H. Romeu Illanba
Qualquer pessoa com dois neurônios funcionando já ouviu o velho adágio popular “O apressado come cru”. E por analogia o apressadinho sempre termina tomando nas adjacências do propriamente dito. Ainda mais nestes tempos em que, segundo o pensador italiano Umberto Eco, “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. Esses imbecis finalmente ganharam um sobrenome à altura: “tudólogos”. Os imbecis tudólogos têm, sobretudo e sempre, uma opinião formada sobre tudo, de briga de vizinhos a chuva de meteoritos numa nova lua de um ex-planeta sem nome a milhões de anos-luz. Óbvio que a crise venezuelana não passaria ilesa pelo radar desfocado dos imbecis tudólogos, que já entupiram as redes sociais de estridências de dar pena.
Desde os anos 1910 existe exploração petrolífera no país, à época realizada por empresas inglesas e americanas. Em 7 de janeiro de 1936 teve início a atividade da Standard Oil por lá, que terminou sendo o marco do grande salto venezuelano nesse mercado. Em boa parte do século 20, a maior comunidade de norte-americanos fora dos EUA vivia exatamente na Venezuela.
Tempos em que o país caribenho chegou ao posto de 4º mais rico do mundo, muito em razão da associação empresarial com EUA e Inglaterra, já que o país não tinha tecnologia nem capacidade de exploração daquela riqueza. Tudo mudou com a chegada de Hugo Chávez ao poder, por um golpe de Estado, que transformou em ruínas com seu populismo e tirania o que era uma espécie de paraíso tropical cuja população vivia com alto nível financeiro. De quebra, estatizou instalações privadas das empresas estrangeiras. Como se não bastasse, deixou Nicolás Maduro como herança maldita.
Olhando para a Arábia Saudita, onde está outra reserva mundial gigante, temos além do colosso estatal Saudi Aramco (a PDVSA de lá), empresas estrangeiras norte-americanas, inglesas e chinesas operando na produção petrolífera. Algo que se repete em diversos outros países produtores do Oriente Médio. Também podemos lembrar o período de efervescência cultural do Irã nos tempos em que empresas inglesas e americanas estavam presentes em seu território. Basta olhar velhas fotos da Teerã dos anos 1970 para encontrar uma juventude risonha, com as moças andando de saias curtas. Ou seja, não é a presença estrangeira que necessariamente destrói o país detentor da riqueza explorada. Por isso é sempre recomendável conhecer a realidade antes de repetir opinião alheia e sair cagando goma.
Parece correto reformar o discurso “a Venezuela só é esse País quase falido porque os EUA e alguns outros países dominaram sua política e roubaram suas riquezas...”. Talvez seja justo incluir Rússia e China num tipo de exploração falimentar para os venezuelanos, pagando muito menos pelo petróleo e utilizando navios piratas para levar o produto para seus próprios territórios – a China era o maior comprador do petróleo venezuelano até este momento.
Não poucos os indícios de operações suspeitas da Venezuela para exportar e transportar o produto, que incluem o Brasil. Foram muitos petroleiros flagrados navegando com o sistema de GPS desligado, trocando bandeira e o próprio nome (repintado) em alto-mar. Por “coincidência”, todos fazendo a rota de Caracas para Rússia e China – um deles, que vinha se escondendo há dias no mar, foi tomado por forças especiais enquanto estava sob escolta de uma embarcação militar russa.
Também chama atenção o fato de o governo chavista/madurista permanecer no poder, se propondo a seguir as determinações dos EUA. Tanto que já anunciou a libertação de todos os presos políticos como “gesto de paz”. E agora se sabe que a atual presidente interina Delcy Rodríguez e seu irmão, o presidente da Assembleia Nacional Jorge Rodríguez, procuraram a Chevron – empresa americana com presença centenária no país – há algum tempo. Mantiveram estreito contato com a empresa e com um diplomata dos EUA (que atua nos bastidores) porque desejavam restabelecer as relações internacionais políticas e empresariais da Venezuela. Está claro que não incluíam Maduro nesse futuro e ninguém consegue garantir que não tenham exigido a retirada do ditador de cena.
Ou seja, os imbecis tudólogos são no mínimo imprudentes ao sair falando sem informações. Além deles, muitos jornalistas militantes da esquerda festiva estão readequando os discursos inflamados de ontem para diminuir o vexame – agora não conseguem esconder que estavam desinformados, para dizer o mínimo. Também é interessante o esquecimento seletivo sobre Maduro ter em mente tomar na marra um pedaço do território da vizinha Guiana, que guarda imensa reserva petrolífera e nenhuma capacidade de defesa militar.
Nem sempre os fatos são agradáveis, inclusive para os rebanhos políticos que vivem de narrativas. E quase sempre os “tudólogos” quebram a cara porque ignoram os fatos, não esperam o dia seguinte dos acontecimentos. Há um rebanho numeroso que sempre sintetiza tudo colocando os EUA no papel de vilão desde o prefácio. Virou modelo de discurso que naufraga por falta de isenção e ignorância dos contextos históricos. Neste caso da Venezuela, passar ao largo de uma relação construída ao longo do século 20 com os EUA é apenas desinformação, defesa de ponto de vista ideologizado ou simples desprezo intencional dos fatos.
