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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O carteiro sumiu

RichardsDrawings/Pixabay

Goya Bada

Meninos e meninas – e todas as variações – deste meu Brasil ora varonil ora brochado: não tá fácil! Que outro lugar deste mundinho de meu Deus passamos uma boa vergonha por dia, fora as dezenas de ruborizações nossas de cada dia?

Nem na hora do almoço esses jornalistas deixam a gente em paz, servindo molhos amargos como o rombo acumulado nas contas do governo federal até novembro: R$ 83,8 bilhões. Nesse balaio estão Correios, Casa da Moeda, Infraero, Serpro, Dataprev, Emgepron, Hemobras e EMGEA. Formam um pacote de lixo embalado como empresas estatais.

Segundo dados do Banco Central, esse grupo de ineficiência é um sumidouro de dinheiro público que apresentou rombo de R$ 6,73 bilhões em 2024 e R$ 6,35 bilhões em 2025. Petrobras, Eletrobras e bancos públicos não estão incluídos no cálculo desse ralo. Ou seja, o que é ruim não está livre de piorar.

O mais impressionante é que esses mamutes deficitários atuam em áreas altamente valorizadas no mercado mundial – tecnologia (Dataprev e Serpro), logística (Correios), infraestrutura aeroportuária (Infraero), impressos de segurança (Casa da Moeda), biotecnologia (Hemobrás), projetos navais (Emgepron), gerência de ativos (EMGEA) – e mesmo assim funcionam muito mais como cabides de emprego para apaniguados do Estado-patrão. Tanto que a maioria delas é simplesmente custeada pelo Tesouro e ponto final.

Embrulha o estômago pensar que, no governo FHC, as gigantes UPS, FedEx e Amazon manifestaram interesse em comprar os Correios, mas os espertos de sempre jamais arriscariam abrir mão de uma teta então muito fértil e melaram qualquer possibilidade de privatização – os rumores apontavam R$ 8 bilhões para abrir o leilão, e lá se vão 23 anos que o tucano deixou o poder.

Do posto de empresa-modelo mais admirada do país para o limbo atual foi uma ladeira de incompetência. A empresa tinha 51% de participação no mercado em 2019 e despencou para os 22% atuais. É claro que todo mundo faz uma pergunta básica: como é que diretoria, conselho e o próprio governo (acionista) não perceberam tamanho desastre?

E os sacripantas oficiais ainda têm a ousadia de tripudiar da nossa inteligência, afirmando que a bancarrota da empresa era inevitável desde que a sociedade se modernizou e deixou de enviar cartas com a popularização da comunicação digital. Como se o grosso da atividade da empresa não fosse a entrega de encomendas e mercadorias.

Bom lembrar que desde 2015 as empresas de correios do mundo entenderam que o nicho de correspondências estava desaparecendo e trataram de se reestruturar. Os alemães, muito bobinhos, resolveram a questão privatizando sua estatal e ponto final. Agora, surge a conversa de buscar parcerias ou abrir o capital. Ah, bom! Resta saber onde estão os incautos para entrar nessa roubada antes de qualquer reestruturação da empresa – embora a atividade tenha grande potencial econômico, os métodos “empresariais” do setor público dispensam apresentações.

Da sua trincheira no Palhaço do Planalto, Sassá Mutema foi aos alto-falantes para declarar apoio ao aporte de R$ 12 bilhões nos Correios e, peito estufado, afirmou que enquanto estiver desonrando a Presidência do Bordel Pau-Brasil, não haverá privatizações. Claro, o rebanho foi ao delírio já decorando a fala e ensaiando a claque para o ano da graça eleitoral que começa daqui a três dias. Como de costume, o fariseu de botequim esqueceu de lembrar algumas coisinhas que costumam dinamitar urnas eleitorais.

