que também precisariam de métodos mais modernos para armazenar dinheiro. A começar pelas contas bancárias que foram abertas aos montes. Essa displicência facilitou as providências que deram ares de legalidade ao fluxo de capital ilícito, com tudo ficando lavadinho da silva.
Segundo foi noticiado, a porta de entrada para legalizar o dinheiro eram fintechs (startups do mercado financeiro) que transacionam recursos de clientes – em contas que não identificam os titulares e permitem ocultar origem e destino do dinheiro – com administradoras de recursos encarregadas de buscar aplicações em novos negócios de fachada em diversos setores, aquisição de propriedades, fundos de investimento... O processo vai criando um emaranhado onde fica cada vez mais difícil revelar os donos da bufunfa. Para alegria dos criminosos de todos os ramos, tudo absolutamente dentro da lei.
Por merecerem regalias normativas em relação aos bancos tradicionais, as fintechs terminaram virando portas de entrada do sistema financeiro para dinheiro sem origem. O mais impressionante é que mesmo movimentando milhões de reais diariamente estavam liberadas de informar detalhes das operações, o que permitia incluir lucrativa vista grossa de operadores com olhos bem arregalados e sem qualquer vestígio de areia.
É grande a tentação de acreditar que essa fragilidade no controle e fiscalização foi garantida por uma legislação de caso pensado. Ou Brasília não é o centro legislador que na véspera da operação policial tentava aprovar, na calada da noite, a PEC da Blindagem? Já vai se formando um consenso de que seria a senha para acomodar membros infiltrados do crime organizado nas cadeiras do parlamento federal, o que livraria os criminosos de seguir financiando campanhas de políticos duvidosos. Assim, eles mesmos poderiam usufruir diretamente de uma nova legislação que os deixaria acima da Justiça e livres para legislar em causa própria, numa espécie de utopia da cafajestagem. Salvou-nos – por ora – o desconforto de ministros do STF, que chegou aos porões da Câmara e estancou o frenesi aprobativo.
Difícil acreditar que as fintechs foram criadas para atender apenas ao PCC ou qualquer outra sigla do crime organizado. Alguém ficará surpreso se a lista de clientes também esconder os velhos pilantras de sempre, que vivem solfejando moralidade e espírito público em seus imaculados colarinhos brancos especializados em desviar recursos públicos?
A economia do crime foi sendo legalizada debaixo dos narizes de um país que se acostumou a não sentir mau cheiro na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Diante do escândalo, o governo reagiu prometendo para o dia seguinte normativos que equiparem fintechs a bancos no rigor do acompanhamento e fiscalização de transações. Por que só agora, cara-pálida?
Algum gênio da raça pensou na ideia de infiltrar policiais nessas organizações financeiras que caem na tentação e se entregam ao riquíssimo pecado de lavar dinheiro. Não diga! Falta originalidade, para dizer o mínimo, porque é a mesma infiltração que o crime organizado demonstra ter feito há muito tempo nas mesas de operações do mercado, no ambiente empresarial, nos gabinetes políticos, no Judiciário, em congregações religiosas, nas universidades e no escambau.
É óbvio que o teatro de operações mudou completamente, já não está mais limitado a apenas caçar apelidos do mundo do crime debaixo de balas. Faz tempo que o PCC deixou de ser associado até com certo romantismo ao tal de Marcola – preso desde 1999 e esquecido numa cela da Papuda –, a liderança marginal e truculenta que se gaba de ter formulado o “Código do Diabo”, o conjunto de normas de conduta que todos os membros eram obrigados a cumprir.
O fato de seu nome não aparecer na operação policial demonstra que a turma parece cada vez mais independente e se distanciando do velho líder e seus métodos arcaicos. A organização saltou para um patamar de negócios cuja complexidade não deve ser fácil de alcançar – muito menos comandar de fato – por alguém que apenas completou o ensino básico na cadeia, se gaba de ter lido um punhado de livros, mas está encarcerado em regime de segurança máxima a milhares de quilômetros da sede da organização e longe do cotidiano dos negócios.
O surgimento de novos nomes como cabeças do negócio deixa no ar a impressão de que “PCC” já pode ter virado uma sigla generalista para designar esquemas criminosos que nada têm a ver com a organização original. Um sistema que pode estar credenciando “franqueados” e cobrando algum tipo de pedágio pela estrutura e pelo poder de intimidação, diluindo atividades ilegais de outros grupos para dificultar a ação dos agentes da lei, repetindo o que ocorreu com a Máfia siciliana – hoje tem máfia até de flanelinhas! Por isso mesmo, muita gente da Faria Lima deve ter faturado alto nesse embalo, mesmo sem nunca ter obtido carteirinha da turma de Marcola.
A gigantesca ação policial desnuda algo que qualquer um menos bobo enxerga até na vizinhança: o Brasil não consegue mais esconder sua índole criminosa, sempre protegida pela impunidade. Ou este não é o país que se acostumou a ver as grandes investigações terminarem mofadas ou roídas nas gavetas dos tribunais superiores maturando anulações vergonhosas, anistias e prescrições? Afinal, os maiores escândalos sempre correm para as altas cortes porque cifras milionárias e gente poderosa têm alergia à primeira instância.
Passeando aleatoriamente pela impunidade tupiniquim, o armário de 1983 mostra o esqueleto empoeirado do caso Coroa-Brastel, que eletrizou o país ao misturar o empresário Assis Paim Cunha e os então poderosos ministros Delfim Netto e Ernane Galvêas – está tudo a um clique na internet, inclusive o tamanho da pizza. Por isso, se quiser, vá gastar sua mufa sozinho. Eu vou continuar cagando e andando.
*Giovanni Mick Torium não é jornalista. É especialista em esgoto.
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