A História não se reescreve com narrativas ou opiniões, muito menos as construídas por ideologia política contaminada com complexo de inferioridade terceiro-mundistas. Ou seja, devemos nos indignar com qualquer um que ultrapasse a linha da civilidade. A mesma indignação que serve para Donald Trump não pode poupar Stalin, Mussolini, Mao, Castro, líderes árabes, africanos e asiáticos pelas barbaridades cometidas contra seus próprios povos. Sim, ficou cansativa essa conversa mole de que Tio Sam é o único malvado nesse circo de horrores. Por isso essas campanhas enlouquecidas pelas redes sociais em favor de A ou B sempre deixam no ar a impressão de que as pessoas falam do que não conhecem, apenas repetem o que o “mestre” mandou.
Os americanos são bonzinhos? Claro que não! Afinal, não há bonzinhos na História. Ela foi construída e transmitida pelas potências dominantes em cada período – impérios mongol, chinês, persa, egípcio, alexandrino, romano, árabe, britânico... Hoje vivemos uma batalha de interesses entre EUA, China e Rússia pelo domínio geopolítico a partir da economia. E isso só não virou uma carnificina porque o poderio militar dos EUA não tem paralelo, algo que os adversários sabem muito bem. Repete-se a lógica aberta pela imensa ferida causada pelas bombas de Hiroshima e Nagasaki: a paz será garantida pelas bombas. Até quando, é apenas palpite. Pode não ser o ideal, mas é melhor que seja até sempre porque acreditar no desarmamento geral tem cara de utopia.
A maioria das pessoas deu de ombros ou fez chacota quando Trump apareceu proclamando “Make America Great Again (MAGA)” e “America First” na última campanha eleitoral. Agora sabemos que era um aviso do que viria. Tanto é verdade que no dia em que Maduro foi retirado de Caracas apareceu no perfil oficial da Casa Branca uma publicação cujo título era “Chega de Jogos”, junto com a sigla “FAFO” (“F*ck Around and Find Out”). Em tradução livre, algo como “Faça besteira e arque com as consequências” ou “Brincou com fogo, vai se queimar”.
Ou seja, a ação na Venezuela parece ter sido a primeira amostra da nova “política internacional” dos EUA neste momento, e a Casa Branca fez questão de avisar que ações imprudentes ou desafiadoras podem gerar reações duras. Recado mais direto para Rússia e China impossível.
É importante entender que essa absurda política externa americana não tem nada de amadora. Tanto que entraram no radar Groenlândia (que pertence à Dinamarca e domina a região do Mar do Norte, rota naval crucial para Europa e Ásia), Panamá (o canal é outro ponto fundamental do comércio internacional) e, agora, Fernando de Noronha e base aérea de Parnamirim (pontos estratégicos no hemisfério sul para frear a influência da China neste lado do globo). E Cuba (transformada em ruínas pela ditadura e que tem localização estratégica), já recebeu um recado direto: “Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, eu estaria pelo menos preocupado”.
É mais saudável utilizar a inteligência para pensar o mundo com princípios de cidadania, com esclarecimento, com leitura analítica, compreendendo os fatos para tentar sofrer menos. Usar a boca para replicar discursos de direita e esquerda é entrar num armário com cheiro de naftalina e achar que vai encontrar uma roupa da moda. Estamos num mundo pós-tudo, onde direita e esquerda não fazem mais qualquer sentido e nada mais parece surpreender. Talvez seja mais adequado tentar trabalhar para que o tudo não seja assim tão tudo.
Como fez o presidente da Alemanha Frank Steinmeier em um evento, demonstrando o incômodo europeu com a pressão americana sobre a Dinamarca, em razão da Groenlândia: “Hoje há a quebra de valores por parte do nosso parceiro mais importante, os EUA, que ajudaram a construir essa ordem mundial. [...] Trata-se de impedir que o mundo se transforme em um covil da ladrões, onde os mais inescrupulosos tomam tudo o que querem, onde regiões ou países inteiros são tratados como propriedade de algumas poucas grandes potências”.
Claro que o recado dirigido aos EUA parece ainda mais talhado para a Rússia, que invadiu a Ucrânia, destruiu o país e começa a enviar ameaças veladas e drones espiões como avisos militares para a Europa. De quebra, o líder alemão também cutucou as posições sempre dúbias de Brasil e Índia: “Países como Brasil e Índia precisam ser convencidos a proteger a ordem mundial”.
É impossível negar que a encrenca vai muito além dessas “verdades” fechadas nos limites dos currais de rebanhos polarizados. É urgente perceber que o mundo agora vai muito além de capitalistas e comunistas. Afinal, o anão de jardim da Coreia do Norte informou ao mundo que “o governo monitora de perto os acontecimentos na Venezuela, espera que a democracia seja restaurada, que a vontade do povo venezuelano seja respeitada e que a situação seja estabilizada o mais breve possível por meio do diálogo”.
Como diz o meme de internet, “Menino, tu ainda vai ver coisa!”.
H. Romeu Illanba não é jornalista. É um obelisco.