Como investidor não é dado a rasgar dinheiro, não existem interessados em comprar essa sucata desde a tentativa no (des)governo Bolsonaro. Nada menos que 15 mil funcionários (17% do quadro), que pelo visto já não fazem falta, deverão ser demitidos até 2027. Muitas agências serão fechadas e imóveis vendidos. Os R$ 12 bilhões aportados para “salvar” quem já está no inferno serão espetados nas costas daqueles otários de sempre, chamados “contribuintes”.

O empréstimo “saneador” foi assinado sexta-feira (26) com validade até 2040, garantido adicionalmente pela União. Ou seja, na falta de pagamento da estatal – algo bastante provável – e de liquidez das suas próprias garantias, o Tesouro [também conhecido por Viúva (nós)] abrirá pernas e cofres para manter os sorrisos dos credores da dinheirama: Banco do Brasil (R$ 3 bilhões), Bradesco (R$ 3 bilhões), CEF (R$ 3 bilhões), Itaú (R$ 1,5 bilhão) e Santander (R$ 1,5 bilhão).

Os mais céticos já entendem que BB e CEF vão terminar entubando suas (nossas) partes. Afinal, se daqui a 15 anos ainda houver ECT, o pessoal dos bancões estatais envolvidos no empréstimo provavelmente serão acometidos de amnésia do fiofó alheio. Até porque, segundo Emmanoel Rondon, presidente da encrenca, para complementar o descalabro, no próximo ano (que começa daqui a três dias) o ralo vai sugar mais R$ 8 bilhões com um novo empréstimo. Ou seja, por ora a continha vai fechar mesmo em R$ 20 bilhões. E ele afirma também que, se nada fosse feito, o rombo chegaria a R$ 23 bilhões em 2026.

Causou estranheza em Brasília a ausência das viúvas e bobos alegres da esquerda-caviar festiva para embarcar como avalistas nessa barca furada, já que defendem o Estado chafurdando na economia. Na verdade, esses militontos ficaram todos afônicos porque sabem que a friagem do sereno vai virar mais uma tempestade com dinheiro público.

E, last but not least, privatizada em junho/2022 a Eletrobrás encerrou o exercício de 2024 com lucro de R$ 10,4 bilhões, quase dobrando o resultado do ano anterior.

Goya Bada não é jornalista. É um doce.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Papangu-rei


Vatti Catar

Já dizia o velho Ulysses Guimarães: “Se você acha esse Congresso ruim, espere o próximo”. A velha raposa política vaticinou o que virou quase uma lei não escrita a cada eleição, quando emergem das urnas parlamentares ainda mais insignificantes, baixos, escatológicos, corruptos, indignos... A lista dos adjetivos é interminável e as perspectivas para a abertura das urnas em 2026 deverão confirmar a fala do Senhor Diretas, político lendário que foi um dos maiores presidentes da história da Câmara dos Deputados.

Somente um país amoral como o Brasil tolera um Congresso que piora a cada eleição. Hoje temos Senado e Câmara presididos por duas figuras absolutamente inadequadas, que ninguém sabe direito de onde vieram – não me venham falar de geografia e da naturalidade desses caras. Repetem a velha escrita do coronelismo como filhos de famílias dominantes nas políticas regionais e cercadas de investigações. Uma simples visita ao maior site de buscas da internet traz resumos desoladores:

“A família do senador e seus membros têm sido alvo de diversas notícias e investigações envolvendo polêmicas, que abrangem desde crimes ambientais e grilagem de terras no Amapá até esquemas de corrupção, rachadinha, contrabando e tráfico de drogas.”

“Mãe, pai, avó a padrasto do deputado já foram investigados ou presos nos últimos 10 anos.”

Os acordões que estão na ordem do dia para frear a refrega entre Legislativo e Judiciário não parecem motivados pelo indispensável equilíbrio entre os Poderes. Na verdade, visam acalmar o festival de rabos presos que provocam insônia generalizada. De um lado, um Congresso que dispensa apresentações. Do outro, um Supremo que engoliu a língua diante das inexplicáveis ligações diretas de parentes de ministros ou gestos de simpatia de alguns deles com empresas e empresários que operam na economia dos esgotos e reluzem na ostentação desabrida.

