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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Tecnofascimo (ou feudalismo tecnológico)

 

Imagem de IA gerada pelo Gemini


Djair Galvão - Escritor e Jornalista

Na visão estendida do Estado, a vida de qualquer cidadão pode ser acessada numa única tela, sem fronteiras e sem pudor. Recursos tecnológicos são usados por governos ou estados para atingir alvos considerados inimigos. Na ótica dos tecnofascistas, é hora de fabricar armas e deixar de lado qualquer escrúpulo em relação à democracia

Sempre que você imaginar que o mundo atual está caminhando para algo assustador, considere que haverá grupos no poder pensando em coisas muito piores. É o caso dos magnatas da empresa norte-americana Palantir, que reforçaram uma tese já publicada em livro por dois dos seus dirigentes, Alex Karp e Nicholas Zaminska, intitulado A República Tecnológica
Dentre outras coisas, os 22 tópicos centrais defendidos por eles na obra pregam a necessidade de engajamento das empresas de tecnologia dos EUA na construção de armas com o uso de Inteligência Artificial, ampliação de mecanismos de vigilância sobre a vida privada, rearmamento do Japão e da Alemanha e o fim de qualquer sombra de limites ainda impostos pela democracia liberal.
Palantir, ironicamente, é um nome tirado da saga O Senhor do Anéis.
Na história mágica criada por JRR Tolkien, trata-se de um mítico cristal usado para comunicação e vigilância à distância pelos poderosos magos Sauron e Saruman. Bem pior no universo real, os softwares criados e geridos pela empresa de Alex Karp e seus sócios bilionários estão ligados umbilicalmente ao antigo Departamento de Defesa dos EUA - o atual “Departamento de Guerra”.
Programas da Palantir como Gotham e Foundry servem de suporte a ações militares, invasão de celulares e são usados para vasculhar fichas criminais, redes sociais e até satélites. São a visão estendida do Estado, principalmente das polícias norte-americanas - e de outros países - , bem como das agências de espionagem e de diversos governos ao redor do mundo. A vida de qualquer cidadão ou cidadã pode ser acessada numa única tela. Sem fronteiras e sem pudor algum. Como se sabe, recursos tecnológicos não têm “moral” ou discernimento. Os governos ou estados que os utilizam podem atribuir os rótulos que quiserem aos seus “alvos" (inimigos).
Usando nomes tirados da ficção e dos quadrinhos, essa corporação entende que os oligarcas que ora dominam o Vale do Silício, pátria das chamadas big techs, deveriam parar de "brincar de distribuir e-mails de graça”. Eles são diretos: seria a hora de fabricar armas, combater o crime violento e deixar de lado qualquer escrúpulo no tocante à “democracia”. Eles falam disso como tarefas dessas empresas, e não do Estado propriamente. Assim, “pagariam a dívida moral” que teriam com os Estados Unidos. Ou seja, precisam se unir de vez aos Senhores da Guerra. Isso seria necessário para se contrapor aos “inimigos do Ocidente" (leia-se China, Rússia e seus aliados).
Aplicativos da Palantir servem de suporte  
para ações militares e invasão de celulares, 
além de vasculhar fichas criminais, 
redes sociais e até satélites

Ideais como Liberdade, Coletividade e até o conceito de Humanidade - construídos desde o Iluminismo e reforçados no pós-guerra com o multilateralismo e a difusão das ideias de Direitos Humanos - estariam atrapalhando a corrida pelo domínio dos EUA no mundo atual. Essa postura dos magnatas está sendo rotulada de Tecnofascimo ou Feudalismo Tecnológico, dentre outras formas.
A chamada democracia liberal, centrada na representatividade, no voto e na tripartição dos poderes, estaria obsoleta, acreditam esses detentores do novo centro de poder do Vale do Silício. Aliás, eles falam abertamente isso tudo porque estão de fato no centro nervoso do poderio militar norte-americano. Ou seja, a Palantir é parte integrante do complexo industrial-militar dos EUA, e se sente no direito de ‘convocar’ os demais magnatas do mundo digital a marcharem juntos pela guerra.
Os demais CEOs das big techs acessam a Casa Branca, a agenda do atual presidente muito mais do que quaisquer agentes políticos naquele país atualmente. São como unha e carne no governo Donald Trump. Os lugares reservados a eles na foto na cerimônia de posse do presidente, em janeiro de 2025, disse tudo.
Ora lidas como “manifesto fascista digital”, ora como arroubos autoritários de tecnocratas bilionários sem compromisso com nada além dos seus negócios e fortunas, essas manifestações ganham corpo e fazem ferver o debate nas redes sociais e nos círculos acadêmicos e políticos.
Também adubam os pensamentos neofascistas e servem de slogan para movimentos extremistas que crescem na onda “conservadora” da extrema-direita à sombra do Trumpismo.
A pergunta que muitos analistas fazem é: esse movimento representa uma ameaça real ao que conhecemos hoje como democracia liberal? Nada sinaliza ao contrário, embora possa refluir, em certa medida, caso o poder hoje concentrado por Donald Trump seja esvaziado em algum momento nos Estados Unidos. Ademais, a contenção que potências antagônicas aos EUA exercem serve para refrear um pouco esses ânimos. O esperado é que esses grupos de bilionários tresloucados continuem com a corda toda durante muito tempo.
Corroer o sistema democrático atual por dentro é pouco, entendem os chefões da Palantir e das big techs do Vale do Silício, falando de maneira genérica. Eles acham que os entraves “democráticos” deveriam ter sido removidos bem antes, e por isso apostam nessa guerra sem fim para manterem seu poder.
Estamos nesse ponto, quando o ano de 2026 já chega quase na sua primeira metade: o mundo virou refém de poucas centenas de ultrarricos espalhados por alguns pontos do planeta. E de suas teorias conspiratórias e dos seus mecanismos tecnológicos. Detalhe: ninguém sabe ainda como sair dessa armadilha. Nada no horizonte aponta para outro caminho. Até agora.
Que a ficção nos console. Pelo menos por enquanto.

Texto originalmente publicado no site substack.com
Link aqui: https://djairgalvao.substack.com/p/bilionarios-da-palantir-convocam?r=282wgt&utm_medium=ios&triedRedirect=true

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