E os expedientes são um escárnio: patrocínios, bocas-livres nababescas no exterior, esposas, filhos e parentes embutidos em escritórios de advocacia pagos a peso de ouro para defender réus bilionários em tribunais superiores – alguns contratos são tão generalistas que podem até entubar manjubinha frita no forno da Pizzaria Brasil.

O escárnio mais reluzente até agora – nesta terra em que tudo se dá nunca se sabe o dia de amanhã – é reincidente: um mesmo togado que dispensou multa bilionária de um cliente da agora ex-mulher, decretou sigilo sepulcral em favor de outro depois de, por pura coincidência, participar de um voo de jatinho da alegria palmeirense – alegria que durou somente até o Flamengo apresentar seu jogo no Peru e levantar o tetra da Libertadores. Vá lá, alguém pode enxergar uma corrente de apoio para quer tia Leila fique calma, ainda mais agora que ventos suspeitos de fraudes da CPMI do INSS podem soprar no banquinho dela.

Ao mesmo tempo em que uma andorinha solitária não consegue emplacar sua data venia no código de conduta das outras incelenças de preto, no outro lado da Praça dos Três Podreres (linguagem neutre) as incelenças eleitas só caçam níqueis e fingem que nada demais aconteceu com os coleguinhas fujões do bananal bananeiro. Ao que tudo indica, jatinhos continuarão esvoaçando togas e gravatas nos ares urbi et orbi, tendo Brasília como hangar, e pousos e decolagens seguirão livres de freios de arrumação.

No Executivo, o fedor do patife-mor et caterva sobre os números de Petrobras, Banco do Brasil (inclusive Previ) e Correios remete ao lamaçal mensalão + petrolão. É apenas a firma reconhecida da vocação dos petralhas e a continuação do fluxo de esgoto no Palhaço do Planalto após a imundície deixada pelo soldador e seu pelotão fardado.

A questão do Executivo é complexa porque, diante da menor crítica, os rebanhos enlouquecem espalhando narrativas de defesa para seus capatazes, sempre apontando os dedinhos melados de esterco para o curral do outro lado do pasto. Pior, acreditam nas versões amestradas produzidas em laboratórios de narrativas, mas param de mugir diante de uma pergunta simples: que empresa contrataria esses insignificantes como CEOs? Ou alguém já esqueceu daquela outra que conseguiu quebrar uma lojinha de R$ 1,99?

Se a direita bronca não se envergonha de bater continência para pneus, tentar contato com ETs e pedir um golpe militar para salvar a democracia, a esquerdinha caviar-festiva constrange o circo com suas “viúvas” posando com aquele ar de intelequitual que finge não enxergar a roubalheira no seu próprio mar de lama, mas avista uma realidade paralela doentia e vive nela. Essa gente da militância veste um colete fajuto onde mandou imprimir “Guardiães das Virtudes”, no melhor estilo flanelinha que acredita ser engenheiro de tráfego.

Estes últimos dias de 2025 revelam que estão sumindo as boias de salvação dessa água imunda que começa a subir pelas nossas canelas, e que a corredeira não vai desaguar no precipício final da Terra plana para desaparecer por encanto negacionista. Há até quem jure ter visto disco voador sobrevoando Copacabana com uma faixa publicitária onde se lia “Em terra de rabo preso todo papangu vira rei”.

Vatti Catar não é jornalista árabe. É uma imprecação.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Sem salário, Bolsonaro pode receber Bolsa Família

 


Ex-presidente vai fazer curso de 
solda na cadeia para aumentar o soldo

O ex-presidente Jair Bolsonaro poderá ser beneficiado pelo Bolsa Família em breve. 

Bolsonaro deu entrada no pedido do benefício depois que o PL cortou o seu salário de R$ 46 mil, como Aspone. 

O ex-presidente receberá o Bolsa Família de sua própria família.

Flávio Bolsonaro já abriu uma nova franquia de chocolates para garantir o leitinho condensado do papai.

Com Bolsonaro fora do páreo, a direita se movimenta para lançar seus candidatos. 

Mas não há unanimidade. 

Flávio já se lançou, mas sem consenso. 

E sua candidatura já nasce com um racha. 

Ou melhor: uma rachadinha.

A notícia da perda de renda de Bolsonaro veio junto com a do aumento da renda do brasileiro. 

Um aumento de 5%. 

O ex-presidente planeja aumentar seus rendimentos fazendo trabalhos manuais na cadeia. 

Por isso, ele já se matriculou num curso de solda à distância. 

Por via das dúvidas, a PF reforçou as barras da cela.

Com informações do Jornal Sensacionalista

Mimimi do xilindró


Alisando Cresci

A pior característica dos estúpidos é a certeza de que o resto do mundo vive na estupidez. Há ainda uma casta mais estúpida na espécie dos estúpidos: os estúpidos burros – nenhuma associação com a nobre espécie dos asnos. O pior é que a estupidez não tem monopólio.

Lula e Bolsonaro são estúpidos e muito parecidos. Embora seus seguidores dogmáticos digam o contrário com uma idolatria constrangedora – e obviamente estúpida –, não passam de dois sujeitos ignorantes, incompetentes, fanfarrões, misóginos, homofóbicos, racistas, corruptos, indignos da Presidência da República. Estão por aí há mais de 50 anos sem qualquer relevância, mas hoje dominam a política brasileira pilotando uma polarização dolorosa para os destinos nacionais. Na verdade, disputam palmo a palmo o campeonato de vexames sempre caríssimos para o bolso do contribuinte. Não é tarefa difícil, dada a estupidez coletiva de uma sociedade que sempre se lixou para ela mesma.

Por muitos anos imaginamos que a representação brasileira do reino da burrice humana fosse feudo dos petralhas, naquela exuberância de gerar provas contra eles mesmos e na competência em colocar a corda nos próprios pescoços. Qual nada, desde 2017 emergiu das trevas do baixo clero uma família que roubou cetro e coroa dos adversários. Como naquele momento a petralhada estava encarcerada na roubada bilionária do consórcio mensalão + petrolão, ocupar o território da outra facção ficou mais fácil para os emergentes da estupidez, que tomaram o centro do picadeiro e tornaram o espetáculo ainda mais dantesco. Tanto que a frase “É inacreditável a falta de adulto na sala!” se tornou uma espécie de tatuagem na testa da família Bolsonaro, um coletivo de estúpidos.

Foram quatro anos de aberrações ao lado de figuras inacreditáveis como aliadas. Até o coitado do Jesus entrou na dança: não bastasse a cruz milenar, foi colocado no pau da goiabeira! E as Forças Armadas, especialmente o Exército, causaram assombro com a quantidade de gente desqualificada que vestia farda e foi ocupar cargos civis no governo.

O tempo passou e a ópera-bufa teve seu desfecho com o país amanhecendo debaixo de memes com a prisão do líder da bananada. “Se o cara for preso, o país vai parar”, esbravejaram em várias ocasiões os babões mais próximos da cesta de ovos. Bela profecia, o país já estava parado pelo feriadão.

A eterna mania de brincar com a inteligência coletiva que permeia a política nacional parece ter dado chabu e jogado a pá de cal nessa figura sinistra. A multidão que protestaria continuou na praia, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê trepada na serra. Ou num shopping, que ninguém é de ferro. Até porque a “prisão” foi mostrada: uma acomodação individual com 12 m², ar-condicionado, televisão, frigobar, janelas e banheiro exclusivo, com direito a equipe médica de plantão 24 horas. Quem vai perder um churrasco ou um cineminha por isso? Desde então as ruas estão cuidando somente do próprio cotidiano.

Inventar uma “vigília de orações” foi o cúmulo da estupidez, inclusive porque o alvo das preces nunca foi um modelo de religiosidade. Já a esposa, embalada como quase pastora, estava rezando a milhas e milhas dali, no Ceará – e provocando mais confusão, honrando a tatuagem na testa da família. Tudo ia bem até que a tentativa de romper do hímen da tornozeleira eletrônica alertou a Justiça do estupro iminente das medidas cautelares em curso. O Instituto de Criminalística atestou que o equipamento continuou virgem, mas ficou comprovada a tentativa de abuso de inviolável.

Até o Inspetor Clouseau, famoso pela estupidez em A Pantera Cor-de-Rosa, foi um dos primeiros a perceber que a tentativa de rompimento do hímen da tornozeleira era uma cagada sem tamanho, que seria associada ao tumulto da hora do culto orar pelo Exército de Brancaleone.

Quando o plano ruiu e a prisão preventiva foi decretada, chegaram a inventar que o destrambelhado tinha batido com a tornozeleira numa escada – sem estabacar-se no chão, diga-se! Passo seguinte, um dos luminares da egrégia confraria sugeriu criar a narrativa de que o homem tinha surtado e violado a dita cuja, abrindo uma picada para a defesa alegar mais um problema de saúde, agora de cunho mental, em busca de atenuantes que mantivessem a prisão domiciliar. Os aliados cogitaram ressuscitar o projeto de anistia. O mais impressionante é que a versão do surto psicótico extrapolou o ambiente dos currais do rebanho e contaminou a tese da defesa, surpreendendo o mundo jurídico.

Tudo seguia o roteiro da balela, já que ninguém sabia direito como tinha sido a tal tentativa de violação da tornozeleira. Até que surgiram na imprensa as imagens deprimentes da canela com a tornozeleira toda queimada. Para não deixar dúvida quanto ao nível da (falta de) inteligência dessa figura estúpida, sua própria voz foi ouvida assumindo a culpa pela tentativa de violação, confessando à policial que havia criado aquele pregueado ao redor do aparelho quando realizou a “Operação Jerico” com um ferro de solda. Tamanha cagada de queimar as beiradas do equipamento foi “por curiosidade”, segundo balbuciou a própria anta. No meio daquele frisson, Closeau teve um dos seus lampejos brilhantes: “Bastava ter cortado a perna, montar numa muleta e entrar na História com a ‘Fuga Saci’”.

Defender essa criatura é tarefa facílima. Os advogados sabem que não vão precisar explicar nada sobre as derrotas jurídicas certas, porque o cliente não dá chance. Mas, ele (ou alguém) paga muito bem e isso é o que interessa no fim. Só fica difícil para os causídicos convencerem os juízes de que alguém que dizem estar sob efeito constante de medicamentos fortes consiga realizar algo assim sem queimar as próprias canelas. Diante do conjunto de tantas maluquices e até para o bem do preso, o Supremo achou prudente manter a prisão preventiva. Por unanimidade.

E o Supremo teve boas razões. Afinal, foi abandonado em casa um doente que, segundo a própria família e advogados, padece de problemas nos sistemas cardiológico, pulmonar, gastrointestinal, neurológico, oncológico e psiquiátrico. A turma togada deve ter enxergado um bem caracterizado abandono de incapaz. Como é que deixam um indivíduo enfermo, idoso e alucinado sem vigilância e acompanhamento? Assim como atentou contra a tornozeleira, poderia ter introduzido o ferro quente no ouvido, ou atentado contra a própria existência!

Viu-se que os petralhas eram fichinha na arte de construir patíbulos para uso próprio e restou um clima boquiaberto entre os aliados. Muitos começam a se perguntar como é que que um sujeito que vive de imagem pública insiste numa opção pra lá de temerária para o próprio futuro político. Manter esse coquetel de desculpas esfarrapadas que mistura surto psicótico, confusão mental e efeito colateral de medicamentos potentes, inclusive psicotrópicos, significa adentrar um ambiente cercado de preconceito onde falta de lucidez e dependência grave a medicamentos pesados comprometem a credibilidade. Nada mais mortal para quem se acha o cavalo do cão da direita. Não seria melhor os doutores emitirem logo um laudo comprovando que o distinto é, na verdade, vítima de idiotia (retardo mental grave)?

Diante do espetáculo deprimente, os amigos-ratos começaram a pular do navio do capitão. O rombo no casco é enorme e só ficaram os velhos gatos-pingados oportunistas de sempre. Já o rebanho encurralado, vive a dolorosa constatação de que Bolsonaro é um destrambelhado idoso, doente, condenado e preso, que diz ouvir vozes vindas de dentro da tornozeleira eletrônica que tentou violar de forma demente. Os gaiatos de plantão já andam espalhando que o sujeito é tão fã de Lula que foi presidente, foi preso e agora quer ser metalúrgico. Também andam espalhando que a bichinha presa na canela, mesmo depois de tanto calor do ferro, disse “Tô contigo e não abro”.

Tudo que está acontecendo com Bolsonaro é de responsabilidade única e exclusiva dele mesmo, e esse tipo de trapalhão se torna tóxico quando ameaça o sistema. Por isso, nos ambientes íntimos da direita, já há um forte desejo de que Bolsonaro vire um problema exclusivo da Justiça, suma na poeira do esquecimento, leve os filhos junto e pare de atrapalhar a jornada do campo político, onde cada vez mais se forma um consenso de que essa família é uma fonte constante de estupidez e instabilidade.

Tanto que o Centrão já começou a negociar uma chapa presidencial sem ninguém do clã Buscapé. E como não tem bobo na trinca Valdemar-Ciro-Kassab, o enorme grupo que lideram tratou de espalhar que “o vídeo da tornozeleira inviabiliza anistia”. Até porque a insistência de tentar escapar pelo beco estreito da saúde mental desata um nó indigesto para o Centrão: se esse sujeito não responde por si, não tem mais condições de liderar absolutamente nada, muito menos exercer influência nas decisões do seu campo político numa sucessão presidencial.

É fato que a direita está tentando romper a própria tornozeleira eletrônica e se livrar dessa ligação cada vez mais indesejada. Pelo visto, chegou a hora do troco, de lançar o capitão gagá ao mar como ele fez com tantos aliados.

Ninguém merece ficar aturando essa aporrinhação infindável sempre que alguém importante cai nas redes da Justiça. O sujeito cometeu crimes e foi condenado? Que vá cumprir a pena que conquistou, o resto do país não pode ser penalizado junto. E chega dessa lenga-lenga de saúde frágil. Na hora da cana, esses patifes alegam que estão só vivos. Mas sempre prontos para subir em palanques, ocupar cargos e cometer novos crimes. Ora bolas!

Na verdade, o país vive as consequências da sua própria fragilidade. Enquanto continuarmos elegendo e reelegendo gente desqualificada, qualquer reclamação perde a legitimidade porque, a cada eleição, a chance de mudar é jogada na lixeira da cidadania. Afinal, os eleitos apenas são quem são, uma maioria de prontuários ambulantes que escolhemos como representantes nos Executivos federal, estaduais e municipais, Congresso Nacional, assembleias legislativas e câmaras municipais. Sem contar as nomeações para tribunais superiores, cada vez mais infestados de representantes jurídicos de padrinhos políticos.

Essa estupidez que emerge das urnas e a conivência que nos flagela refletem a sociedade que somos, e garantem ao Brasil uma posição vergonhosa: quatro insignificantes que ocuparam a Presidência – Collor, Lula, Temer e Bolsonaro – foram parar no xilindró tratados com mesuras que nenhum criminoso comum merece. E Dilma escapou por um triz. É tão vergonhoso que até o Rio de Janeiro, alma mater do crime organizado nacional, já dá sinais de aborrecimento por ter ameaçada a liderança de prisões de chefes de Executivo com sua corja de governadores que puxaram cadeia.

Enquanto durar a polarização ao redor de figuras degradantes o Brasil não sairá desse atoleiro eterno. Também parece insustentável que um país com mais de 200 milhões de habitantes aceite bovinamente ser governado por presidentes eleitos com menos de 30% dos votos, verdadeira miséria democrática de uma estatística que se perpetua por décadas. Um eleito nesse tipo de cenário deformado emerge das urnas sem representar nada além de uma minoria, e as consequências estão aí visíveis a olho nu.

O resultado dessa distorção é ter Lula e Bolsonaro se perpetuando em benefício próprio e de seus grupelhos, sem abrir espaço para qualquer tipo de renovação. São figuras desprezíveis que tomam microfones e privadas como sinônimos, e tratam o país como botequim de sua propriedade onde tudo é tocado com o elevado grau de imundície que carregam. Bem feito!

Enfim, chegamos à tal execução de pena tendo de aturar os jeitinhos brasileiros para vencer a dificuldade de punir. Os ilustres criminosos foram parar em quartéis, sala de estado-maior na PF e marmotas do gênero. E tudo indica que essas figuras que sujaram a farda manterão suas patentes militares.

Seguimos cheios de dedos para meter algemas em bandidos e mostrar imagens de suas prisões, que serviriam de alerta para futuros criminosos. Insistimos em deixar esses patifes criarem suas verdades mentirosas para desmanchar suas mentiras verdadeiras. Falta culhão a esta eterna republiqueta de bananas.

A última do papagaio é a alegação de que o general de pijama Augusto Heleno sofre de demência. Ora, se essa figura enfrenta o alemão Alzheimer desde 2018, como é que foi ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República de 2019 a 2023? A resposta é simples: porque foi nomeado por outro demente, o do ferro de solda. O pior de tudo é que, quando a coisa ficou histriônica demais, a defesa tratou de enfiar o Exército no meio da polêmica alegando que a Força é que errou ao indicar 2018 como início da doença – baseado em declaração do próprio enfermo.

A única carta fora do baralho fardado foi Bolsonaro, largado à própria sorte – como fez com tantos aliados – quando o Exército deixou claro que não o quer em suas dependências durante o cumprimento da pena. Na verdade, a instituição reservou espaço apenas para os oficiais-generais condenados. Capitão não entra nesse clube fechado, ainda mais quando parece estar em fim de linha.

Cadê os doidos que iriam parar o país batendo continência a pneus, em transe com aquelas rezas enlouquecidas na chuva, com celulares na cabeça procurando ETs? Caíram na real e desistiram do papelão que protagonizaram naqueles acampamentos ridículos? Claro, todo mundo tem mais o que fazer.

É saudável prestar atenção aos sinais do absoluto alheamento da caserna, que não emitiu sequer uma nota de duas cabeças (ativa e clubinhos da reserva) para protestar pelas prisões. É óbvio que as Forças Armadas não querem ser confundidas com os trapalhões da tropa.

Será que viramos a página e estamos num novo ciclo histórico? Pouco provável. Ainda vivemos divididos nos malditos rebanhos. Os militontos que cortaram os pulsos quando os petralhas foram engambelados, agora sentem orgasmos com a desgraça dos patriotários. E vice-versa. Nada mais bipolar! Sim, é verdade que a prisão levará o capitão ao ostracismo, inclusive por sua completa falta de brilhantismo. Mas há um rebanho órfão ansioso para conhecer seu novo capataz e ser tangido.

É sempre bom considerar que nesta republiqueta de bananas a casta política costuma se entregar a uma simbiose vergonhosa ao menor sinal de perigo, todos militando no mesmo lado para que o sistema de bons negócios não sofra solução de continuidade. E se livrando de quem botar a bunda (ou a canela) na janela.

É nestas horas que surgem projetos parlamentares sem qualquer interesse público como blindar e anistiar políticos, conter a atuação de instituições como Banco Central e Polícia Federal ou criar mecanismos para dificultar a punição de criminosos.

*Alisando Cresci não é jornalista. É especialista em mimimi de beiradas.